28 novembro 2009

O Jornal Português de Actualidades como paradigma do cinema não ficcional, em Portugal, durante o período da II Guerra Mundial


Excerto de um Trabalho sobre a Filmografia produzida em Portugal durante a II Guerra Mundial, neste excerto é estudada a produção cinematográfica Portuguesa não ficcional, com especial enfoque no Jornal Português de Actualidades.

"Para além dos filmes de ficção, as salas de cinema portuguesas deste tempo (II Guerra Mundial), foram também palco para a exibição de pequenas actualidades noticiosas, antes da projecção dos filmes ficcionais. Esta prática de exibir pequenas notícias antes dos filmes não era uma novidade, nem uma especificidade do Regime de Salazar, muito pelo contrário, era sim um hábito generalizado, a nível internacional. A nível conceptual e final eram bastante comparáveis à finalidade da imprensa escrita, sendo transmitidas semanalmente ou bissemanalmente, tendo apenas perdido fulgor com o a banalização do uso da televisão, que proporcionará aos telespectadores assistir às notícias no conforto do seu lar. O Jornal Português de actualidades ganha maior projecção durante a cronologia em estudo, sobretudo devido a questões relacionadas com a escassez de película, situação resultante do conflito Mundial que indirectamente afectava o País. Perante a escassez de fita, opta-se por praticamente deixar cair a produção de documentários, volta-se essa película para o investimento nas obras cinematográficas de ficção, apostando-se no Jornal Português de Actualidades, como veículo privilegiado de difusão de informação oficial, até por este gastar menos fita do que os longos documentários.
Esta série de actualidades teve um contributo bastante importante como veículo difusor da ideologia do Regime, a par dos cartazes e da rádio, tendo esta tríade, o condão de funcionarem como meios de propagação modernista do Estado Novo. Entre as matérias apresentadas, assiste-se a um especial apreço por figuras como Salazar, Carmona, comemoração de datas e eventos considerados importantes para o Estado Novo, desfiles, festas militares e paramilitares, bem como cerimónias religiosas. Pode-se dizer que “Salazar, o Marechal Carmona, o Cardeal Cerejeira, Exército, Marinha, G.N.R., Pupilos do Exército, a Legião e Mocidade Portuguesas são, esses sim, os actores principais da «política espectáculo» encenada por António Ferro.”1 Se a nível internacional estas actualidades eram bastante difíceis de serem rentabilizadas, no mercado nacional estavam completamente dependentes do patrocínio estatal, se o Estado pretendesse deixar de fundear estas produções estas pura e simplesmente não tinham condições de se manterem. Muitas destas dificuldades estão relacionadas com o diminuto mercado comercial português, e a não obrigatoriedade de transmitir estas notícias antes dos filmes, o que complicava qualquer tentativa de tornar estas obras auto-sustentáveis.
Quanto à influência exercida pela Inspecção Geral de Espectáculos nestes mini noticiários, esta também actuava, no entanto era uma actuação quase nula, visto os Jornais de Actualidades serem patrocinados pelo Estado, com membros simpatizantes na produção como António Lopes Ribeiro (que dirigiu o Jornal de Actividades entre 1938 e 1951), que deixava saber isso mesmo, para além da boa relação entre Salazar Diniz, Artur Costa de Macedo e Octávio Bobone com o SPN/SNI, demonstra a sincronia harmónica entre os produtores e os patrocinadores. Os envolvidos vão procurar desenvolver temáticas relacionadas/simpáticas ao Regime, estando conscientes da sua posição submissa.2
Entre estes noticiários exibidos durante o período em estudo no trabalho podemos referir títulos como, As Festas do Duplo Centenário (1940), que procurava exaltar a neutralidade e segurança do País, um cantinho sossegado à beira mar plantado, enquanto a Europa estava em plena tensão; Recuperação da Draga "Alcântara" (1940); Manifestação Nacional a Salazar (1941); A Manifestação a Carmona e a Salazar Pela Paz Portuguesa (1945). De salientar que entre 1943 e 1944, a produção destes pequenos noticiários, transmitidos em tela grande, sofreram um interregno.3 Durante o período da II Guerra Mundial, estas pequenas actualidades irão todas enfocar no mesmo tema, a neutralidade do País, a segurança existente em Portugal, sendo Salazar a figura central de todo este ideário, sendo que a partir da segunda metade dos anos 40, deixam de corresponder aos anseios do público.4 De salientar, que Salazar surge, como leitmotiv para tudo o que de bom se passava no País, quando não estava nos documentários, estes demonstravam o seu trabalho em diversas regiões do país. Para a divulgação destes noticiários e até para as obras ficcionais, muito contribuiu a medida de António Ferro em implementar os cinemas ambulantes, em Portugal. Este fenómeno ocorre em 1937, levando as produções a locais, onde não havia acesso às mesmas, seja por não existirem infra-estruturas ou por falta de condições financeiras das populações para irem ao cinema."

1 - Piçarra, Maria do Carmo, Salazar Vai Ao Cinema, O Jornal Português de Actividades Filmadas, p.16
2 - Piçarra, Maria do Carmo, Salazar Vai Ao Cinema, O Jornal Português de Actividades Filmadas, pp.54-56.
3 - http://www.cinemaportugues.ubi.pt/bd/
4 - Torgal, Luis Reis (coord), O Cinema sob o olhar de Salazar, p.105.

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