26 dezembro 2009

A relação entre Cultura e Política. Kracauer e a sua visão subjectiva.

Este é um excerto de um trabalho sobre a Relação entre a Cultura e a Política segundo a Escola de Frankfurt. Para a realização do trabalho, escolhi Siegfried Kracauer, Walter Benjamin e Theodor Adorno, para analisar, demonstrando assim as rupturas e interligações entre estes, como cada um via esta relação. No caso de Kracauer, a grande obra que irá guiar este trabalho será From Caligari to Hitler, no entanto, não é a única como podem verificar pela bibliografia. Quem tiver sugestões, alterações, erros, elogios, insultos, entre outros, a fazer, poderá comentar no Blog, serão bem aceites (os insultos não tanto) para melhorar o trabalho.
P.S. Peço imensa desculpa pelas devidas referências não estarem feitas, mas ao fazer copy/paste para o blog estas perderem, de qualquer maneira, se estiverem interessados é só enviarem mail. Obrigado por lerem.

Siegfried Kracauer foi um dos elementos pertencentes à chamada “Escola de Frankfurt”, tal como Adorno e Walter Benjamin, era um dos membros proeminentes dos intelectuais de esquerda da Alemanha de Weimar, sendo nos dias de hoje algo menosprezado em relação aos outros dois membros já referidos. Foi um estudioso da chamada “cultura de massas”, hoje denominada “cultura popular”, analisando os fenómenos da sua superfície, sendo que nessas análises/estudos que efectua sobre a cultura popular vai dar uma ênfase especial à fotografia e ao Cinema, indo este trabalho dar ênfase ao Cinema.
Com a ascensão dos Nazis, em 1933, parte para França, sendo que em 1941, emigra para os Estados Unidos, onde pública um vasto número de obras, entre as quais, From Caligari to Hitler: A Psychological History of the German Film (1947), que será alvo de especial atenção para a elaboração do trabalho. Para além desta obra, serão utilizadas para o estudo da relação entre cultura e política, Ornament der Masse (1927) e Theory of Film: The Redemption of Physical Reality (1960). Em From Caligari to Hitler, vai analisar quatro grandes períodos que denomina, The Archaic Period (1895–1918), The Postwar Period (1918–1924), The Stabilized Period (1924–1929) e The Pre-Hitler Period (1930–1933), indo colocar em anexo o Cinema Propaganda Nazi. Para o caso do trabalho, o período após a I Guerra Mundial marcará o inicio da análise da obra.
Para Kracauer, os filmes produzidos em cada nação reflectem os valores desta mais do que qualquer forma de arte. Para justificar esta afirmação propõe duas razões para ter elaborado as mesmas. Primeiro, os filmes nunca são produzidos individualmente, são um trabalho colectivo que envolve toda uma equipa de produção, onde todas as contribuições são importantes. Vai recorrer ao exemplo do realizador G.W. Pabst, enquanto filmava nos estúdios franceses Joinville, seguia atentamente os conselhos dos técnicos de produção que trabalhavam com ele. O segundo motivo que apresenta passa pelo facto do Cinema ser um espectáculo dirigido para as massas, para satisfazer os desejos destas, com esta posição apresenta desde logo a primeira ruptura com a teoria de Adorno e Horkheimer ao matizar o valor persuasor do Cinema junto do público e enfatizar o papel do público que o recebe. Enquanto os dois primeiros consideravam que o Cinema tira liberdades ao espectador, que estes se encontravam influenciados pelas imagens dadas pelo filme, Kracauer considera que essa situação não deve ser sobrevalorizada, pois mesmo os filmes de propaganda Nazi, “espelhavam certas características nacionais, que não poderiam ser fabricadas,” ou seja o cinema está condicionado pelo desejo do público de ver o filme, o que no caso de sociedades democráticas como nos Estados Unidos, reflecte-se nos resultados das receitas de bilheteira, o que acabava por sua vez por condicionar as produções. Esta afirmação também pode ser questionada, se quisermos pensar que o público pode pensar que está a ver algo que quer ver mas no entanto foi induzido a isso, sendo criado no espectador um hábito cinematográfico de assistir a certos géneros de filmes ou a certas temáticas.
Em From Caligari to Hitler, Kracauer vai traçar um retrato sobre o ambiente que rodeava os alemães no período após a I Guerra Mundial, os medos e os receios da população, ou seja vai traçar um retrato psicológico, sobre a Alemanha desse tempo, traçando um paralelo com a produção cinematográfica que se estava a produzir, onde o “Expressionismo” dominava os gostos do público, vai traçar um retrato psicológico sobre as tendências dominantes no povo alemão, através desta, este retrato irá culminar no cenário na ascensão de Hitler ao poder e a utilização do cinema por parte do Nacional-socialismo.
Esta análise social através do Cinema vai ao encontro da sua concepção de análise das imagens, “imagens do espaço (raumbilder) são o sonho da sociedade. Onde quer que os hieróglifos, dessas imagens, possam ser decifrados, poderemos encontrar a base da realidade social.” Esta concepção dos fenómenos sociais, sobretudo aqueles que podem passar mais desapercebidos, como uma configuração escrita a ser decifrada, leva a que seja conotado com o programa filosófico da “legibilidade do Mundo” , que acolhe alguma aderência noutros autores Judeus, tal como Walter Benjamin. Para Kracauer, o filme era concebido como uma expressão material e não como uma representação de uma experiência particular, como algo fulcral para a compreensão da história do seu tempo, para este "uma análise das manifestações discretas realizadas à superfície de um período, pode contribuir mais para determinar o seu lugar no processo histórico, do que um julgamentos de um período sobre si próprio.” Ou seja, aqui pode-se abrir outra questão sobre o Cinema como documento histórico, algo que não será analisado pois seria tema para outro trabalho.
Entre vários filmes que Kracauer utiliza para traçar um retrato psicológico da Alemanha do tempo em que foram produzidos, um dos que o autor dá maior destaque é Das Cabinet des Dr. Caligari (1920), de Robert Wiene, um filme que ainda hoje é uma obra seminal. O filme corrobora vários aspectos já referidos por Kracauer sobre o Cinema e a sua ligação com o estado psicológico da população e a relação com a política. Este processo passa desde logo pelo roteiro escrito por Hans Janowitz e Carl Meyer, estes procuram escrever o roteiro para um filme algo revolucionário, onde iriam estigmatizar os perigos da omnipotência da autoridade do Estado, manifesta nas declarações, estavam a dirigir-se ao Governo Alemão durante a I Guerra Mundial . O personagem do Dr.Caligari iria precisamente simbolizar esse poder que tudo pretendia dominar, que tudo pretendia controlar, mesmo que para isso tivesse que violar os direitos do Homem e a Lei, por outro lado o sonâmbulo Césare simbolizaria o povo, que era recrutado massivamente para o esforço de Guerra, acabando por entrar num ambiente bélico que o levava a tomar a opção de matar ou ser morto, acabando por se tornar um assassino para não ser morto. Ou seja, os soldados vistos como alvo de controlo do Estado, que agiam sobre ordens e não sobre a sua livre vontade, e que na arena do conflito teriam de tomar acções que não condizem com a sua conduta na sociedade. No entanto, esta situação acabou por ser revertida pelo realizador, que transformou o conto, numa “quimera conocted e narrada pelo mentalmente instável Francis. Para o efeito, esta transformação coloca o corpo da história original noutra que introduz Francis como se este fosse um louco” . Enquanto a história original criticava de forma metafórica a autoridade do Estado, esta nova versão glorifica a autoridade, tirando o papel da loucura inerente ao poder, que estava conceptualizado no primeiro roteiro. Esta situação remete para dois dos conceitos que temos vindo a analisar, desde logo a relação entre Cinema e Política, no caso os roteiristas procuraram transpor para o grande ecrã as suas visões políticas, algo que foi contrariado pela concepção de Robert Wiene que preferiu apresentar ao público um filme menos subversivo, que fosse ao encontro dos gostos destes. Esta alteração de Wiene corresponde assim à teoria de Kracauer quanto ao papel da vontade do que o público quer ver como parte da consciência produtiva. No entanto, ao colocar a história na mente de um louco, o realizador não abandonou as premissas do roteiro original, limitando-se a matizar as mesmas, esta situação servirá para Kracauer comparar esta revolta que ocorre na psique dos alemães com a conjuntura que levará à ascensão do Nacional-Socialismo ao poder, ou seja uma sociedade que anseia no seu subconsciente por uma revolta, mas que no entanto assume no seu exterior valores que primam pela manutenção dos valores. Importa referir ainda os cenários típicos dos filmes expressionistas, que distanciam o filme do Mundo real e colocam-no junto do Sonho. De referir, que à partida era esperado que o roteiro de Caligari não fosse aprovado, visto apresentar elementos considerados subversivos, mas para surpresa dos roteiristas, Eric Pommer, chefe executivo do DeclaBioscop, aprovou o mesmo, atendendo à necessidade do Cinema Alemão tinha de ser exportado e para isso era necessário ser um produto atractivo. E o chamado Expressionismo Alemão era um género rentável nas fronteiras externas da Alemanha, a ponto de ir influenciar largamente uma geração de cineastas na década de 30 e 40 nos Estados Unidos. Caligari não foi muito bem acolhido na altura da sua primeira exibição, no entanto, a sua core base irá ser um dos temas mais recorrentes do Cinema Alemão entre 1920 e 1924, que passa pela temática da alma confrontada com a escolha entre a desordem democrática e o regresso à ordem pela tirania, vão especializar-se em descrever actos de tirania e de tiranos e as consequências infligidas por estes. Entre os filmes que o autor exemplifica encontram-se Nosferatu (1920), Vanina (1922), Dr.Mabuse, Der Spieler (1922), entre outros. Nestes exemplos dados, há que destacar Dr.Mabuse, Der Spieler, pela simples razão de nos dar a visão de um tirano contemporâneo, ao contrário dos dois primeiros onde os tiranos tinham um enquadramento histórico passado em épocas anteriores. Tal como em Dr.Caligari, Dr.Mabuse apresenta-nos o protagonista em busca do poder total, a sede do poder. Se em Caligari, este hipnotiza Cesare para cumprir os seus objectivos mais pervertidos, Dr.Mabuse hipnotiza as suas vítimas impersonalizando as mesmas, a ponto de apenas um personagem saber a sua verdadeira identidade. Aqui Mabuse aparece como uma ameaça omnipresente, personificando o medo pelo desconhecido, o clima de suspeição que se vivia na Alemanha do período pós guerra. Se há críticos que consideram Dr.Mabuse um filme demasiado documentarista, Kracauer considera-o antes de tudo o mais como um documento da época, que apresenta um Mundo “sem lei e depravado. Uma dançarina de um clube nocturno representa num cenário rodeado de sex symbols. As orgias eram uma instituição, homossexualidade e prostituição infantil eram personagens do dia-a-dia,” a anarquia reinante, ficou representado no ataque da polícia à casa de Mabuse, esta cena metaforiza um episódio da vida real, nomeadamente entre Spartacus e as tropas de Noske. No entanto, há algo, que distingue Dr.Mabuse, Der Spieler, de Caligari, que passa pela correlação entre caos e tirania, ou seja pela proximidade que estes têm um do outro, algo que em Dr.Caligari não era apresentado, visto demonstrar apenas as diferenças entre caos e desordem e a tirania, não apresentando nenhuma ligação entre estes. De referir ainda que a obra de Lang irá ganhar mais duas sequelas, sendo que no segundo filme, Mabuse apresenta traços muito semelhantes a Hitler. Kracauer coloca o final desse ciclo, onde a “assediada mente alemã estava reclusa numa concha” com Das Waschsfigurenkabinett. Neste filme, vão estar presentes três tiranos, no entanto, representados através de figuras de cera, representando a realidade através do imaginário, nomeadamente através do sonho de um jovem poeta que ao adormecer sonha que estas figuras (Ivan o Terrível, Harun al-Rashid, Jack o Estripador) ganham vida.
Se a conceptualização imagética de tirania foi uma das grandes temáticas às obras cinematográficas entre 1920 e 1924, este não era o único tema contido nestas. Kracauer destaca desde logo a noção de destino, havia duas opções, tirania ou anarquia, já a Democracia não era vista como uma hipótese. Para explicar esta situação, Kracauer vai utilizar o seu meio preferencial para exemplificar as suas teorias, recorre à filmografia e exemplifica os casos particulares para extrapolar no geral. Para o caso do destino, irá pegar em casos como Der Mude Tod (1921), Die Nibelungen (1924), ambos de Fritz Lang, se no caso do primeiro, o destino actua sobre os tiranos, onde os actos dos tiranos são retratados como obras do destino, como algo pré-estabelecido, já em Die Nibelungen assistimos aos actos levados a cabo pela anarquia das paixões, onde o destino actua nos actos dos personagens. Die Nibelungen irá ter uma grande repercussão, vários dos seus elementos serão aproveitados para outros trabalhos germânicos, incluindo num filme que é paradigmático da propaganda Nazi, Triumph des Willens, os trompetistas de Siegfried, padrões humanos autoritários, entre outros, esta comparação de Kracauer, exemplifica sobretudo um padrão que podemos inferir após a leitura de From Caligari to Hitler, que passa por este criar uma ordem cronológica, onde a cinematografia acompanha a vida social, política, económica e sobretudo psicológica da Alemanha desse tempo, onde o Cinema apresenta traços nos quais se pode depreender uma continuidade lógica que irá culminar na ascensão de Hitler ao poder, ou seja, que os vários factores que ocorreram na sociedade Alemã durante a República de Weimar irão culminar na subida ao poder da tirania em detrimento da confusão que se vivia durante a anterior Governação, traçando-se assim um paralelo entre o Cinema e a Política, entre o sonho e a realidade.
Mas os exemplos cinematográficos dados por Kracauer não se ficam por aqui, visto este criar uma terceira divisão temática, ou melhor, terceiro período temporal, a que denomina de Período Estabilizado (1924-1929), onde refere filmes com temáticas referentes ao declínio, ao “caos silencioso”, “a prostituta e o adolescente”, o “Novo Realismo”, “Montagem” e “Breve Alvorada”. Neste período, a produção vai mais uma vez acompanhar a vida política e social dos cidadãos, e poderia ser dividida em três grupos. “O primeiro testemunha a existência de um estado de paralisia. O segundo grupo perde luz nas tendências e noções que estão paralisadas. O terceiro revela os trabalhos interiores da paralisada alma colectiva.” Entre os três, todos têm em comum não pretenderem ser subversivos para com o status quo, parecendo indiferentes para com a realidade em que viviam demonstrando uma frieza emocional incomportável. Este vai ser um dos pontos que Kracauer mais vai problematizar, o facto de não haver uma teoria, um movimento que mostre o caminho, algo que nem a obra de Kracauer irá resolver pois quando a escreve já está no exílio e já os acontecimentos que gostaria de ter evitado se encontram em ebulição.
Quanto ao denominado, Caos Silencioso, nestes filmes o tema, gira em torno da luxúria, dos desejos mais recônditos, levados a cabo numa sociedade caótica, onde a desordem reina, num ambiente de quase anarquia, onde o poder político, a autoridade, não consegue impor uma conduta à sociedade. Entre os exemplos particulares dado por Kracauer, refere Genuine (1920), de Robert Wiene (o mesmo de Caligari) e Der Letzte Mann (1924), de F.W. Murnau. Entre estes dois aparecem temas recorrentes entre os filmes que focam sobre o “caos silencioso”, nomeadamente a realidade social da maioria dos personagens, que pertencem à baixa classe média, representada como remanescente inexpressivo de uma sociedade desordenada , estes deixarem-se guiar pelas paixões e não pela razão, os cenários distantes do real, que matizam a problematização da realidade. Entre os géneros destes filmes destacam-se as comédias, filmes escapistas, mas sobretudo, o que interessa salientar passa pelo crescente interesse pelo documentário, o chamado Kulturfilme. O primeiro destes documentários a fazer um grande sucesso foi Wege Zu Kraft Und Schönheit, que teve a participação do Governo Alemão, para poder ser distribuído nas escolas como filme educativo. Esta importância dada aos documentários não é por acaso, os avanços efectuados durante esta altura serão aproveitados pelo Governo Nazi, para difundir o seu ideário de forma eficaz. Aliás juntamente com a montagem estes serão duas das temáticas mais importantes o Cinema de Propaganda Nazi, no chamado “período estabilizado”.
No caso do ponto a que Kracauer chama, “a prostituta e a criança,” há que destacar as temáticas referentes aos desejos sobreporem-se à razão, o autoritarismo dos citadinos, sendo que de todos os exemplos dados, o único que será dado será Metropolis, de Fritz Lang, pelo apreço que Hitler tinha pelo filme e ver a grandiloquência deste como exemplo para as obras de propaganda. Kracauer coloca Metropolis como o filme paradigmática da libertação da opinião durante o som, da voz reprimida durante o dia que desperta durante o sonho. No caso da análise de Metropolis, o autor volta a comparar uma obra anterior à ascensão do Nacional-Socialismo para comparar com os ideais deste, no caso compara o discurso de Maria, de que “o coração medeia entre a mão e o cérebro poderia ter sido utilizado por Goebbels. Ele também apelou ao coração, no interesse da propaganda totalitária,” referindo-se ao discurso onde o Ministro de Hitler referiu que o “Poder baseado em armas poderá ser algo bom; no entanto, é melhor e mais gratificante conquistar o coração das pessoas e mantê-lo.” . O final apresenta a ascensão totalitária após uma revolução.
Há ainda que destacar os épicos nacionais, onde se destacam os filmes de montanha, que misturam um hábito alemão (escalada de montanhas) com ideologia, esta situação foi utilizada por Quentin Tarantino em Inglorious Basterds, para satirizar os personagens alemães, nomeadamente quando Bridget von Hammersmark (Diane Kruger) questiona Aldo Raine (Brad Pitt) sobre como poderia esconder uma ferida sofrida num tiroteio num bar onde oficiais da resistência foram capturados, este responde para dizer que foi escalar uma montanha, ou seja, um hábito de época que na contemporaneidade ainda serve para caricaturar os alemães.
No período pré-Hitler (1930-1933), este período é marcado pelos épicos de cariz nacionalista, como The Rebel, onde a temática são as batalhas Franco-Prussianas. A temática das campanhas Napoleónicas na Prússia será muito recorrente nas obras deste período, que continham subtis mensagens, onde se procura legitimar as acções dos rebeldes que defendem a causa nacional. Para além disso, há ainda que destacar The King´s Dancer, que apresenta um líder um tanto ou quanto semelhante a Hitler, como que preparando o terreno para a ascensão do Führer ao poder.
Mas dos exemplos dados por Kracauer, nenhum atinge a dimensão do Cinema de Propaganda Nazi, estes poderiam ser divididos entre os newsreels (noticiários de curta duração, cuja informação perpassada era extremamente manipulada) e os filmes de propaganda propriamente ditos. Quanto aos newsreels, há que referir, que estes não são uma criação germânica, nem foram utilizados apenas pelos Nacional-socialistas na Alemanha, veja-se por exemplo o caso dos Estados Unidos, que irá utilizar estes pequenos noticiários de maneira massiva durante a Guerra Fria, perdendo estes a importância com o aparecimento da televisão. De referir que estes foram utilizados pelos Nazis antes da Guerra, no entanto, com o decorrer desta, o uso será cada vez maior, não só na Alemanha mas também noutros Países, essa função de exportar os ideais Nazis para o exterior das fronteiras alemãs fica comprovado com a tradução das newsreels em dezasseis línguas diferentes, algo que vai ao encontro dos ideais de propaganda proclamados por Goebbels, onde refere “Embora eu deva manter a ideia inabalável e inalterável, a propaganda deve ajustar-se a si própria às condições prevalecentes. A Propaganda é sempre flexível. Esta diz coisas diferentes aqui e ali.” Kracauer salienta a maneira como estas newsreels eram filmadas, para dar ares de realidade, nomeadamente através de ângulos de câmara pouco correctos no sentido fotográfico, mas que introduziam verosimilhança, que manipulavam o receptor ou melhor esterilizavam a sua opinião.
Os filmes de propaganda Nazi, apresentam um nível técnico elevado, beneficiando dos avanços técnicos que foram referidos anteriormente, desde técnicas de montagem, som, ângulos de filmagem, narrativa, utilizados para conseguir manipular a opinião do público. Este ponto de From Caligari to Hitler, apresenta o ponto culminante de toda a narrativa do autor, que constrói toda uma narrativa servida dos mais variados exemplos cinematográficos, até chegar ao ponto culminante da relação entre Cinema e a Política, onde a Cultura de Massas e o poder Político se encontram perigosamente interligados, onde o segundo utiliza a primeira para influenciar o povo.
Entre os filmes de propaganda Nazis, há que destacar, Olimpia e Triumph Des Willens, ambos da autoria de Leni Riefhenstal. No entanto, Kracauer prefere analisar Baptism of Fire e Victory in the West, no caso do trabalho irão ser analisadas as ideias chave de Kracauer para referir como a política utilizou a Cultura de Massas para chegar a estas. Para explicar a eficácia da utilização dos meios audiovisuais por parte dos Nazis refere três técnicas que são utilizadas de maneira exponencialmente eficaz, nomeadamente, comentário, imagem e o som. No caso do comentário, este poderia chegar onde as imagens não poderiam, desde explicar um contexto para o que estava a ser mostrado, explicar elipses temporais, ou até utilizar linguagem militar desconhecida do público em geral para “esmagar” este perante a sua insignificância em comparação com as figuras do poder, que sabem o que falam e o que fazem. Por sua vez, a imagem era fulcral para chegar ao público, pois a imagem faz “um apelo directo ao subconsciente e ao sistema nervoso.” . Já a importância do som, deve-se sobretudo á sua capacidade de aumentar ou diminuir a carga dramática ou efusiva de uma cena, de transformar uma situação épica numa situação ridícula e vice-versa, ou seja, um imponente tanque inglês poderia ser mostrado com a ajuda da música, como um pequeno brinquedo pronto para os alemães esmagarem.
Dizer que a política de propaganda nazi, só mostrava o que queria e passava não a imagem verdadeira mas sim a imagem que pretendiam passar como verdadeira, é fazer chover no molhado, no caso dos documentários referidos por Kracauer, o exército e o Führer eram os elementos em destaque, evidenciando a supremacia política e militar germânica. Estas imagens espalhariam a bravura, força e superioridade da raça ariana sobre as demais, a superioridade Nazi plasmada no grande ecrã através do Cinema. E como eram representadas as forças aliadas? Os aliados eram representados como o inimigo, como a força que queria destruir a nação Alemã, que era representada como vitima, a Guerra é vista como uma motivação para a libertação alemã, para a Lebensraum . Antes de terminar a análise a Kracauer, há que referir o exemplo mais conseguido da propaganda Nazi, que beneficiou de ter uma realizadora talentosa e de tudo ter sido feito a preceito, Triumph Der Willens, onde a glorificação da Alemanha Nazi é efectuada a preceito. Os símbolos de suásticas pelas cidades, as paradas militares, o discurso eivado de gestos de exaltação, tudo foi feito para demonstrar a força do Nazismo. Para culminar a chegada de Hitler a Nuremberga, revela a fusão entre o culto da montanha e o culto a Hitler, demonstrando mais uma vez a ligação entre estas obras e as anteriores. Ao referir a utilização dos ornamentos de massas por parte dos filmes de cariz fascista, revela uma ligação com a ornamentação dos filmes expressionistas, seja este ornamento, a nível de cenários, objectos ou humanos. Aqui recupera o seu conceito de Ornamento de Massas, onde na obra com o mesmo nome, problematiza sobre este conceito, refere que os ornamentos de massas são o “reflexo estético da racionalidade aspirada pelo sistema económico predominante”, subjugando o tempo de trabalho e o tempo de lazer ao Taylor System. Este conceito de monopolização do tempo do lazer, onde a cultura se torna uma comodidade e a fábrica uma indústria, é algo que já foi anteriormente estudado durante a análise a Theodor Adorno. Para Kracauer, as massas não participavam na concepção da cultura de massas, no entanto eram o seu principal receptáculo, era para estas que eram dirigidas, realçando a importância que estas tinham na reprodução do real, para estes, a cultura de massas, continha uma representação da realidade, uma aproximação com o Homem quotidiano, maior do que a high culture.
Poder-se-ia analisar outros exemplos que Kracauer menciona nas suas obras, visto o autor particularizar muito as suas ideias, apoiando-se para isso na Filmografia realizada durante a época que estuda, no entanto, esta situação poderia levar a que o trabalho pudesse parecer que estava a caminhar em águas puramente cinematográficas, o que não é o caso, pois o que se pretende é efectuar uma análise relação entre Cultura e Política e não à Filmografia da época, ainda que esta seja útil para particularizar e evidenciar esta relação. Este método de Kracauer, de utilizar o exemplo particular para explicar o exemplo geral, num método imbuído de algum didactismo, foi alvo de comentários de Adorno, que na obra The Curious Realist, afirma, “O pensamento dialéctico nunca fez parte do seu temperamento. Ele sustentou-se com a especificação precisa do particular, para utilizar como um exemplo para questões gerais.” Ou seja as ideias de Kracauer acabam por ligar quase sempre o geral e o particular, sendo praticamente impossível analisar o seu pensamento sem recorrer aos métodos que este utiliza. Mais tarde em Theory of Film, Kracauer vai ter uma abordagem diferente, quanto ao Cinema, algo que é visível nas críticas feitas por vários autores a este último. Neste, Kracauer representa o Cinema como uma representação da realidade, como algo que vai além do que a fotografia é capaz de mostrar, nomeadamente movimento. Se em From Caligari to Hitler, o autor apresenta um retrato sobre a sociedade do seu tempo através do Cinema, no caso de Theory of the Film, Kracauer, o grande elo de ligação entre esta e as suas anteriores obras, será a análise sociológica, os problemas que encontrou na superfície da arte, no entanto, nos seus últimos trabalhos vai sobretudo preocupar-se com a comparação entre realidade presenciada e realidade filmada.
No período cronológico que nos interessa estudar, o pensamento de Kracauer sobre a relação entre Cultura de Massas e Política, ou melhor Cinema e Política, é muito influenciada pelos acontecimentos que viu passarem-lhe pelos olhos sem poder fazer nada para pará-los. Esta é uma situação que ocorre também com Adorno e Walter Benjamin, no entanto aborda a questão de maneira algo diferente dos outros dois, sobretudo do primeiro. Se Adorno prefere colocar a relação entre Cultura de Massas e Política sobre um prisma algo negativista, onde destaca a perversidade que essa relação poderá ter na conquista dos heart´s and mind´s da população, como pudemos verificar, já Kracauer prefere abordar o Cinema como um reflexo de uma sociedade, onde indivíduos conscientes recebem a informação que pretendem, mas poderão ver os seus gostos modelados a ponto de começarem a querer algo que anteriormente não pretendiam. Para além disso, como homem atento sobre o seu tempo, problematiza sobre um grupo social em ascensão que consome essa cultura, os chamados “White Collars,” estes são uma classe média que segundo Kracauer teve um papel político muito importante, participando no rumo que a sociedade levou Assim podemos desde logo apresentar uma ruptura evidente entre as ideias de dois dos elementos da Escola de Frankfurt, se por um lado, Adorno vê o Cinema como uma “arma” perigosa a ser utilizada, uma arma que paralisa todos os sentidos e que hipnotiza a mente, para Kracauer, o Cinema representa a sociedade do seu tempo, vendo neste mais do que um elemento negativo, um elemento representativo. E quanto a Walter Benjamin? O que o distinguirá de Theodor Adorno e Siegfried Kracauer? Qual a sua visão sobre a relação entre Cultura e Política? E mais especificamente sobre o Cinema?

Bibliografia:

Hansen, Miriam, Decentric Perspectives: Kracauer's Early Writings on Film and Mass Culture, German Critique, No. 54, Special Issue on Siegfried Kracauer (Autumn, 1991), pp. 47-76, Published by: New German Critique.

Hansen, Miriam, Mass Culture as Hieroglyphic Writing: Adorno,. Derrida, Kracauer (retirado da Jstor).

Koch, Gertrud - Siegfried Kracauer- An Introduction, Princeton University Press, 2000(retirado da Jstor).

Kracauer, Siegfried, Theory of film: the redemption of physical reality, Princeton University Press, 1997.

Kracauer, Siegfried, The Mass Ornament: Weimar Essays, Harvard University Press, 1995.

Kracauer, Siegfried, From Caligari to Hitler: A Psychological History of the German Film, Princeton University Press, 1966.

Schlupmann, Heide, - Phenomenology of Film - On Siegfried Kracauer's Writings of the 1920s(retirado da Jstor).

Schlupmann, Heide, The Subject of Survival: On Kracauer Theory of Film. (retirado da Jstor).

Witte, Karsten, Introdution to Siegfried Kracauer´s “The Mass Ornament” (retirado da Jstor).

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