13 dezembro 2009

Hollywood na Espanha Franquista, do pós-Guerra


Este é um excerto de um sub-ponto, de um trabalho onde será desenvolvida a temática "Hollywood na Política Externa Norte-Americana pós II Guerra Mundial, actor principal da Diplomacia Cultural ou mero figurante?" No caso este é um ponto relacionado com a influência de Hollywood na Europa, tendo sido escolhidos dois Países para exemplificar o papel de Hollywood como veículo difusor dos ideais Americanos, mesmo em casos onde a informação era controlada, no Post será colocado parte do sub-ponto relacionado com o caso Espanhol.

Hollywood na Espanha Franquista, do pós-Guerra:

Em Espanha, estávamos ainda durante o primeiro período da ditadura militar Franquista, onde pela natureza intrínseca ao Regime instituído no Poder, a informação era largamente condicionada. Apesar desse controlo, o cinema teve algumas liberdades, e essa situação deve-se em grande parte a Franco ser um cinéfilo confesso e ser um admirador das capacidades do Cinema como veículo de transmissão ideológica. Um exemplo paradigmático dessa percepção de Franco do valor do cinema como veículo transmissor do seu ideário foi o seu papel na Produção de Raza, onde roteiro do filme foi escrito pelo próprio Franco, utilizando o pseudónimo de Jaime de Andrade. O filme teve estreia em 1942, sendo relançado em 1950 com o título Espíritu de una raza, tendo tido algumas alterações em relação ao original.
E como era visto o Cinema pelo povo Espanhol? O cinema era visto como um meio de evasão, num tempo de crise económica e repressão ideológica, era um meio de viver outra vida por parte da população, como que embrenhados numa outra vida plasmada no grande ecrã, que queriam que fosse a sua, com quem se identificam. O espectáculo cinematográfico tinha ainda a vantagem de ser barato (em comparação com outros espectáculos culturais), era confortável, sendo o local ideal para levar toda a família.
Para se ver bem o sucesso e importância do Cinema no Regime de Franco, em 1947, havia um total de 3000 mil salas de cinema, tendo estas em média 525 lugares. Esta situação irá fazer com que o historiador Britânico, Gerald Brenan refira, num comentário seu, que nunca tinha visto um povo tão apaixonado pelo cinema como em Espanha, dando o exemplo da cidade de Madrid, que tinha mais cinemas do que Igrejas.
Um dos problemas causados pelos filmes Norte-Americanos ao ideário Franquista, passa pela representação da mulher, no Cinema Norte-Americano dos anos 40 em diante. Esta situação acontece sobretudo nos chamados filmes noir, com a femme fatalle. Esta era representada como uma mulher praticamente emancipada, capaz de entrar no círculo restrito dos homens, praticando hábitos que costumavam estar associado aos homens, como fuma, beber, que não dependiam dos homens para viver, representadas por vezes com valores morais diminutos acabando muitas das vezes mal. Uma das actrizes que melhor representou esta personagem nos anos 40, foi Lauren Bacall (To Have and Have Not; Dark Passage; The Big Sleep), tendo-se destacado. Ou seja apresentavam uma concepção da mulher completamente antagónica à do ideário político Espanhol, evidenciando uma mulher emancipada do papel estritamente familiar, servindo estes filmes como um exemplo do que estas poderiam conseguir seguindo o american way of life.
A grande questão que se pode colocar, ao verificarmos situações como esta, passa pelo facto de como é que Franco permitiu que os filmes Americanos fossem exibidos no País? A resposta a esta questão não é única, mas pode-se sobretudo dizer que deve-se sobretudo a questões económicas, tal como Mussolini, Franco tentou incrementar a produção Nacional, no entanto, essa dependia das receitas obtidas através dos filmes Americanos, para se poderem desenvolver, caso contrário era insustentável. A criação de um sistema de prémios para o Cinema Espanhol, acabou por facilitar a importação de filmes, que passaram a ser dobrados em Espanha, que permitiam aos distribuidores granjear lucros consideráveis, descurando a produção nacional em favor da importação de filmes provenientes dos Estados Unidos. Esta medida de Franco trouxe apenas instabilidade ao meio de produção cinematográfico Espanhol, o que levou a ser tomada a medida de restringir o número de filmes estrangeiros no País, colocando-se um sistema de quotas, algo que vai desagradar aos distribuidores Americanos, a ponto de embargarem a exportação para Espanha de filmes Norte-Americanos entre o Verão de 1955 e Março de 1958. Esta nova política irá favorecer a produção Nacional Espanhola, sendo considerado o ponto de partida para o chamado nuevo cine español.
Outra situação que permitia estes filmes serem exibidos em Espanha, foi o facto de estes terem sido alvo de um processo de escolha prévio efectuado pelo sistema de censura, que poderia aceitar a exibição do filme exibindo-o de forma integral, permitir que o filme seja exibido mas com as devidas alterações a certas cenas ou diálogos considerados pouco condignos, e os filmes censurados. Para além do Governo, os filmes estavam sujeitos à censura da Igreja, que detinha uma forte influência na vida dos habitantes, criando a Oficina Nacional Clasificadora em 1950, por considerar que a censura Governativa estava a “amolecer”, por vezes os filmes ainda tinham de passar por um terceiro órgão de censura associado ao poder local. Entre os filmes que foram alterados encontra-se Casablanca (1946), que viu os diálogos de Rick Blaine sobre a sua participação na Guerra Civil de Espanha ao lado dos derrotados serem cortados, algo que a Igreja considerou insuficiente, visto o filme conter vastas imoralidades, como o jogo, violência, alcoolismo, entre outros. Outros dos assuntos que eram proibidos de serem exibidos encontravam-se relacionados com temáticas anti-fascistas, presença do operariado, entre outros que dificultaram a exibição dos filmes em Espanha.
Todas as limitações colocadas ao Cinema Americano, não fizeram com que este deixasse de influenciar a vida dos seus consumidores. Com o Cinema de Hollywood, os Espanhóis poderiam evadir-se do dia-a-dia, conviver com uma realidade diferente da deles, conhecer locais que desconheciam, e sobretudo conviver com ideais Democráticos, por muito que a Censura actua-se era impossível cortar tudo nestes filmes, como foi exemplificado em cima, sobre Casablanca. Outro dos casos já referidos foi o da influência que a representação das mulheres nos filmes de Hollywood teve em Espanha (durante a cronologia do trabalho), a ponto de existirem seguidoras destes ideais veiculados por Hollywood, as chamadas chicas topolino , estas tomam como exemplo personagens como a de Rita Hayworth em Gilda, sentem-se atraídas por estes ideais que vão contra todos os ideais veiculados pelo Regime Franquista, onde a mulher deveria ter um papel discreto na sociedade, estando subjugada à acção do homem.
Com o caso Espanhol pode-se desde já concluir que Hollywood, ainda que não a mando directo de Washington, cumpriu um papel de alguma relevância na chamada Diplomacia Cultural Norte-Americana. Mais do que os fundos concedidos a título de empréstimo a Espanha, para o desenvolvimento do País no pós-Guerra, foi através do Cinema, que os Norte-Americanos ficaram vistos como uma sociedade liberal, democrata, como um exemplo a seguir, sobretudo no caso das mulheres.

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