24 novembro 2009

João Ratão. Resenha Crítica


[Aviso: Contém Spoilers] Em 1940, a produção cinematográfica portuguesa, ficou-se apenas por três obras de ficção, “João Ratão”, “Feitiço do Império”, “Pão Nosso”, os três com temas distintos, sendo o primeiro alvo de reflexão neste trabalho. "João Ratão" foi um dos maiores êxitos de opereta em Portugal, nos anos 20, o seu tema evocava a participação Portuguesa na Primeira Guerra Mundial, nomeadamente na campanha da Flandres. A história da opereta de costumes populares incide no regresso de João Ratão à sua aldeia, após a participação no conflito e todas as peripécias que o magala tem para contar. O êxito da opereta não deixou indiferente o incipiente meio cinematográfico português, que através da Produção da Tóbis, e a realização de Jorge Brum do Canto é transposto para o grande ecrã, sendo na época um grande êxito de público e crítica.
O filme é paradigmático das comédias popularuchas produzidas durante o Estado Novo. Tratam-se de comédias ligeiras, regra geral apreciadas pelo Regime (mas não tanto por António Ferro, que as via com um certo desdém, a ponto de lhes chamar “o cancro do cinema nacional”), que não geravam grandes reflexões por parte do público, histórias simples, que distraem o povo em tempos de miséria económica, numa altura em que as privações da Guerra começavam a se fazer sentir. Esta repetição do mesmo género de filmes, com as mesmas temáticas, leva a que na época Chianca de Garcia (já emigrado no Brasil) escreva a Augusto Fraga, “Se você reparar bem, todos os filmes portugueses são iguais. Iguais ao primeiro modelo, que já era errado “A Canção de Lisboa”, ora veja, lá está o casal amoroso, o tio ridículo, o velho pernóstico, e o estroina generoso. De então para cá é sempre a mesma coisa. Repare no “João Ratão”, no “Costa do Castelo”, no “Homem às Direitas”, no “Pai Tirano”, etc, etc.”
 "João Ratão", realizado por Jorge Brum do Canto em 1940, apresenta a história ficcional de João Ratão, soldado português que participou na 1ªGuerra Mundial, pelo Corpo Expedicionário Português tendo estado presente no desfile dos vencedores do confronto bélico, regressando ao seu País natal como um herói de guerra. Todos os habitantes da Aldeia do Vale do Vouga parecem maravilhar-se com as histórias de João Ratão, que tendem sempre a ser exageradas à medida que são contadas. Pelo meio somos apresentados a uma miríade de personagens, desde logo Teotónio, pai de Vitória, figura respeitada pela comunidade. Manuel da Loja; O carteiro é o alívio cómico, praticamente surdo, essa deficiência gera várias confusões e mal entendidos engraçados, sendo que num deles fica bem demonstrado o cumprimento dos bons valores, do bom profissional, que a todo o custo quer entregar a carta à remetente, não aceitando sequer que o próprio pai desta a recebe-se. Para além disso ainda aparece a família fidalga, respeitada por toda a Aldeia, que as toma sempre como alguém superior ao mero povinho.
 Mas esta popularidade de João Ratão não é bem vista por toda a gente, é neste sentido que Bonifácio e o Sr.Diogo contratam uma artista para se fingir de Mariette, uma personagem que João Ratão inventou para simbolizar as mulheres que tinha conquistado, mentira essa que acaba por se virar contra ele. A chegada da falsa Mariette acaba por trazer um sentimento de desilusão para toda a comunidade, que via em João Ratão um virtuoso herói de guerra. A parte instrumental da canção de Mariette volta aqui a ser tocado mas em ritmo melancólico e triste, simbolizando o que essa invenção trouxe a João, pura tristeza. Pelo caminho assiste-se ao descrédito em que o personagem cai junto do povo da aldeia, que de herói passa a persona non grata.
 É então que a actriz pretende acabar com toda esta confusão gerada por Bonifácio e Sr.Diogo que a enganaram, dizendo que iria ser apenas uma brincadeira, mas entretanto desmaia, o que chega para estender mais esta situação ao longo do filme. A chegada de um soldado, colega de Ratão no exército desfaz muitas das dúvidas criadas à volta deste, juntamente com a actriz, inocentando João Ratão de um caso que nunca teve a não ser na sua imaginação. É então que a notícia circula boca a boca pela aldeia, à boa maneira rural, onde as noticias se espalham rápido através dos seus habitantes. Mas os romances não ficam por João Ratão e Vitória, o tenente Resende e a Fidalga Manuela também acabam por se apaixonar, ou não fossem estes dois últimos que se tivessem a corresponder, por intermédio dos primeiros que pediam para escrever por estes belas cartas de amor.
 Pelo final, João Ratão vai mostrar o seu lado heróico ao salvar a amada em perigo, quando ia ter com João. Toda esta cena é acompanhada por uma banda sonora para realçar o momento periclitante. No fim tudo acaba bem quando termina bem e os dois casais unem-se pelo sagrado matrimónio, como mandam os bons costumes, numa época onde a Igreja tinha um papel preponderante para a divulgação dos bons costumes, que é como quem diz onde havia uma forte ligação entre o Estado e a Igreja. Melhor filme para o Regime do que este não poderia haver, comédia de situação, passada no ambiente bucólico da Aldeia, onde o a ordem impera sobre a desordem, onde as relações são respeitadas, onde os laços não se quebram, ou seja um filme que diverte o povo e serena o Estado Novo, não havendo nenhuma crítica subversiva ao contrário do que vai acontecer em alguns trabalhos que se vão seguir a este.
 O filme apresenta algo fundamental para o sucesso de qualquer obra deste género, uma química notável entre os intervenientes, o casal formado por João Ratão e Vitória encanta pela ternura e ingenuidade, já o casal forçado para dar maior alegria à trama, formado pelo Tenente Resende e Manuela, os verdadeiros autores das cartas trocadas entre si pelo casal principal, apresenta uma química imediata, fora a fantástica dupla formada por António Silva (sempre fantástico) e Manuel Santos Carvalho como Manuel da Loja, a dupla da ginjinha que fez e faz rir os espectadores do filme.
 De realçar a banda sonora, muito viva, alegre, que intercala as cenas com músicas condizentes com as cenas, duas delas são memoráveis e ficam com bastante facilidade no ouvido, nomeadamente sobre Mariette (canção da autoria de Manuel de Figueiredo) e Maleitas de Amor, aliás a banda sonora de Jaime Silva, Filho e de António de Melo é bastante simples e eficaz adaptando-se ao ambiente do filme.
A obra sofreu algumas alterações em relação à opereta, sobretudo acrescentamentos para dar maior fluidez e sentido à acção, transformando a obra teatral numa obra cinematográfica. Outros dos pontos a realçar é o cuidado dado por Brum do Canto aos cenários e ao vestuário dos personagens, que não apresentam incoerências ao longo do filme.
 A decisão de colocar imagens reais retiradas de documentários da época sobre a I Guerra Mundial, se por um lado dá maior verosimilhança, por outro torna-se pouco impressionante nos dias de hoje, parecendo por vezes um sketch de um talk show, efectuado no âmbito de fazer rir e não de exemplificar um conflito. Outro dos assuntos tratados de maneira ligeira aqui mas muito comum na época trata-se das madrinhas de guerra, da troca de correspondência entre homens que se encontravam na Guerra e as mulheres que ficavam por cá, este vai ser um hábito muito comum durante a Guerra Colonial. Em jeito de conclusão pode-se dizer que no meio de todas as limitações, quer narrativas, quer orçamentais, quer o próprio Governo repressivo que tomava conta dos destinos do país, a verdade é que estas comédias populares continuam a ter um inestimável valor nos dias de hoje, merecendo ser alvo de atenção e redescoberta por parte dos cinéfilos portugueses.

Elenco: Óscar de Lemos (João Ratão), Maria Domingas (Vitória), António Silva (Teotónio), Manuel Santos Carvalho (Manuel), Teresa Casal (Manuela)

Bibliografia:

Costa, João Bénard da, O Cinema Português Nunca Existiu, Lisboa, CTT Correios de Portugal, 1996.

Ribeiro, M.Félix, Filmes, Figuras e Factos da História do Cinema Português 1896-1949, Lisboa, Cinemateca Portuguesa, 1983.

Piçarra, Maria do Carmo, Salazar Vai ao Cinema, O Jornal Português de Actualidades Filmadas, Coimbra, Minerva Coimbra, 2006.

Pina, Luis de, A Aventura do Cinema Português, Lisboa, Vega, 1977.

5 comentários:

MBatista disse...

grande tema, já ninguém se lembra disto, ainda bem que postaste isto, eu próprio já não me lembrava deste filme "joão ratão".

Manuel

PMF disse...

Boa resenha e um bom texto sobre uma obra representativa do cinema português daquela época.
É um facto que o cinema português nunca foi muito bem tratado, ainda para mais na própria televisão. Tirando os clássicos que todos conhecemos (O Pátio das Cantigas, Pai Tirano, etc.), sem lhes retirar o valor que têm no nosso património popular, é raríssimo ver um filme português em qualquer um dos quatro canais abertos. Se na Cinemateca há espaço para projectar filmes portugueses todos os meses, porque é que isso não acontece na TV pública?

Elmǿmp3 disse...

muito bem, boa conclusão, isto é que é qualidade

existe uma mentalidade generalizada nos media portugueses em que o cinema português nao tem qualidade relativamente ao estrangeiro. os mais jovens (quer se queira quer não, são o principal publico alvo dos filmes que passam na televisao) na sua maioria so querem ver filmes novos, com actrizes/actores novos, e com efeitos especiais/tecnologias ainda mais recentes - sim, os putos andam a ver cada vez mais porcarias (lua nova, cof cof). perante esta situação, as estaçoes televisivas apenas apostam no lucro e na pressão das audiencias.

filmes como este, hoje em dia, nem têm a oportunidade que merecem para serem reconhecidos ou sequer visualizados pelas novas gerações e, pelo andar da carruagem, duvido que alguma vez tenham.

pelo menos penso eu de que, mas tambem posso ser eu q estou um bocado rabugento por culpa do josé mattoso.

elmo loves everybody (>'.')>

Aníbal Santiago disse...

Concordo plenamente com os comentários. Infelizmente cada vez mais aposta-se no que é rentável, mesmo que não tenha qualidade, em detrimento da cultura. Goste-se ou não estes filmes clássicos Portugueses fazem parte do nosso Património Histórico, sendo representativos da sua época. Mas a culpa não passa apenas pelas estações de televisão, sejam publicas ou por cabo, mas pelas entidades que poderiam promover a cultura. Vou dar o exemplo de Almada, onde apesar da Biblioteca ter um ecrã de cinema, a verdade é que este é muito pouco utilizado e quando o é, é para ser mal utilizado, para exibir filmes que estavam à um mês ou dois em circuito comercial, não é assim que se divulga a cultura. Deveria de haver sessões continuas, criar hábitos nas pessoas. Mas quem diz em Almada diz nas Faculdades, que têm cursos de Comunicação e os eventos relacionados sobre Cinema são curtos, e então se formos falar de conferências são quase nulas. No blog vou aproveitar para aos poucos lançar artigos sobre os filmes clássicos Portugueses e sobre o Cinema em Portugal à medida que for avançando os estudos sobre a temática.

Respondendo à questão das televisões, infelizmente hoje em dia vivemos na época da Telenovela, do Reality Show e toda essa parafenália de programas inócuos que servem apenas para demonstrar como existe alguém que é mais estúpido do que eu e de conteúdo zero. A RTP Memória tem feito um bom trabalho na divulgação do Cinema Clássico, mas não chega, deveria caber às estações públicas o papel de difundir alguns destes. Há alguns anos atrás, a TVI tinha um programa chamado: Lauro António Apresenta, onde vários filmes clássicos eram apresentados, ainda que por vezes a horários impróprios, mas bastante interessante, fazem falta programas como esses, o que infelizmente duvido que possam voltar a haver. Pelo meio vamos vendo os Ídolos, ou o enésimo filme ou série de vampiros adolescentes com as hormonas aos saltos. O caso de Lua Nova é flagrante, um filme básico atinge um sucesso brutal por ter um conjunto de actores bombados que fazem suspirar as jovens durante a exibição (fontes próximas deram-me conta desta situação incomodativa). Hoje um filme não pode ter diálogos, não pode fazer pensar, tem sim de deslumbrar os olhos, e as televisões seguem esse mesmo rumo.

Concluindo, estes filmes clássicos deveriam ser amplamente divulgados, fazem parte do imaginário colectivo de uma época, demonstrando uma visão da sociedade daquele tempo, para o bem e para o mal é a nossa cultura e deve ser preservada.

P.S. A quem gostar da critica divulgue entre os contactos. Penso que é de vital importância divulgar filmes como este.

Elmǿmp3 disse...

epa andas com um portugues sim senhor, ve-se que andaste na FCSH !!