28 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "O Outro Lado do Paraíso"

 Num determinado momento de "O Outro Lado do Paraíso", Fernando (Davi Galdeano), o protagonista e narrador desta delicada obra cinematográfica realizada por André Ristum, salienta o seguinte: "O sentido da vida pode não ser alcançar um sonho, mas apenas lutar por ele com todas as forças. E é essa busca incessante que nos alimenta, enquanto nos dura a vida". O comentário traduz praticamente na perfeição a mensagem de "O Outro Lado do Paraíso" e aquilo que move alguns dos personagens. Um desses personagens é Antonio Trindade (Eduardo Moscovis), o progenitor de Fernando, um indivíduo idealista e sonhador, que almeja não só conseguir dar uma vida melhor à sua esposa e aos seus três filhos, mas também encontrar um local quase perfeito para habitar com o seu núcleo familiar. Esse desejo parece concretizar-se quando, após receber um sinal quase bíblico, Antonio decide sair do interior de Minas para Brasília, um destino que parecia ser praticamente perfeito para construir o sonho de Evilath (não faltam referências bíblicas ao longo do filme, tais como a luta utópica por encontrar o país de Evilath e a figura de uma cobra que aparece em dois momentos fulcrais da vida de Antonio), ou o enredo não tivesse os primórdios da década de 60 como pano de fundo, ou seja, poucos anos depois da fundação desta cidade que ainda está a dar os seus primeiros passos. O contexto histórico fervilhante, tão propício a sonhos como a desilusões, pronto a despertar sentimentos exacerbados e uma multitude de sentimentos, raramente é esquecido ao longo do filme, bem como as referências religiosas e políticas, com André Ristum a deixar bem explícito que as contingências deste período mexeram e muito com o quotidiano da família de Fernando. Diga-se que André Ristum efectua um trabalho competente quer na procura de transmitir a atmosfera da época, quer na exposição dos acontecimentos históricos (sempre com algumas liberdades à mistura), com o realizador a utilizar assertivamente elementos como os jornais, a televisão e a rádio para exibir episódios que ocorreram no seio deste período de tempo conturbado da História do Brasil. Estes elementos surgem como um meio ágil e prático de fornecer informação sobre o contexto histórico, com André Ristum a recorrer muitas das vezes a materiais de arquivo, algo que permite evitar diálogos excessivamente expositivos sobre esta conjuntura política intensa. Estamos na antevéspera do Golpe de Estado de 1964, no Brasil, que culminou na destituição de João Goulart (Jango), o Presidente democraticamente eleito (entrou no cargo após a renúncia de Jânio Quadros, algo exposto em formato de animação nos créditos iniciais do filme), com "O Outro Lado do Paraíso" a transmitir as paixões e ódios despertadas por esta figura quase lendária da política brasileira, bem como o fervilhar de emoções que pontuou este período.

27 fevereiro 2017

Entrevista a José Pedro Lopes sobre "A Floresta das Almas Perdidas"

 Pontuado por uma realização segura de José Pedro Lopes e um desempenho digno de atenção por parte de Daniela Love, "A Floresta das Almas Perdidas" mescla assertivamente elementos de terror (inclusive conta com uma faceta slasher), drama familiar e até humor negro, tendo tudo para ganhar o estatuto de filme de culto. "A Floresta das Almas Perdidas", um exemplo raro de uma longa-metragem de terror "made in Portugal", teve a sua estreia na edição de 2017 do Fantasporto e prepara-se para ser exibido pela primeira vez em Lisboa na oitava edição do FESTin. O Rick's Cinema aproveitou o facto de "A Floresta das Almas Perdidas" estar quase a chegar ao FESTin (dia 5 de Março, às 17h30, no Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira) para entrevistar online José Pedro Lopes. O realizador demonstrou uma enorme disponibilidade para responder às questões, algo que podem comprovar já de seguida. 


Rick's Cinema - Uma das informações que encontramos no site da Anexo 82 é que os elementos da produtora resolvem os problemas como o Macgyver ("Resolvemos problemas como o Macgyver"). Produzir, realizar e escrever o argumento de uma longa-metragem independente de terror, ainda por cima em Portugal, envolve ter o talento, a criatividade e a capacidade de improviso de Macgyver?

José Pedro Lopes: Sim, mas com uma grande diferença em relação ao Macgyver que é que não conseguíamos fazer o filme sozinhos. Contamos com muitos apoios na sua produção de gente que trabalhou connosco, ou nos apoiou logisticamente, e inclusive um apoio financeiro da Fundação GDA. "A Floresta das Almas Perdidas" é uma produção pequena, e foi preciso planear tudo muito bem para conseguirmos fazer os 25 dias de rodagem (que se espalharam ao longo de dois anos) e que envolviam ir filmar a locais muito complicados como o cimo do Caramulo ou o Lago Glaciar de Sanabria.


RC: O José Pedro Lopes já realizou e produziu diversas curtas-metragens, algumas no registo do terror. É mais fácil produzir e realizar um filme de terror em Portugal ou conseguir convencer o público a assistir ao mesmo, ou encontrar meios de distribuição e exibição? 

JPL: Creio que Portugal não aposta no cinema de género.
  Há muita gente que gosta e o faz (basta ver todas as curtas fantásticas de género que surgem no Fantas e no Motelx todos os anos). Mas financiar um filme neste registo é muito difícil. E distribuí-lo também, porque o público de cinema é escasso e é bastante céptico face a cinema nacional e ao de género.
  No Fantas este ano tens uma retrospectiva de cinema de género argentino, e podes encontrar muitos filmes de género na América Latina, uns com mais sucesso que outros, e alguns a chegarem até às portas de Hollywood. Mas na América Latina há abertura a financiar cinema de género e a apoia-la. Muitos vem do fórum Blood Window da Ventana Sur. Outros são financiados por institutos de cinema. No Reino Unido ou no Canadá, mesmo na Europa de Leste, todos os anos filmes apoiados financeiramente por institutos são de género.
 O cinema português tem muitos filmes bons, e imensa gente com talento. Aliás, viu-se isso na Berlinale. Inclusive a querer fazer fantástico. Mas o cinema de género e de terror, em Portugal, não tem a oportunidade que merece.


RC: No "É a Vida Alvim", o José Pedro Lopes salientou que na Ásia os cineastas não são tão presos a realizar o filme num único registo. Podemos dizer que essa mistura de registos do cinema asiático foi uma das inspirações para "A Floresta das Almas Perdidas", onde encontramos uma mescla de terror, drama e salpicos de humor negro?

JPL: Definitivamente. "A Floresta" começa como sendo uma história de amizade, com algumas discussões bem portuguesas e divertidas. Mas é uma história sobe perda, e sobre uma família destruída. Mas tudo isto é abruptamente assombrado por elementos de terror que tomam controlo do filme. E é um filme com uma mensagem, sobre a sociedade actual. Parece um absurdo quando escrito mas quem vê o filme fica surpreendido pela extensa agenda narrativa e temática que tem.
 É sem dúvida uma mescla. Muito terror, e muito muito drama, mas também bastante humor lusitano.

Entrevista a Roni Nunes sobre a oitava edição do FESTin

 Lá diz o ditado popular, "a curiosidade matou o gato". No meu caso, a curiosidade sobre a oitava edição do FESTin conduziu-me a enviar treze questões a Roni Nunes, um dos programadores do certame. Ganha o blog com a disponibilidade do Roni Nunes para responder a esta imensidão de questões (a ideia inicial era fazer algo como "oito perguntas sobre a oitava edição do FESTin", mas, para não variar, falhei o objectivo), bem como aqueles que estiverem interessados em ler um pouco mais sobre este recomendável evento que dignifica e valoriza o cinema em língua portuguesa (vale a pena realçar que esta edição conta com exemplares bem interessantes do cinema brasileiro como "Comeback", "BR716", "Big Jato" e "Curumim", bem como obras cinematográficas nacionais como "A Floresta das Almas Perdidas" que pode, com o tempo, ganhar o estatuto de "filme de culto"). Ao longo da entrevista, Roni Nunes aborda questões relacionadas com a selecção das obras cinematográficas, a parceria com o FILMin, a retrospectiva dedicada a Margarida Gil, o novo formato da FESTinha, entre outros assuntos. Vale ainda a pena salientar que a oitava edição do FESTin começa a 1 de Março e decorre até ao dia 8 de Março.


Rick's Cinema - O ano passado salientaste que "trazer propostas ousadas é um dever de um bom festival". A ousadia foi um dos motes para a selecção dos filmes que se encontram presentes na competição de longas-metragens? Quais foram as principais linhas definidoras para a selecção dos filmes da competição de longas-metragens? 

 Roni Nunes: A competição do FESTin tem feito uma percetível viragem no sentido de se tornar mais autoral, ousada e experimental – sem que o festival como um todo, no entanto, abra mão de outras das suas características, como a mostra de cinema mais acessível e o seu vínculo social. A ideia não é trazer filmes para nichos, mas sim obras que comuniquem com o público – mesmo tendo preocupações estilísticas e uma estética apurada.


RC: Fiquei com a sensação que a Competição de Longas-Metragens procura acima de tudo desafiar e estimular o espectador ao invés de se limitar a ir ao encontro do mesmo com conteúdos que são tão fáceis de digerir como de esquecer. Foi com esse intuito, para além das qualidades que observaram nos filmes, que seleccionaram obras como "BR 716", "Big Jato", "Comeback", "Animal Político", "Quase Memória"? 

RN: Posso afirmar sem grande modéstia que a competição do FESTin este ano, como também já o foi a do ano passado, é a melhor mostra de cinema brasileiro de Portugal. Como disse, ao mesmo tempo são trabalhos bastante acessíveis – como “BR 716”, “Big Jato” ou “Comeback”.


RC: A competição de longas-metragens mescla cineastas experientes como Domingos de Oliveira, Ruy Guerra e Cláudio Assis com estreantes na realização de longas-metragens, tais como Erico Rassi, Tião e José Pedro Lopes. Esta mescla de experiência e "sangue novo" foi algo propositado na elaboração da programação? O que nos podes dizer sobre as longas-metragens dos cineastas mencionados?

RN: Mesmo entre os primeiros que citas há uma diferença de gerações. O Ruy Guerra é um ícone do Cinema Novo, o Cláudio Assis é um génio do século XXI. Não foi algo pensado conscientemente, mas ainda bem que notou isso. É uma prova da vitalidade destas cinematografias. Em relação aos filmes, “Quase Memória” é uma meditação algo nostálgica sobre o passado, com um vai-e-vem na história bastante original – enquanto “BR 716” também vai ao passado mas, neste caso, através de uma leitura a “nouvelle vague” dos anos 60, as suas grandes esperanças e desilusões. Cláudio Assis e Tião são de Pernambuco, um dos grandes impulsionadores do cinema brasileiro do século XXI. Ambos são provocadores e filosóficos – com “Animal Político” recorrendo ao surrealismo e “Big Jato” ao artifício de dois irmãos, ambos vividos pelo magnífico Matheus Natchergaele, para fazer os seus “statements”. Érico Rassi vem das curtas-metragens e o seu primeiro filme é bastante seguro e tem outro intérprete genial, Nélson Xavier, enquanto a obra de José Pedro Lopes segue uma tendência muito contemporânea – a fusão de terror com arthouse.

21 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "Matrimonio all'italiana" (Matrimónio à Italiana)

 Depois de um "divórcio à italiana" com a anuência de Pietro Germi, Marcello Mastroianni protagoniza um "casamento à italiana" com a bênção de Vittorio De Sica. O humor e a tragédia estão bem presentes em ambos os filmes, bem como os comentários de foro social e o talento de Marcello Mastroianni para o humor e a sua capacidade para desfazer e satirizar a sua faceta de galã. Se em "Divorzio all'italiana", Ferdinando Cefalù, um indivíduo mulherengo, tentou ser traído pela esposa de forma a aproveitar a lei e conseguir uma pena mais leve por eliminar a cara metade, já Domenico (Marcello Mastroianni), um dos protagonistas de "Matrimonio all'italiana", apresenta uma personalidade igualmente galanteadora e um bigodinho saliente, enquanto procura não contrair matrimónio com Filumena (Sophia Loren), uma mulher de uma beleza impressionante e um carácter forte. Vittorio De Sica ziguezagueia no tempo para nos apresentar aos meandros desta relação amorosa conturbada, onde o desejo é mútuo, embora o amor não seja demonstrado pela parte masculina, com Domenico, um homem de negócios bem sucedido e endinheirado, a tardar em reconhecer Filumena de forma oficial. Os enganos entre Filumena e Domenico são imensos, com ambos a cometerem actos dos quais se arrependem, apesar de não conseguirem controlar os ímpetos, com Marcello Mastroianni e Sophia Loren a expressarem assertivamente a forma bem viva e muito própria como os personagens que interpretam expõem os sentimentos. Domenico é um indivíduo abastado e egocêntrico, que gosta de se vestir bem, fumar, cantar e desfrutar dos prazeres da vida. Filumena tem uma estampa vistosa, um olhar felino e uma personalidade mais complexa do que inicialmente pode dar a entender, com a personagem a apresentar uma evolução notória ao longo do enredo. De Sica joga com as convenções dos melodramas, com "Matrimonio all'italiana" a entrar pelos meandros deste género ao mesmo tempo que rejeita os seus ingredientes e assume a sua faceta de Commedia all'italiana. O humor e a tragédia reúnem-se, os comentários de foro social são notórios, o desejo sexual e as emoções são expostos de forma muito viva, embora não faltem momentos sentimentalmente poderosos, com "Matrimonio all'italiana" a não descurar algo de essencial, ou seja, a necessidade de existirem personagens fortes com os quais o espectador se importa e procura seguir, mesmo quando os protagonistas deixam a razão de lado para cederem ao sentimento ou ao seu ego. No início do filme, Domenico é chamado de urgência por Alfredo (Aldo Puglisi), o seu empregado, devido a Filumena, a mulher com quem mantém uma relação de longa data, estar gravemente doente. O momento é pontuado por algum humor, ou Domenico não estivesse acompanhado por Diana, a sua amante e empregada da caixa da sua pastelaria. Domenico não perde tempo e desloca-se até à sua habitação, onde ouve o médico a exibir uma preocupação notória em relação ao estado de saúde de Filumena. A face desta mulher encontra-se lívida e o seu olhar mortiço, com Domenico a parecer relativamente preocupado quando Filumena lhe pede para chamar um padre. A câmara foca o rosto de Domenico, com um close-up extremo a surgir como um meio para Vittorio De Sica expor que o protagonista entrou num momento introspectivo no qual se recorda do passado, nomeadamente, dos primeiros encontros com Filumena.

18 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "La ciociara" (Duas Mulheres)

 Cesira (Sophia Loren), a protagonista de "La ciociara", procura proteger Rosetta (Eleonora Brown), a sua filha, uma jovem de doze anos de idade, dos horrores da Guerra, um desiderato que conhece uma série de reveses e um episódio cruel e desolador que mexe com as emoções dos espectadores e dos personagens. "La ciociara" demonstra paradigmaticamente que Vittorio De Sica é um cineasta capaz de valorizar a dimensão humana dos personagens, enquanto aborda como poucos o contexto que rodeia as protagonistas e a forma como este influencia o quotidiano das mesmas. O cineasta contribui ainda para que os actores e actrizes construam figuras dotadas de dimensão, com Sophia Loren, Eleonora Brown e Jean-Paul Belmondo a terem interpretações dignas de atenção, enquanto Vittorio De Sica emociona o espectador com os acontecimentos que rodeiam os envolvidos, um pouco à imagem daquilo que tinha efectuado em "Sciuscià", "Ladri di biciclette", "Umberto D.", entre outras obras cinematográficas. O filme a ser alvo desta espécie de resenha crítica marca também mais uma feliz colaboração entre Vittorio De Sica e o argumentista Cesare Zavattini (inspirado no livro "La ciociara" de Alberto Moravia), com a dupla a contribuir para um retrato bem vivo sobre a forma como alguns italianos viveram e sentiram a II Guerra Mundial (o enredo decorre no Verão de 1943), algo conseguido através do olhar de Cesira e Rosetta, duas das personagens mais marcantes de "La ciociara". A presença das tropas alemãs contamina o território, bem como os bombardeamentos e os disparos, com a chegada de militares dos EUA e das tropas aliadas a ser sentida, com muitos destes elementos a contribuírem para a hostilidade que Cesira e Rosetta sentem nos territórios por onde se deslocam. Os sentimentos ficam muitas das vezes à flor da pele, algo notório nos momentos iniciais do filme, quando um bombardeamento aliado tem a cidade de Roma como destino. É nesse contexto intrincado que Cesira se vê obrigada a fechar temporariamente o seu estabelecimento comercial, enquanto a filha desmaia e o efeito das bombas é sentido, com o chão a estremecer, os objectos a caírem e o perigo a rondar os elementos que se encontram no interior deste cenário. Atormentada pelas consequências da II Guerra Mundial, Cesira prefere não correr riscos e partir para Sant'Eufemia, a sua terra natal, uma região rural e montanhosa, afastada dos grandes espaços citadinos, indo acompanhada por Rosetta. Sophia Loren transmite a personalidade forte, desenrascada e independente de Cesira, uma viúva que procura proteger a filha a todo o custo. Loren explana o seu talento, carisma e beleza como esta viúva de olhar felino que conta com um grande sentido prático, com a actriz a possuir ainda uma dinâmica convincente com Eleonora Brown, a intérprete de Rosetta. Eleonora Brown compõe uma personagem tímida, relativamente inocente, frágil, estudiosa e religiosa, que é confrontada com as agruras da guerra e a crueldade humana. A viagem destas duas personagens até Sant'Eufemia é marcada por alguns contratempos e um conjunto de episódios que deixam antever as dificuldades com que Cesira e Rosetta se deparam ao longo do enredo de "La ciociara", com ambas a manterem o desejo de regressarem brevemente a Roma. Cesira deixa o seu estabelecimento à guarda de Giovanni, um indivíduo casado, pai de dois filhos, que mantém um affair com a protagonista. O calor dos sentimentos que Giovanni e Cesira partilham é quase como uma pequena gota no meio de um oceano de incerteza e violência, onde as acções dos militares são sentidas e a morte paira por qualquer lugar, mesmo em espaços aparentemente calmos e idílicos como Sant'Eufemia

14 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "Ladri di biciclette" (Ladrões de Bicicletas)

Vittorio De Sica aproveita os momentos iniciais de "Ladri di biciclette" para colocar o espectador diante de alguns indivíduos que se encontram nas imediações de um centro de emprego, a aguardarem por notícias relacionadas com ofertas de trabalho, embora poucos tenham a sorte de serem chamados, algo que reflecte a elevada taxa de desemprego da época, nomeadamente, no período após a II Guerra Mundial. É um contexto conturbado que marca não só o enredo de "Ladri di biciclette", mas também de outras longas-metragens de Vittorio de Sica, tais como "Sciuscià" e "Umberto D", nas quais o realizador e argumentista aborda temáticas relacionadas com a crise financeira e de valores, bem como a pobreza que assola o quotidiano de alguns personagens. No caso dos três filmes mencionados, todos exemplares recomendáveis do neo-realismo, De Sica apresenta um enorme humanismo quer na abordagem das temáticas, quer nos diálogos, quer na construção dos personagens, parecendo praticamente impossível permanecer indiferente em relação aos universos narrativos criados pelo realizador (todos contam com a presença inestimável de Cesare Zavattini na escrita do argumento). Uma das figuras centrais de "Ladri di biciclette" é Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani), um pai de família que é chamado no início do filme para trabalhar a colar cartazes publicitários. Um sentimento agridoce toma de assalto a mente de Ricci: está feliz por conseguir um trabalho que lhe permite voltar a pagar as contas e viver sem o espectro da miséria, mas a tristeza e a dúvida logo tomam conta da sua mente quando percebe que necessita de uma bicicleta para poder corresponder às necessidades do emprego. Esta situação conduz Maria (Lianella Carell), a esposa do protagonista, a penhorar seis lençóis, um acto que espelha quer a união deste núcleo familiar, quer a condição financeira deplorável do casal. Vale a pena salientar que Maria e Antonio não são os únicos que se encontram a atravessar uma fase marcada por dificuldades materiais e financeiras, algo que se torna paradigmaticamente notório quando o empregado da casa de penhores decide guardar os lençóis deixados pela primeira. O armazém da casa de penhores encontra-se apinhado de lençóis, algo que obriga o empregado a ter de subir bem alto para poder encaixar as peças de roupa que se amontoam neste espaço, com esta situação a evidenciar paradigmaticamente que diversas famílias se desfizeram destes bens, naquela que é uma das cenas assustadoramente marcantes de "Ladri di biciclette".

09 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "L'oro di Napoli" (O Ouro de Nápoles)

  Retrato bem vivo da cidade de Nápoles e das suas gentes, "L'oro di Napoli" surge como uma espécie de visita guiada a Nápoles, conduzida com acerto por Vittorio De Sica, com o cineasta a expor uma visão muito própria das especificidades e contradições deste território, quase como se estivéssemos perante um espaço à parte, onde tudo é sentido e vivido de forma diferente e especial, com mais intensidade e emoção, enquanto ficamos diante dos napolitanos, bem como das ruas, estradas, lojas, cemitérios, igrejas e edifícios deste local. Nápoles é a grande protagonista do filme, com esta cidade a aparecer como o ponto de união entre os seis episódios de "L'oro di Napoli", com cada capítulo a contar com histórias e intérpretes distintos. A ficção invade o território real de Nápoles, com Vittorio De Sica a filmar imensas vezes nos espaços desta cidade, enquanto aproveita as singularidades da mesma ao serviço do enredo. O humor está presente ao longo de alguns episódios do filme, mas também o drama e a tragédia, com cada capítulo a deixar o espectador na presença de pequenos fragmentos das especificidades deste território. Entre casamentos fadados à desgraça, traições, revoltas contra símbolos da opressão, um indivíduo que vende sabedoria e outro que se encontra caído em desgraça, "L'oro di Napoli" coloca o espectador perante um mosaico de personagens muito particular, com cada capítulo a contar com intérpretes de peso como protagonistas. Vittorio De Sica interpreta o protagonista de um dos episódios do filme, nomeadamente, o quarto ("I giocatori"), com o cineasta a dar vida a Prospero, um conde caído em desgraça devido ao vicio pelo jogo. Proibido pela esposa de jogar, financeiramente exaurido, sem conseguir que os empregados lhe emprestem um cêntimo, Prospero limita-se a jogar com Gennarino (Pierino Bilancioni), um jovem rapaz que é filho do porteiro. Vittorio De Sica compõe uma figura que tanto tem de trágica como de cómica, ou Prospero não partilhasse o vício pelo jogo com o cineasta e intérprete. O cineasta transpõe um dos vícios que marcou a sua vida para o personagem que interpreta, enquanto Prospero desperta sensações mistas e contraditórias no interior da alma do espectador. Por um lado é impossível não soltar um sorriso quando encontramos Prospero a exibir um desespero notório por perder constantemente para Gennarino, um jovem que despreza os discursos e atitudes do conde, por outro é impossível não perceber que estamos diante de uma figura trágica que se deixou consumir pelos vícios. Vittorio De Sica compõe um personagem que mantém uma postura altiva, embora pouco tenha para apostar, com esta figura trágica a permitir que o actor e cineasta exiba mais uma vez o seu carisma e talento para a representação. Prospero gosta de apostar mas não tem jeito, nem sorte, nem cabeça fria, com um rapazinho a conseguir humilhá-lo sem grande esforço, enquanto "L'oro di Napoli" exibe um problema bem real, nomeadamente, o vício pelo jogo, ainda que inserido no interior da realidade napolitana.

06 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "Umberto D." (1952)

 Drama comovente, capaz de deixar marca, despertar angústia e uma enorme revolta, "Umberto D." apresenta uma actualidade assustadora, enquanto coloca o espectador diante da capacidade de Vittorio De Sica em abordar temáticas socialmente relevantes e despertar emoções bem fortes. As reformas baixas, a incapacidade da sociedade em integrar uma parte significativa da população idosa e as parcas condições de vida de alguns cidadãos de mais idade surgem como problemáticas que marcam o enredo de "Umberto D." e continuam na ordem do dia. "Umberto D." tem como pano de fundo o território de Itália, ainda em recuperação, após a II Guerra Mundial, um contexto que marcou outras obras cinematográficas realizadas por Vittorio De Sica, tais como "Sciuscià" e "Ladri di biciclette" (estas duas últimas no período "pré-Milagre Económico Italiano", enquanto a obra cinematográfica que é alvo desta espécie de resenha acompanha o período da recuperação económica). As três obras cinematográficas mencionadas, todas realizadas por Vittorio De Sica, surgem como exemplares recomendáveis, memoráveis e arrebatadores do neo-realismo italiano, com "Umberto D." a contar com diversas características associadas a este movimento. Veja-se as filmagens nas ruas, com a cidade de Roma a surgir praticamente como uma personagem (Vittorio De Sica e G. R. Aldo, o director de fotografia, contribuem e muito para a transmissão da atmosfera deste espaço citadino e dos comportamentos das suas gentes), ou a abordagem de temáticas ligadas aos mais desfavorecidos ou que passam por dificuldades, ou os comentários de foro social (e político), ou a utilização de um elenco composto maioritariamente por actores e actrizes amadores ou desconhecidos. Carlo Battisti, o intérprete que dá vida ao protagonista de "Umberto D.", é um dos elementos amadores que integram o elenco do filme e são capazes de se transformarem no personagem que interpretam, com o actor a contribuir para a densidade deste reformado que procura manter a dignidade no interior de uma sociedade que parece incapaz de integrá-lo. Umberto D. Ferrari (Carlo Battisti) é um indivíduo vetusto, reformado, educado e bem intencionado, que se encontra a experienciar uma série de dificuldades financeiras, com Vittorio De Sica a abordar um caso particular para expor uma problemática mais lata. Quase sempre acompanhado por Flike, o seu simpático cachorro, Umberto representa alguns dos reformados que trabalharam uma vida inteira, embora pareçam ter sido esquecidos nesta fase crepuscular das suas vidas. A reforma não chega para Umberto pagar a renda (algo que o leva a acumular dívidas), os conhecidos afastam-se da sua pessoa, enquanto que as actividades diárias estão longe de preencherem a alma deste indivíduo, ou seja o quotidiano deste antigo funcionário do Ministério do Trabalho é pontuado por uma série de dificuldades e contratempos que apenas parecem ser contrastados com os momentos de alegria dados por Flike ou pela humanidade de Maria (Maria Pia Casilio), a empregada de Antonia (Lina Gennari), a sua senhoria. Se Maria é uma jovem terna, simples e extremamente prestável, já Antonia apresenta uma frieza indelével e uma altivez praticamente indesmentível, surgindo como uma das várias personagens que apresentam um comportamento hostil para com Umberto. Antonia pretende despejar Umberto a todo o custo, apesar dos esforços deste indivíduo em reunir a verba necessária para pagar as rendas em atraso, algo inerente ao facto do reformado apresentar uma ligação muito forte com o quarto onde habita há vinte anos, embora o seu pequeno cubículo esteja localizado numa espelunca que conta com uma praga de formigas e poucas condições.

01 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "Sciuscià" (Vítimas da Tormenta)

 O destino é duro e inflexível para com os personagens principais de "Sciuscià", os jovens Giuseppe Filippucci (Rinaldo Smordoni) e Pasquale Maggi (Franco Interlenghi), dois rapazes que contam com uma amizade aparentemente inseparável, vivem em condições miseráveis e sonham adquirir um cavalo. É um sonho que parece saído de um conto de encantar, embora o quotidiano de Giuseppe e Pasquale esteja longe de contar com grandes pedaços de alegria, com o contexto que rodeia os dois personagens a afectar e muito o modo de vida dos petizes. Estamos em plena cidade de Roma no período após a Segunda Guerra Mundial, com Giuseppe e Pasquale a sentirem a destruição que afectou o território, a economia e a sociedade italiana, enquanto Vittorio De Sica realiza um drama neo-realista de excelência. "Sciuscià" partilha diversos elementos transversais a alguns filmes neo-realistas, tais como a utilização e aproveitamento dos cenários exteriores, filmagens em espaços interiores que não fazem parte dos estúdios (mesclados com cenas filmadas em estúdio), um elenco composto por actores e actrizes maioritariamente amadores ou desconhecidos, uma atenção latente aos desfavorecidos e ao drama daqueles que se encontram em situações extremas, os comentários de foro social, entre outros exemplos. É, também, um dos primeiros filmes de Vittorio De Sica a obter um reconhecimento considerável, sobretudo a nível internacional, com o cineasta a apresentar um retrato pungente sobre a vida de dois jovens engraxadores de sapatos que vivem em condições precárias e são obrigados a descurarem os estudos, tal como boa parte das crianças deste período. Essa necessidade das crianças órfãs ou de famílias desfavorecidas terem de trabalhar é exposta desde o início de "Sciuscià", quando encontramos os rapazes a dialogarem quase como se fossem adultos, apesar de manterem um tom relativamente infantil, enquanto laboram como engraxadores para ganharem a vida. Vittorio De Sica transporta-nos para o interior de uma cidade de Roma que se encontra ferida no seu orgulho, destruída na sua moral, marcada pela presença de soldados aliados, gentes depauperadas e negócios ilegais, com o cineasta a conseguir captar a atmosfera da época e transportá-la para o interior da mente e da alma do espectador. O cineasta incute ainda elementos de drama prisional e fuga da prisão a "Sciuscià", enquanto coloca a amizade da dupla de protagonistas à prova e desfere rudes golpes no estômago do espectador ao exibir como estes jovens são afectados por uma série de episódios desfavoráveis e um contexto arrasador. A amizade de Giuseppe e Pasquale sofre fissuras irreparáveis com o avançar da narrativa, enquanto os sonhos destes jovens se quebram diante de uma realidade difícil de combater. Estes dois rapazes trabalham como engraxadores, com Giuseppe a viver com a família, enquanto Pasquale é órfão, com a dupla a contar com parcas condições financeiras. Giuseppe ajuda financeiramente os seus familiares, tendo em Pasquale um amigo inseparável que dorme na sua casa. Pasquale é um pouco mais velho e experiente do que Giuseppe, com este último a encarar o amigo como uma espécie de mentor, com ambos a parecerem inseparáveis. Giuseppe conta ainda com uma forte amizade com Nannarella (Anna Pedoni), uma jovem delicada, que nutre sentimentos afectuosos pelo rapaz, embora ambos sejam separados a partir do momento em que o protagonista é detido.

28 janeiro 2017

Resenha Crítica: "Cloro" (2015)

 O destino nem sempre é simpático e pode contribuir para alguns reveses que proporcionam um embate angustiante entre as responsabilidades inerentes à realidade e os sonhos e objectivos para o futuro, que o diga Jennifer (Sara Serraiocco), mais conhecida como Jenny, a protagonista de "Cloro", o filme que marca a estreia de Lamberto Sanfelice na realização de longas-metragens. As expectativas de Jenny entram muitas das vezes em confronto com a realidade, com a adolescente, prestes a completar dezoito anos de idade, a ser colocada diante da difícil tarefa de ter de crescer antes de tempo, ou melhor, de ter de assumir responsabilidades que vão muito além da sua maturidade, capacidade e disponibilidade, com Sara Serraiocco a transmitir a incerteza que marca a alma desta jovem. Com o avançar do enredo percebemos que o coração de Jenny fica dividido entre um passado que não pode recuperar, um presente que não pediu mas que faz parte da sua realidade e um futuro que idealizou, com "Cloro" a deixar-nos diante de uma jovem que é colocada perante um contexto complicado que praticamente a obriga a ter de redefinir as suas prioridades. No início de "Cloro" pouco ou nada sabemos sobre as razões que conduziram Alfio (Andrea Vergoni), o pai de Jenny e Fabrizio (Anatol Sassi), o irmão mais novo da protagonista, a deslocar-se com o núcleo familiar de Ostia para um chalé numa colina de uma pequena aldeia situada em Abruzzo. É certo que ficamos perante uma espécie de prólogo que traça uma oposição entre Ostia e Abruzzo, para além de expor, ainda que brevemente, a dicotomia entre a vida de Jenny antes e depois de partir com a família para o chalé, apesar dos detalhes sobre estes acontecimentos apenas ficarem mais explícitos com o avançar da narrativa. O chalé pertence a Tondino (Giorgio Colangeli), o irmão de Alfio e tio de Jenny e Fabrizio, um indivíduo que procura ajudar os familiares, apesar de nem sempre conseguir corresponder às expectativas da protagonista. Andrea Vergoni imprime um estilo passivo, praticamente desprovido de vida a Alfio, um indivíduo que padece de uma doença do foro psicológico que o impede de conseguir reagir aos acontecimentos e cuidar dos filhos, algo que apoquenta Jenny. O argumento dota Jenny de alguma complexidade, com a protagonista a apresentar um conjunto de atitudes e sentimentos que evidenciam que estamos diante de alguém que ainda não atingiu a sua maturidade, nem se encontra preparada para lidar com este conjunto alargado de contrariedades, apesar de tentar lutar pela concretização dos seus sonhos e cuidar do lar. Sara Serraiocco tanto expõe o lado mais responsável de Jenny, algo que leva a protagonista a abandonar temporariamente os estudos para trabalhar como empregada no Hotel Splendor e a tentar cuidar de Fabrizio, como exprime uma faceta mais egoísta e desesperada da personagem principal, ou esta não estivesse a experienciar uma situação deveras complicada. Veja-se quando Jenny exibe o seu desespero para com os actos pouco razoáveis do pai, ou tenta convencer o tio a cuidar temporariamente de Fabrizio, tendo em vista a poder libertar-se do ónus de tratar do petiz.

24 janeiro 2017

Resenha Crítica: "La mafia uccide solo d'estate" (A máfia só mata no Verão)

 Não é mero acaso, ou coincidência do destino, que a primeira palavra proferida por Arturo Giammarresi (Pierfrancesco Diliberto durante a idade adulta; Alex Bisconti durante a juventude do personagem), o protagonista de "La mafia uccide solo d'estate", uma comédia de características muito italianas, tenha sido "máfia", ou as acções dos mafiosos não tivessem marcado e muito a vida deste aspirante a jornalista. Os pais de Arturo ficam claramente surpreendidos, enquanto o espectador não consegue deixar de esboçar um sorriso, sobretudo pelo facto do jovem ter apontado para Giacinto (Ninni Bruschetta), um padre que conta com uma personalidade deveras peculiar e ligações à máfia, com "La mafia uccide solo d'estate" a expor por diversas vezes que o crime organizado se encontra enraizado em Palermo, embora uma boa parte da população pretenda ignorar, ou desconheça esse facto. Os assassinatos são noticiados e acontecem em doses generosas, com os jornais a atribuírem a autoria dos crimes à máfia, apesar de diversos elementos da população local preferirem acreditar que os homicídios foram cometidos devido a motivações de ordem passional, uma linha de argumentação que desperta uma certa confusão na cabeça de Arturo e proporciona alguns momentos de humor. As características italianas de "La mafia uccide solo d'estate" remetem exactamente para a capacidade desta obra cinematográfica conseguir mesclar com enorme acerto a comédia e a tragédia (não faltam diversas mortes ao longo do filme), com as desventuras de Arturo, em particular, as suas tentativas de conquistar o coração de Flora (Ginevra Antona interpreta a personagem durante a infância; Cristiana Capotondi durante a idade adulta) a serem entrelaçadas com as acções violentas da máfia e episódios com um fundo histórico verídico. No início de "La mafia uccide solo d'estate", encontramos Arturo, já em idade adulta, a apresentar-nos a figura de Flora e a comentar que nunca teve coragem, nem a oportunidade de se declarar a esta mulher. Quais as razões que conduziram Arturo a não declarar o seu amor por Flora? O protagonista não deixa o espectador sem resposta ao salientar, ainda nos momentos iniciais de "La mafia uccide solo d'estate", que o facto de ser de Palermo condicionou e muito a possibilidade de manifestar os seus sentimentos junto daquela que sempre foi a sua grande paixoneta. Este é um território que conta com características muito particulares e propiciadoras do extravasar das emoções, algo que é exposto ao longo de "La mafia uccide solo d'estate" com enorme vida e algum humor, sempre sem descurar a violência que permeia Palermo no período compreendido entre 1969 (data da concepção de Arturo e do massacre da avenida Lazio, um evento relatado com um tom espirituoso pelo personagem principal) e 1992, ou seja, as balizas cronológicas em que decorre o enredo desta obra cinematográfica que mescla episódios e figuras reais com elementos ficcionais.

20 janeiro 2017

Resenha Crítica: "Cronaca familiare" (Dois irmãos, dois destinos)

 No início de "Cronaca familiare", uma das obras-primas realizadas por Valerio Zurlini, encontramos Enrico (Marcello Mastroianni), um dos protagonistas do filme, na redacção de um jornal, com um olhar cabisbaixo e uma postura que demonstra alguma tristeza e desânimo. Primeiro é confrontado com o facto do jornal do dia seguinte não contar com um único artigo da sua autoria, algo que não o apoquenta. Posteriormente, Enrico recebe uma chamada. A câmara de filmar concentra as suas atenções em Marcello Mastroianni, com o actor a ter um momento de interpretação pontuado pela subtileza e contenção dos sentimentos. Enrico segura o telefone de forma vagarosa, quase que a temer a notícia que aí vem, até ser notificado que Lorenzo (Jacques Perrin), o seu irmão mais novo, faleceu. A lâmpada colocada nas proximidades do telefone no qual Enrico recebeu a notícia não parece ser capaz de iluminar a alma deste indivíduo que permanece absorto nos seus pensamentos, com Marcello Mastroianni a expor paradigmaticamente que Enrico ficou emocionalmente devastado. O silêncio domina estes momentos, com o som de uma máquina de escrever, oriundo do fora de campo, a ser sentido, embora aquilo que fique na memória seja a saída de Enrico da redacção. O sentimento de perda é notório, mesclado com uma certa sensação de culpa e a certeza de que o destino nem sempre foi simpático para com a sua família, com o silêncio de Enrico a ser perturbador e tocante. Enrico caminha pelas ruas, até chegar a casa, parecendo engolido pelos pensamentos, pelas recordações e a triste certeza da impossibilidade de controlar o destino. O silêncio de Enrico termina quando o protagonista chega a casa e decide relatar em off alguns dos episódios que envolvem a sua relação nem sempre próxima com o irmão. Valerio Zurlini deixa-nos diante de longos flashbacks que expõem a história destes dois indivíduos, quase sempre do ponto de vista do personagem interpretado por Marcello Mastroianni, com o actor a assumir as funções de protagonista e narrador de serviço, enquanto ficamos na presença de um drama emocionalmente envolvente, sensível e tocante, que nos coloca perante dois irmãos que são separados e unidos pelo destino. Marcello Mastroianni tem uma interpretação sublime, com o actor a tanto expor o lado fura-vidas de Enrico, um indivíduo que procura lutar contra o destino e vencer na vida, como a evidenciar a sensibilidade e emotividade deste homem que aos poucos forma uma relação de amizade com o irmão. Enrico e Lorenzo foram separados quando o primeiro tinha oito anos e o segundo contava com poucos dias de vida. A mãe de Enrico e Lorenzo falecera, consta que devido a repercussões inerentes ao parto deste último, enquanto que o pai de ambos, uma figura que nunca chegamos a conhecer de forma presencial, encontrava-se internado no hospital, devido a ferimentos sofridos na I Guerra Mundial. Enrico culpara o irmão pela morte da progenitora, enquanto este último ainda era bastante novo para perceber tudo aquilo que o rodeava. Nesta fase da narrativa estamos em Setembro ou Outubro de 1918, com Lorenzo, anteriormente chamado de Dino, a ficar aos cuidados de Salocchi (Salvo Randone), o mordomo de um aristocrata que mora na Villa Rosa. A casa do chefe de Salocchi é pontuada pela abastança, com Lorenzo a ser tratado com os melhores luxos, acabando afastado do irmão, do pai de sangue e da avó (Sylvie). Se a avó de Enrico e Lorenzo é uma mulher simpática, simples e afável, algo transmitido por Sylvie, já Salvo Randone consegue explanar os gestos pomposos e a postura altiva de Salocchi, com o actor a contar com mais um papel secundário onde tem espaço para sobressair, sobretudo quando se reúne com o personagem interpretado por Marcello Mastroianni.

15 janeiro 2017

Resenha Crítica: La ragazza con la valigia" (A Rapariga da Mala)

 Melodrama envolvente, emocionalmente potente e tocante, pontuado por paixões impossíveis, abandonos dolorosos, sonhos desfeitos, relações improváveis, sentimentos fortes e interpretações de grande nível de Claudia Cardinale e Jacques Perrin, "La ragazza con la valigia" não consegue gerar indiferença ou sair facilmente da memória. Claudia Cardinale enche o ecrã de charme, delicadeza, ambição, sensualidade e ingenuidade como Aida Zepponi. Jacques Perrin transmite de forma exímia a personalidade sensível e delicada de Lorenzo, uma adolescente de dezasseis anos de idade que começa a sentir um fraquinho por Aida. É o regresso de Valerio Zurlini às relações proibidas, ou desaprovadas pelos familiares da dupla de protagonistas, um pouco à imagem de "Estate Violenta", a primeira longa-metragem realizada pelo cineasta. Em "Estate violenta", Jean-Louis Trintignant e Eleonora Rossi Drago interpretam um casal que desafia as expectativas daqueles que os rodeiam. Ele é filho de um fascista e tem menos idade do que a figura amada. Ela é filha de uma mulher conservadora, viúva de um herói de guerra, tendo uma petiz de tenra idade. Tal como em "Estate violenta", a reunião da dupla de protagonistas de "La ragazza con la valigia" acontece no meio de um contexto caótico. Diga-se que este caos foi provocado por Marcello Fainardi (Corrado Pani), o irmão mais velho de Lorenzo. Aida largou tudo e todos para seguir à aventura com Marcello, um indivíduo que lhe prometeu mundos e fundos, embora não tenha problemas em abandonar esta figura feminina de forma fria e cruel. A personagem interpretada por Claudia Cardinalle mantinha uma relação ambígua com Piero (Gian Maria Volontè), um indivíduo agressivo e impulsivo. Marcello também está longe de ter as melhores das intenções para com Aida, algo notório quando utiliza um apelido falso para enganá-la, nomeadamente, Marchiori. Sem dinheiro, apenas com uma mala com poucos bens e uma imensidão de sonhos por cumprir, Aida decide deslocar-se até à casa de Marcello e Lorenzo, tendo em vista a encontrar Marchiori, mas apenas se depara com a desilusão e a destruição dos sonhos que formara. As ilusões formadas por Aida transformam-se rapidamente em desilusões, com a protagonista a conhecer mais um revés que marca a sua alma. O rosto de Claudia Cardinale transmite raiva e desespero, com a actriz a evidenciar as contradições de Aida, uma cantora que sabe da sua beleza e conta com alguma experiência de vida, embora seja pouco expedita a perceber quando está a ser enganada, algo evidenciado por diversas vezes ao longo de "La ragazza con la valigia". Quem recebe Aida é Lorenzo, naquele que é um dos vários momentos marcantes do filme. Aida finge inicialmente que é uma vendedora de seguros, enquanto Lorenzo tenta proteger esta mulher da verdade ao mesmo tempo que procura manter a mentira do irmão. O olhar de Lorenzo não engana, com Jacques Perrin a demonstrar que o adolescente ficou condoído com a situação de Aida. A banda sonora contribui para exacerbar o tom melodramático que pontua o primeiro encontro entre a dupla de protagonistas, um momento fulcral para os sentimentos fortes que se geram entre Lorenzo e Aida. Perante a situação delicada em que se encontra, Aida opta por habitar temporariamente num pequeno quarto, num hotel barato, embora não consiga pagar o mesmo, tendo uma série de problemas financeiros. Esta conta temporariamente com o apoio financeiro de Lorenzo, enquanto o adolescente se aproxima da protagonista e tenta que esta não descubra que é irmão de Marcello.

14 novembro 2016

Resenha Crítica: "Il vedovo" (O Viúvo Alegre)

 Um dos aspectos fundamentais da chamada "Commedia all'italiana" centra-se na capacidade das obras cinematográficas do género encontrarem o humor a partir de situações trágicas. "Il vedovo" não é excepção, com Dino Risi a realizar uma comédia à italiana onde não faltam tentativas de golpes, traições, planos mirabolantes e personagens incapazes de melhorarem as suas condições de vida, com o filme a remeter para outras obras do género como "I soliti ignoti" e "Divorzio all'italiana". Não falta um marido que se tenta livrar da esposa, traições, um grupo que elabora um plano que parece incapaz de executar, mas também diversos momentos onde o humor e a tragédia andam lado a lado, bem como um retrato sobre a Itália do denominado "milagre económico", com "Il vedovo" a surgir como um dos recomendáveis representantes do género. Um dos intérpretes que sobressaiu em grande nível neste género de filmes é Alberto Sordi, o protagonista de "Il vedovo", com o actor a exibir o seu carisma e talento para o humor como Alberto Nardi, um empresário romano que tarda em conseguir obter sucesso e respeito. Sordi imprime uma lábia latente a este empresário bem falante e confiante, mas pouco sagaz para os negócios, que engana os funcionários, trai a esposa, ludibria a amante e traça um plano rocambolesco para ficar milionário. Se têm dinheiro disponível, o melhor é afastarem-se de Nardi, caso contrário o mais provável é que este empresário tente convencê-los a investirem no seu negócio, com Alberto Sordi a conseguir transmitir a confiança deste indivíduo que tem "mais olhos do que barriga". Nardi investe os fundos que tem e aqueles que não estão à sua disposição, tendo um negócio relacionado com o fabrico de elevadores onde os prejuízos superam e muito os lucros. Os funcionários encontram-se quase sempre revoltados devido aos ordenados em atraso, os produtos fabricados nem sempre funcionam, os credores não "largam" Nardi, enquanto o empresário conta com companhia leal do tio (Nando Bruno), do marquês Stucchi (Livio Lorenzon) e de Fritzmayer (Enzo Petito). O tio de Nardi é um antigo taxista que investiu todo o seu dinheiro no negócio do sobrinho, sendo sócio e motorista do familiar, apresentando um estranho orgulho por fazer parte deste projecto que tem tudo para não vingar. Stucchi é um marquês caído em desgraça, que respeita e admira Nardi, enquanto Fritzmayer é um técnico alemão que trabalha na criação dos elevadores da empresa do protagonista. Nando Bruno, Livio Lorenzon e Enzo Petito convencem como este trio peculiar, sobretudo no último terço, quando os personagens que interpretam são "empurrados" para o interior de um plano rocambolesco e perigoso. Quem não partilha qualquer admiração por Alberto Nardi é Elvira Almiraghi (Franca Valeri), a esposa do protagonista, uma mulher financeiramente abastada e pragmática, que já não suporta os negócios falhados e os devaneios do esposo. Franca Valeri exprime de forma hábil o enfado de Elvira em relação a Alberto, com o casal a contar com uma relação pontuada pela frieza, diversos enganos e traições. O casal habita num espaço de dimensões alargadas, decorado de forma a expressar a saúde financeira de Elvira, uma mulher experiente, de personalidade forte, que não está disponível para conceder mais dinheiro ao esposo, após diversos negócios falhados deste indivíduo. A casa conta ainda com diversos funcionários e uma série de produtos que Alberto furta para oferecer a Gioia (Leonora Ruffo), a sua amante, uma jovem loira, algo ingénua e pouco expedita a perceber que se está a envolver com um aldrabão.

Leonora Ruffo transmite a ingenuidade da personagem que interpreta, uma jovem que não liga à opinião daqueles que a procuram alertar sobre Nardi, com Gioia a confiar no empresário, mesmo quando este recolhe o casaco de peles que lhe oferecera, tendo em vista a utilizar o adereço para adiar o pagamento de uma dívida. Alberto Nardi tem planos grandiosos para a sua empresa, mas poucos fundos e parco engenho para concretizar esse desiderato. Nardi sonha com grandes feitos, mas também com a morte da esposa, um desejo que exibe paradigmaticamente a falta de amor que existe entre o protagonista e Elvira, bem como o lado negro deste empresário. Se Nardi é um indivíduo que é facilmente enganado, que apenas parece estar rodeado por aqueles que são incapazes de contrariá-lo, já Elvira apresenta uma sagacidade latente a gerir a fortuna da família e uma perspicácia sublime para efectuar bons negócios. Elvira mantém uma série de contactos junto de empresários abastados, tenta manter a sua fortuna e despreza a companhia do esposo, enquanto este último procura obter um empréstimo bancário para investir no negócio dos elevadores. O empréstimo apenas é avalizado pela entidade bancária se Elvira assinar o contrato, algo rejeitado por esta mulher, uma situação que coloca Alberto em pânico. A dinâmica entre Sordi e Valeri como este casal disfuncional funciona quase sempre na perfeição, com a segunda a exibir com gosto o desprezo que Elvira nutre pelo esposo, enquanto o primeiro demonstra por diversas vezes o lado negro deste empresário neurótico e egocêntrico, que sonha com a morte da esposa e pretende livrar-se da mesma para enriquecer com a herança. Num determinado momento de "Il vedovo", Elvira prepara-se para efectuar uma viagem de comboio, tendo em vista a visitar a progenitora. A notícia de que ocorreu um acidente no comboio onde Elvira estava presente e o anúncio nos jornais de que esta poderá ter falecido conduzem Alberto Nardi a evidenciar um falso sentimento de dor e a desfrutar imediatamente da possibilidade de ser milionário devido à morte da esposa. Nardi nem se preocupa em aguardar pela confirmação da morte de Elvira, ou pela hipotética descoberta do corpo, com o empresário a iniciar os preparativos do funeral, enquanto exibe o seu lado mais impulsivo e errático. O humor negro permeia a organização do funeral, bem como os comportamentos de Nardi, com Alberto Sordi a exibir o estilo megalomaníaco e pouco controlado do personagem que interpreta. O empresário ainda vai contar com (mais) uma surpresa desagradável, com Dino Risi a controlar os timings dos momentos de humor e das reviravoltas de forma exímia, inclusive quando o protagonista planeia um assassinato escabroso. Nardi anseia ser bem-sucedido a todo o custo, com este personagem a surgir como um estereótipo das ambições da classe média deste período, algo exposto de forma propositadamente exagerada por Dino Risi. A necessidade do protagonista trazer o carro da esposa para exibir prosperidade, a procura de investir em negócios citadinos e descurar os espaços rurais, o materialismo, as traições, surgem como comentários do foro social de Dino Risi, algo transversal a diversas "comédias à italiana", com o cineasta a colocar-nos diante de um empresário peculiar que raramente consegue executar um plano com sucesso.

Nardi procura apoios financeiros, prepara um velório com o entusiasmo de quem está a comemorar um feito glorioso, decide retirar-se temporariamente num convento, planeia um assassinato e anseia ardentemente ser viúvo. No entanto, os momentos de alegria de Nardi como viúvo duram pouco tempo, sobretudo quando ocorre uma reviravolta na narrativa, com "Il vedovo" a contar com uma série de situações que resultam não só devido ao argumento e à realização de Dino Risi, mas também graças ao elenco competente que o cineasta tem à disposição. Para além dos nomes mencionados, o elenco conta ainda com alguns elementos capazes de darem um ar da sua graça. Veja-se o caso de Mario Passante como Lambertoni, um dos indivíduos que emprestam dinheiro a Nardi, ou Ruggero Marchi como Carlo Fenoglio, um empresário do sector industrial que ascendeu praticamente do zero e conta com um enorme sucesso financeiro. Fenoglio representa um elemento que beneficiou do chamado "milagre económico italiano", tendo investido em negócios rentáveis que contribuíram para que acumulasse riqueza, respeito e poder. Alberto Nardi tarda em conseguir alcançar a prosperidade ansiada e o respeito desejado, uma situação que conduz este indivíduo egocêntrico ao desespero, enquanto encara a morte ou assassinato da esposa como a única possibilidade para se tornar rico de forma rápida. Nardi bem quer ser viúvo, embora Dino Risi não esteja pelos ajustes ao planear um destino bem menos agradável para este empresário que pretende enriquecer através de um método pouco ortodoxo. Com uma interpretação de grande nível de Alberto Sordi como um empresário falhado, charlatão, falador e neurótico, um argumento capaz de explorar a premissa e contar com uma série de ingredientes típicos das "comédias à italiana", "Il vedovo" transporta-nos para o interior do quotidiano caótico de um indivíduo ambicioso mas incompetente, com Dino Risi a efectuar alguns comentários do foro social e a colocar o espectador diante de situações pontuadas quer pelo humor, quer pela tragédia, enquanto o protagonista se prepara para enfrentar a ironia do destino.

Título original: "Il vedovo".
Título em Portugal: "O Viúvo Alegre".
Realizador: Dino Risi.
Argumento: Rodolfo Sonego, Fabio Carpi, Sandro Continenza, Dino Verde, Dino Risi.
Elenco: Alberto Sordi, Franca Valeri, Livio Lorenzon, Nando Bruno, Enzo Petito, Leonora Ruffo, Ruggero Marchi, Mario Passante.

10 novembro 2016

Resenha Crítica: "Il deserto dei Tartari" (Deserto dos Tártaros)

 No início de "Il deserto dei Tartari", a última longa-metragem realizada por Valerio Zurlini, encontramos Giovanni Drogo (Jacques Perrin), um jovem Tenente, a despedir-se da mãe, da namorada e do melhor amigo. A melancolia permeia estas despedidas que ocorrem a 2 de Agosto de 1907, com a banda sonora de Ennio Morricone a pontuar o ritmo simultaneamente triste, melancólico e esperançoso destes episódios. Drogo sabe que se prepara para partir em direcção a uma aventura incerta, estimulante, diferente de tudo aquilo a que estava habituado, embora não tenha pedido para ser destacado para o Forte Bastiano, uma base isolada que parece influenciar a mente e o corpo dos militares. O Forte Bastiano encontra-se situado numa zona de fronteira que separa o território pertencente ao Império do espaço denominado de Deserto dos Tártaros e da parcela que pertence ao Império do Norte, com os seus integrantes a contarem com regras bastante rígidas e um sentido de dever aparentemente inabalável. Todos os militares encontram-se fardados a rigor, contam com uma hierarquia bem definida e um conjunto de regras para cumprir e respeitar no interior do Forte Bastiano, com "Il deserto dei Tartari" a abordar o quotidiano destes indivíduos com enorme cuidado e acerto. Veja-se quando Drogo é apresentado ao Coronel Filimore (Vittorio Gassman), o líder do Forte Bastiano, um indivíduo de cabelos grisalhos, experiente, carismático, aparentemente brando, que transmite uma aura de respeito e sapiência. A apresentação decorre num jantar que permite exibir quer alguns dos luxos do Forte, quer a estrutura hierárquica e o respeito pela mesma, com cada elemento a posicionar-se à mesa de acordo com o seu estatuto no interior da base fronteiriça. A sensação de isolamento, alienação e a espera por um possível ataque dos Tártaros marca o quotidiano de boa parte dos militares que protegem o Forte Bastiano, enquanto "Il deserto dei Tartari" nos coloca diante dos laços que se formam entre estes personagens, bem como as tensões inevitáveis e o dia-a-dia destes indivíduos que procuram cumprir as tarefas para as quais foram designados, algo abordado e desenvolvido de forma precisa por Valerio Zurlini. As tensões entre alguns militares são praticamente inevitáveis, bem como a camaradagem e as relações de respeito e até de alguma amizade, com Valerio Zurlini a apresentar-nos a um leque alargado de personagens, enquanto aproveita o elenco de luxo que tem à sua disposição, onde constam nomes como Jacques Perrin, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Helmut Griem, entre outros, com os intérpretes a elevarem os elementos que interpretam. Diga-se que o espaço do Forte surge praticamente como um dos grandes protagonistas do filme. O Forte aparece representado como um espaço de dimensões alargadas, praticamente isolado da humanidade, com o perigo a estar quase sempre presente na mente dos militares que trabalham e habitam neste local, embora tarde em aparecer de forma concreta, ou seja, na figura dos Tártaros. A viagem a cavalo, que Drogo efectua para chegar ao Forte Bastiano, permite exibir desde logo alguns dos elementos que marcam o quotidiano do protagonista nesta base, tais como a presença fantasmagórica e alienadora do deserto, a sensação de isolamento e a solidão, com o trabalho de Luciano Tovoli na cinematografia a permitir exacerbar as características específicas dos espaços que rodeiam os personagens. Veja-se a forma como a imensidão do deserto e as montanhas parecem agigantar-se diante de Drogo ao longo do trajecto que é efectuado pelo personagem principal, com os planos bem abertos, enquadrados com grande acerto, a deixarem o espectador diante da certeza que a viagem deste Tenente é longa e conta com passagens por locais inóspitos. É nesta viagem que Drogo encontra o Capitão Ortiz (Max von Sydow), um dos seus superiores, um indivíduo que se encontra há mais de dezoito anos no Forte Bastiano, tendo outrora tocado o alarme devido a ter visto, ou pensado ter visualizado, o inimigo.

Max von Sydow incute carisma e ponderação a Ortiz, um Capitão experiente e organizado, que procura acatar as ordens, reflectir sobre as decisões que efectua e apresenta uma humanidade que contrasta com a personalidade implacável e irascível do Major Matis (Giuliano Gemma). O código de conduta dos militares que protegem o Forte é bastante rígido, com Giuliano Gemma a expressar o gosto e o entusiasmo que o personagem que interpreta tem em obedecer aos regulamentos e obrigar aqueles que o rodeiam a seguirem as regras. Giuliano Gemma surge quase sempre de feições rígidas e sérias, tendo em vista a imprimir um cunho duro a Matis, um Major que tenta respeitar ao máximo o regulamento e colocar em prática as tarefas impopulares que Filimore necessita de tomar. Matis forma uma estranha relação de respeito com Drogo, embora estes dois personagens nem sempre contem com uma convivência pacífica, com a personalidade de ambos a ser deveras distinta. Para Drogo, a realidade do Forte Bastiano é uma novidade, com este indivíduo a pensar que a sua presença neste espaço é apenas temporária, embora as suas ideias iniciais acabem por não se concretizar, sobretudo quando começa a ser contagiado por alguns dos ideais dos colegas. Jacques Perrin imprime uma personalidade relativamente ingénua e afável ao personagem que interpreta, um Tenente que procura cumprir o seu serviço e ambiciona sair do Forte Bastiano. Esta ambição encontra apoio na figura de Matis, com o Major a efectuar um acordo com Drogo para que o protagonista possa abandonar o local após quatro meses de serviço. Rovine (Jean-Louis Trintignant), o médico de serviço e Major de patente, não tem problemas em efectuar um relatório médico que permita a saída de Drogo do Forte, mas o protagonista parece começar a ser contagiado pelos ideais dos colegas e dos seus superiores, bem como pela esperança de efectuar uma batalha épica contra os Tártaros. O perigo parece rondar silenciosamente o espaço do Forte Bastiano, pelo menos na fase inicial da narrativa, com os militares a serem obrigados a gerir os seus medos, receios e expectativas. Veja-se quando Drogo se encontra de vigia durante a noite, com o protagonista a deparar-se com um estranho movimento. Esse movimento provém de um cavalo branco, ou seja, pertencente aos Tártaros, pois os militares do Forte Bastiano apenas utilizam cavalos negros ou baios. Drogo ainda pondera accionar o alarme, mas é travado pelo Primeiro-Sargento Tronk (Francisco Rabal), um indivíduo aparentemente carrancudo, que é um dos apoios do protagonista. O conselho de Tronk revela-se acertado, bem como a medida de Drogo de não capturar o cavalo, uma decisão que lhe vale uma repreensão por parte de Ortiz, bem como um elogio de Matis, devido ao facto do protagonista ter cumprido as regras do protocolo. A presença do cavalo parece mexer com os sentimentos dos soldados, ou o quotidiano dos mesmos não estivesse ligado a uma longa espera para travarem um ataque com o inimigo. Valerio Zurlini consegue transmitir essa sensação do tempo que tanto passa depressa demais como tarda em avançar, com os militares a parecerem umbilicalmente ligados a este Forte que tem tanto de austero e agreste como sedutor e propiciador de gerar a esperança de que grandes feitos aguardam aqueles que tiverem a sabedoria para esperar pelo momento certo. Também é um local que afecta a mente que neles habitam, uma situação notória no suicídio cometido por um personagem que é obrigado a reformar-se, com o argumento de Valerio Zurlini, inspirado no livro "Il deserto dei Tartari" de Dino Buzzati, a explorar a complexidade inerente ao quotidiano no interior de um espaço situado numa zona deserta, com o realizador a abordar a forma como este ambiente afecta psicologicamente os militares que trabalham no Forte Bastiano.

O lado psicológico nunca é deixado de lado, com o argumento a exibir que existe um misto de racionalidade e irracionalidade associado a esta missão dos elementos que se encontram no Forte, com cada militar a reagir de forma distinta ao dia-a-dia nesta base com características muito próprias. Veja-se quando Drogo questiona Rovine se o Major já efectuou algum pedido para se transferir do Forte Bastiano para outro local, com o médico a salientar que nunca tomou essa decisão devido a considerar que isso levaria a que se sentisse como um desertor. O próprio Drogo começa a sentir o apelo gerado por este espaço e pelos seus integrantes, com o Tenente a desenvolver uma relação de enorme respeito com Ortiz, Simeon (Helmut Griem) e Filimore. Simeon é um Tenente afável, sempre pronto a dialogar, que apresenta parte do Forte Bastiano ao protagonista e forma uma relação de amizade e respeito com Drogo. Helmut Griem sobressai quer nos momentos iniciais, quando o Sol e as tonalidades azuis parecem permear os cenários e tudo parece relativamente calmo, quer a partir do terceiro acto do filme, quando os personagens se encontram claramente mais envelhecidos e a lidar com uma situação inesperada que supera as piores (ou as melhores) previsões. A passagem do tempo é sentida e transmitida, seja pelos personagens ou pelas referências efectuadas ao decorrer dos meses e dos anos, ou às promoções dos militares, enquanto o trabalho de caracterização permite discernir o envelhecimento de alguns elementos. Por sua vez, o Forte Bastiano aparece praticamente intacto, pontuado maioritariamente por paredes de tonalidades desprovidas de vida e alguns luxos no seu interior, embora a vista que rodeia os personagens transmita uma certa sensação de claustrofobia. O deserto, as ruínas, a temperatura (nunca parece existir um meio termo, ou está muito quente ou frio), a possível chegada de um inimigo contribui para o modo muito próprio como estes elementos encaram este espaço, com Valerio Zurlini e Luciano Tovoli a concederem características transcendentes ao local. Filmado em parte em Arg-e Bam, uma fortaleza situada no Irão, "Il deserto dei Tartari" beneficiou e muito das características deste cenário praticamente perfeito para o Forte Bastiano. Austero no seu exterior, capaz de transmitir o sentimento de isolamento da base onde se encontram os personagens principais de "Il deserto dei tartari" este espaço do Irão serviu e muito as pretensões de Valerio Zurlini, com o cineasta a aproveitar o mesmo ao serviço do enredo de forma bastante precisa. O nevoeiro, as montanhas, as areias do deserto povoam o território que circunda o Forte, algo captado ao longo do filme, com "Il deserto dei tartari" a tanto colocar o espectador diante de céus límpidos e azuis que transmitem uma sensação de calor como de chuvas fortes que batem forte nos corpos e trazem consigo o adensar da incerteza. Veja-se quando Lazare (Shaban Golchin Honaz), um dos militares, desobedece às ordens e procura roubar o cavalo branco durante uma noite chuvosa, acabando por ser eliminado por um colega devido a não saber a senha para entrar no Forte. Este acto permite expor a faceta implacável de Matis quando alguém desobedece às ordens mas também a rigidez dos códigos de conduta e a necessidade dos militares não saírem de certos locais fronteiriços, caso contrário estarão a violar os acordos com o Reino do Norte. A disciplina faz parte do dia-a-dia destes elementos, seja no treino, a caçar, num simples jantar ou a efectuarem uma vigia, com Valerio Zurlini a ter tempo para explorar as diferentes vertentes do quotidiano no Forte. Não faltam duelos de esgrima, eventos relacionados com a caça, missões, treinos com os pelotões, entre outras actividades que visam solidificar as competências dos militares que se encontram a cumprir serviço militar no Forte Bastiano.

 O Forte conta ainda com uma série de elementos que se destacam no interior do contingente numeroso que se encontra no interior desta base. Um desses elementos é o tenente Pietro Von Hamerling (Laurent Terzieff), um indivíduo que se encontra debilitado, com problemas de saúde e uma fragilidade física notória. Laurent Terzieff consegue exibir a fragilidade física de Von Hamerling quer nos gestos que incute ao personagem, quer no modo de dialogar, sempre sem parecer algo forçado ou caricatural. Veja-se quando participa numa expedição para estabelecer os limites da fronteira do lado do Império, enquanto decorre uma forte tempestade de neve, com Pietro Von Hamerling a não ter problemas em "atirar-se" para a morte e assumir um papel de relevo na iniciativa, mesmo sabendo que não conta com condições físicas para tal proeza. Temos ainda figuras como o Tenente-Coronel Nathanson (Fernando Rey), um indivíduo que transmite uma enorme imponência, que se digladia com feridas de guerra que consomem o seu corpo, embora esteja sempre presente nas reuniões e momentos de decisão no Forte Bastiano. O elenco conta com interpretações coesas, com Valerio Zurlini a saber extrair desempenhos sólidos da parte dos seus intérpretes, embora o grande destaque recaia em Jacques Perrin, um colaborador habitual do cineasta e uma das figuras mais influentes para conseguir tirar "Il deserto dei Tartari" do papel. Perrin permite atribuir credibilidade a esta entrada de Drogo no Forte Bastiano, às dúvidas iniciais do protagonista, às relações de amizade e lealdade que o Tenente forma no interior da base, bem como às transformações físicas deste personagem com o avançar do tempo. A passagem do tempo e a forma como é exposta e aproveitada por Valerio Zurlini é outro dos pontos fortes de "Il deserto dei Tartari". A sensação da espera dos personagens é transmitida, bem como a forma como os militares parecem contagiados por algo de muito forte e contraditório que os compele quer a pretenderem permanecer no Forte, quer a desejarem sair deste local, embora anseiem por um momento que aqueça as suas almas e atribua relevância ao seu trabalho. O tempo passa, quase não damos por isso, nem os personagens, embora os seus corpos e as suas mentes se ressintam, enquanto são promovidos ou destacados para locais diferentes, ou são colocados diante de situações inesperadas. Drogo é o nosso elo de ligação com o Forte Bastiano. É na companhia de Drogo que viajamos até este espaço, que conhecemos as suas imediações e o deserto, que ficamos a percepcionar a realidade do Forte e as suas características muito particulares. Composto por paredes maioritariamente desprovidas de cores vivas, muitas das vezes com traços de humidade, o Forte Bastiano conta com uma atmosfera relativamente austera, algo notório nos seus corredores cinzentos e nos quartos dos militares, embora a sala de jantar seja um local dotado de alguns luxos. Veja-se a banda a tocar música ao vivo, o tapete vermelho e azul que se encontra a adornar o chão onde se encontra a mesa, os candelabros, todo o aprumo na colocação dos copos, pratos e talheres, ou seja, é um local bem distinto do espaço exterior do Forte.

O trabalho de câmara contribui para termos a noção do espaço do Forte, bem como das suas divisórias, com este cenário a ser utilizado de forma bastante assertiva. O Forte Bastiano parece contar com um superpovoamento notório, tendo em conta que os militares pouco ou nada fazem para além de treinarem e aguardarem pela chegada de um possível ataque dos Tártaros, embora, num determinado momento, uma decisão prometa mexer com as rotinas destes homens que procuram dar o melhor de si próprios na defesa de uma das bases mais longínquas e relevantes do Império. Drogo chega a este espaço como um Tenente que quer mudar rapidamente de base, até começar a ser atraído pelo canto desta sereia em formato de Forte, que provoca um apelo quase irresistível nos soldados. Veja-se o caso de Ortiz, um indivíduo que outrora visualizara o inimigo, tendo ficado no Forte Bastiano à espera de um possível ataque, embora a solidão da reforma e a noção de que ficou algo por cumprir acabem por provocar uma atitude poderosa e inesperada por parte do personagem interpretado por Max von Sydow. Também Drogo não consegue evitar o sentido de missão e de defesa do Forte, com Valerio Zurlini a deixar-nos a espaços na dúvida se algumas observações efectuadas pelos personagens correspondem à realidade ou aos truques da mente, embora o cineasta desfaça rapidamente essas questões no último terço de "Il deserto dei Tartari". Diga-se que estamos ainda diante de uma das provas de maturidade de Valerio Zurlini, com o cineasta a conseguir transmitir a sensação de isolamento e espera dos militares no Forte Bastiano, a recorrer de forma certeira à banda sonora de Ennio Morricone (já em "Estate Violenta", "La ragazza con la valiglia" e "Cronaca Familiare" demonstrara essa apetência para utilizar a música para os efeitos pretendidos), a criar personagens dotados de dimensão e extrair interpretações de um nível elevado por parte do elenco, com "Il deserto dei Tartari" a exibir ainda o talento do realizador para explorar os efeitos da passagem do tempo e as especificidades do território. Valerio Zurlini transmite a atmosfera de camaradagem e algumas tensões que ocorrem no Forte Bastiano, enquanto permite que o elenco sobressaia, sobretudo Jacques Perrin, com "Il deserto dei Tartari" a aparecer como uma obra cinematográfica que nos assombra e nos compele a visualizarmos tudo mais do que uma vez, seja para apreciar a magnífica banda sonora de Ennio Morricone ou o trabalho sublime de Luciano Tovoli na cinematografia, ou observar as características específicas dos cenários e das interpretações, ou a degustar o argumento de Jean-Louis Bertucelli, com tudo a parecer obter ainda mais valor após cada nova degustação.

Título original: "Il deserto dei tartari".
Título em Portugal: "Deserto dos Tártaros".
Realizador: Valerio Zurlini.
Argumento: Jean-Louis Bertucelli.
Elenco: Jacques Perrin, Vittorio Gassman, Helmut Griem, Jean-Louis Trintignant, Giuliano Gemma, Fernando Rey, Max von Sydow, Laurent Terzieff.