Neste trabalho, procurará responder-se à questão, “Pode-se falar de uma ligação entre os filmes de gangsters dos anos 30 e os filmes noir dos anos 40?”, levantada após um estudo sobre as transformações da sociedade norte-americana durante o período em questão, e como estas afectaram o cinema. Para além disso serão referidos vários filmes considerados pertinentes, sendo efectuada uma análise mais aprofundada de um dos grandes clássicos do cinema “The Maltese Falcon” como exemplo de filme noir.
A nível de contexto, nos Estados Unidos da América, os loucos anos 20 foram um período de suposta prosperidade económica, euforia e optimismo, após a participação americana na 1ª Guerra Mundial, no entanto, a partir da segunda metade da década de 20, foram conhecendo vários problemas a nível financeiro, culminando esta crise económica com o chamado “Crash de 1929”. Para além disso registam-se alterações a nível de legislação, como a chamada “lei seca”, nomeadamente a 18ª Emenda à Constituição (1919), bem como problemas para integrar os regressados da 1ªGuerra Mundial. Estas alterações na sociedade levaram as massas de um estado eufórico para um estado disfórico, repercutindo-se esta situação na 7ªarte ao longo dos anos 30.
Esta crise económica não significou que deixe de haver produção cinematográfica muito pelo contrário, foi um dos meios utilizados pela população como evasão à realidade quotidiana, daí continuarem a ser produzidos filmes, de variados géneros e diferentes orçamentos, veja-se o caso de Grand Hotel que conseguiu reunir no mesmo filme, Greta Garbo, Joan Crawford, John e Lionel Barrimore, entre outros. Entre os filmes produzidos ao longo dos anos 30, um dos géneros mais apreciados pelo público da época era o dos filmes de Gangsters (com grande destaque os da Warner Brothers). O gosto por este género de filmes reflecte a falta de confiança da sociedade nas forças da lei e nos abalados valores morais do país. O gangster tanto poderia ser retratado como um criminoso sem escrúpulos, como um criminoso que tem fundo bom, e até como uma pessoa de bom carácter que é levado por circunstâncias várias ao mundo do crime. Entre estes filmes encontram-se clássicos populares ainda hoje em dia pelos amantes do cinema, como Little Caesar (1930) realizado por Mervyn LeRoy, The Public Enemy de William Wellman (1931), Scarface : The Shame of the Nation (1932) de Howard Hawks, The Petrified Forest (1936) de Archie Mayo. Entre as estrelas que sobressaíram neste género encontram-se actores como Paul Muni, Edward G. Robinson, James Cagney, Humphrey Bogart (geralmente como o rude gangster que acaba sempre no final por ser contemplado pela morte).
Um dos filmes que demonstra de forma paradigmática esta transição dos anos 20 para os anos 30, é a obra Roaring Twenties (1939), realizada por Raoul Walsh. Neste de forma quase documental, como se fosse fosse uma newsreel assistimos ao retrato de uma América desiludida, deprimida, onde a população em crise procura como meio escapista os clubes nocturnos e se possível que estes vendam bebidas alcoólicas, ainda que estas sejam um fruto proibido pela lei. Neste filme as próprias forças da lei são retratadas como passíveis de corrupção, frequentando e permitindo estes bares, como o de Panama Smith, ou seja demonstra um lado negro da natureza humano. No meio desta América entorpecida temos Eddie Bartlett, um soldado regressado da guerra, que se vê com o problema da sociedade em que vive já não precisar de si. Substituído no emprego, sem perspectivas de futuro, o protagonista interpretado por James Cagney acaba por envolver-se numa teia problemática que o conduz para o lado negro, passando a envolver-se no tráfico de bebidas alcoólicas durante a lei seca, tendo um negócio de táxis como fachada. No entanto, temos ainda a réstia de esperança numa América melhor embutida no carácter do protagonista. Este tem valores morais ao contrário da personagem de Bogart (que no filme personifica alguém completamente mau), não é um Duke Mantee (Petrified Forest), não é um matador a sangue frio, é o ser humano que qualquer um se poderia identificar na época, em que o destino poderia tornar qualquer um na personagem. Esta passividade perante o destino pode levar o protagonista a ser descrito como uma pessoa fraca que não toma decisões fortes, que deixa a sociedade dominá-lo.
Neste filme podemos ver como o contexto histórico afecta a produção artística, porque este afecta todos, desde quem produz essa arte, neste caso os filmes, até ao público que os assiste. Assim se pode explicar em grande parte o sucesso destes filmes de gangsters nos quais se destacam os da Warner Bros. Diferente dos outros filmes de gangters, The Roaring Twenties trás um lado nostálgico ao público que o assiste, convida-nos a entrar nos anos 30 através dos olhos da personagem de James Cagney, jogando com o factor da nostalgia de um tempo não vivido por nós e que tanta curiosidade suscita.
Nos anos 40, os Estados Unidos encontram-se noutro contexto, isolados do resto do Mundo enquanto decorre na Europa a 2ªGuerra Mundial, vêm-se aos poucos envolvidos no mesmo até que o ataque Japonês a Pearl Harbor em 7 de Dezembro de 1941, os leva a participar efectivamente no conflito. Em 1945 termina o conflito, no entanto o ambiente não é de paz visto que as diferenças entre EUA e União Soviética tornam-se cada vez mais evidentes após o final da Guerra, gerando-se um período de “paz armada” chamado de “Guerra-fria”, onde a ameaça nuclear afectou não só este dueto mas todo o Mundo que vê a possibilidade de destruição a apenas um click. Durante este período assiste-se a uma América mais soturna, eivada de um clima de suspeição contra a ameaça externa. Este clima reflecte-se na 7ªarte, onde para além de outros géneros, proflifera o chamado “filme noir” surge em grande força nos Estados Unidos. Este tipo de filmes, os chamados, Filmes noir clássicos, têm frequentemente como balizas temporais o início dos anos 40 - ou seja ainda antes da Guerra, quando a ameaça de algo estranho pairava pelo ar - com The Maltese Falcon (1941) de John Huston ou por vezes, Stranger on the Third Floor (Boris Ingster, 1940) e como final Touch of Evil (1958) de Orson Welles, ou Odds against Tomorrow (Robert Wise, 1959), ou seja teve um período de duração de cerca de vinte anos . Este tipo/género de filmes, são caracterizados por heróis/personagens principais, mais cínicos, que já não são apenas bons e maus, são personagens onde essa linha entre o bom e o mau se torna cada vez mais ténue, algo muito bem conseguido por Nicholas Ray na década de 50, com filmes como In a Lonely Place. Em termos de argumento vão utilizar muitas das vezes inspiração aos romances policiais de autores como Raymond Chandler, Dashiell Hammett, James M. Cain, entre outros. Nestes na maioria das vezes os protagonistas são detectives, que nem sempre utilizam os meios mais correctos para atingir os seus objectivos, no entanto, acabam quase sempre por no final se submeter à boa moral. Isto não quer dizer que os filmes noir sejam apenas filmes de detectives, existem outros como Mildred Pierce de Michael Curtiz, onde a personagem principal vê-se perante várias dificuldades estabilizar e posteriormente subir na vida, surgindo a filha como personificação do lado negro humano. A nível estilístico, estes filmes destacam-se pela utilização da luz e sombra, do chiaroscuro, utilização de flashbacks, narração, close-ups, entre outros, ainda que nem sempre se apliquem a todos os filmes.
Entre os filmes produzidos na década de 40, pode-se destacar, The Maltese Falcon (1941) de John Huston, bem como, Laura (1944) de Otto Preminger, Double Indemnity (1944) de Billy Wilder, Big Sleep (1946) e Key Largo (1948), ambos de Howard Hawks, Lady in the Lake (1946), Dark Passage (1947) de Delmer Davies , Dead Reckoning (1947) de John Cromwell, Raw Deal (Anthony Mann, 1948), entre muitos outros que proliferaram até cerca dos anos 60 (marcado por aquele que é considerado como o ultimo filme noir clássico, Touch of Evil(1958) de Orson Welles.
Um dos exemplos paradigmáticos de Filme Noir é a obra “The Maltese Falcon”, estreia como realizador de John Huston e a confirmação de Humphrey Bogart como uma das stars do cinema Norte-Americano (mais uma vez após aceitar um trabalho rejeitado por George Raft). Este tal como vários filmes noir é adaptado de um romance policial, no caso da obra com o mesmo nome do filme de Dashiell Hammett, que anteriormente já tinha sido adaptada pela Warner Bros (em 1931 com o mesmo título e em 1936 como 'Satan Met a Lady').
Fazer uma breve sinopse sobre o filme é algo complicado, pode-se dizer que a acção principal gira em volta da procura do Falcão de Malta (o Mcguffin do filme), este é um falcão dourado, com várias jóias raras encrostadas, oferecido em 1539 a Carlos V, por parte dos Cavaleiros de Malta. A procura desta preciosa relíquia escondida nas areias da história, vai despertar a cobiça por parte dos vários personagens. No entanto, não vai ser o objecto em si que vai fazer avançar o enredo mas sim as constantes traições e mentiras entre personagens.
Numa das primeiras cenas do filme é-nos apresentado uma série de locais de São Francisco, dando a conhecer desde logo ao público o local onde se passa o filme, ou seja num local real, onde aparece em grande plano a ponte Golden Gate, que será o cenário de fundo da janela do escritório de Spade e Archer. Ora a câmara ao aproximar-se do escritório não só permite quebrar a visualização da cidade, como passar para a acção em si, no interior do escritório, deixando ao público a sensação de que na altura em que o filme foi filmado, uma reunião muito parecida com aquela poderia estar a acontecer. No interior do escritório encontra-se o detective Sam Spade (Humphrey Bogart) e o seu parceiro de profissão Miles Archer (Jerome Cowan), para além destes também trabalha no mesmo a secretária Effie Perine (Lee Patrick, que interpreta a mulher moralmente boa, o que no filme noir na maioria das vezes significa que é amiga e confidente do protagonista mas muito provavelmente nunca chegará a atingir o nível de interesse suscitado pela sedutora mulher fatal). É neste cenário que entra a mulher que será fatal a Archer e não escapará de Spade, nomeadamente Miss Wonderly. A cena do escritório, que dura entre os 4:00m e os 5:50m e filmado de forma não só a dar a sensação de reunião, confidencialidade dado pela proximidade dos personagens, como também mostrar o fundo real de São Francisco, as cidades vão ser um dos elemento muito importante no filme noir, a maioria das histórias passam-se nestas, no entanto estas não são locais onde só existem raios de sol e arco-íris, pelo contrário, são locais sujos, onde o mal circula, como se pode ver desde logo com a cena do assassinato de Archer pela arma de um desconhecido (algo que só é revelado ao publico com o desenrolar frenético dos acontecimentos). E este mal nem é assim tão desconhecido das ruas, despertando até a curiosidade de um morador do prédio em frente ao local do crime, que assiste à conversa entre Sam Spade e o oficial da lei.
A corrupção não se estende apenas às ruas, mas também aos valores morais das pessoas, veja-se que pouco tempo depois da morte de Archer, já a viúva deste corre para os braços de Sam Spade, que afinal era amante da mulher do colega e amigo. Este é um dos elementos que chamou a atenção dos espectadores amantes do filme noir na época, pois este retrato da mulher infiel era um dos retratos do quotidiano dos regressados de guerra que por vezes quando chegavam viam as suas mulheres com a vida refeita. A imoralidade presente nestas personagens é conhecida por estes, ou não faria sentido a desconfiança de Iva em ter sido Spade a disparar sobre Archer.
A partir daqui vamos começar a assistir a uma das características do filme noir clássico, que é a desinformação, ou seja os personagens nem sempre fornecem ao espectador a informação correcta, veja-se desde logo Miss "Ruth Wonderly" que afinal se chama Brigid O'Shaughnessy, que terá ainda mais segredos por revelar ao longo da história. A partir de agora Sam Spade passa a estar ao corrente da procura pelo objecto misterioso. Esta procura de ludibriar o público através das falsas informações dadas aos detectives é algo que acontece em The Big Sleep, onde as irmãs nem sempre contam toda a verdade a Philippe Marlowe.
O desenrolar da acção vai dever-se em grande parte devido à introdução de informações dadas à medida que surgem novos personagens, e que estes vão interagindo entre si. É assim por este motivo que a entrada de Joel Cairo, interpretado de forma magistral por Peter Lorre, dando ao personagem uma malícia e excentricidade únicas. Joel Cairo também encontra-se à procura da Relíquia, sendo um dos personagens alterado do livro para o roteiro sendo mais afeminado no primeiro, sendo que no segundo os seus desvios sexuais são representados de forma subtil através do lenço perfumado, alguns trejeitos. Estas alterações do livro para o roteiro são bastante frequentes na industria do cinema, no entanto nem sempre se deviam a imperativos de tornar o filme mais abrangente ou cinemático. Outra das figuras que também sofre alterações é a personagem Wilmer, que no livro é homossexual enquanto que no filme é apenas representado como capanga de Kaspar “Fat Man” Gutman.
Entre os 28:35 e os 37 minutos assistimos a uma cena frenética, começando com a saída de Sam Spade do Táxi, onde temos o edifício filmado do geral para o particular, onde o close-up é utilizado para revelar os botões carregados pelo detective, dando ao espectador a informação que a sombra que segue o protagonista não, consegue, acabando Spade por ludibriar o perseguidor. A entrada no apartamento 1001, é marcado pelo diálogo intimista entre Brigid O’Shaughnessy e Sam, onde as constantes deslocações pelo salão demonstra o nervosismo dos dois personagens, o de Bogart em querer saber a verdade e a de Mary Astor em ludibriar o detective. Quando Sam Spade refere o nome de Joel Cairo, esta descontrola-se completamente, treme, começa a mexer na lareira, acende um cigarro (o fogo da lareira e do isqueiro como que a representar o estado de espírito flamejante em que se encontra Brigid), as persianas fechadas marcam como que um confinamento naquele espaço, sugerem uma sensação de emprisionamento, até de claustrofobia demonstrando a impossibilidade de Brigid em fugir às perguntas. Nesta cena bem como na seguinte, já com a presença de Joel Cairo e posteriormente a polícia, através do posicionamento da luz do candeeiro, temos presente um dos aspectos mais significativos do filme negro que passa pelo estilo formal, nomeadamente a utilização do chiaroscuro, método muito utilizado no campo da pintura por Leonardo Da Vinci, no Renascimento, que se define pelo contraste entre a luz e a sombra na representação de um objecto . A utilização desta técnica encontra-se muito associada ao chamado “Expressionismo Alemão”. Este estilo visual reforça a fragmentação do espaço sobre o cenário, levando aos efeitos de câmara que produzem linhas e superfícies, sendo utilizado sobretudo para sugerir um mundo deslocado permeável pela alienação e desespero humano. De notar que esta técnica não é exclusiva do filme noir, sendo utilizado em filmes como os de terror, e até actualmente em pleno Século XXI, filmes como Hellboy de Guillermo del Toro utilizam esta técnica. Apesar de este filme não utilizar rigorosamente esta técnica, pode-se detectar no entanto este jogo de luz e sombra, onde as deslocações das personagens são acompanhadas pela sua sombra. Nesta mesma cena aquando da entrada dos dois policias, podemos destacar a facilidade com que o anti-herói Sam Spade, consegue ludibriar a policia, bem como o cinismo de Sam Spade, demonstrando assim através da sétima arte um dos sentimentos que pairava na sociedade daquele tempo, que passa pela descrença nos serviços públicos (polícia), desrespeito pela competência destes, algo que é altamente reforçado pela afirmação de Sam “lá esta a policia de novo, estão a ficar ridículos”. Posteriormente quando Joel Cairo coloca em causa a inteligência da história contada por Sam para ludibriar a polícia, o detective não tem pejo em afirmar “Não se preocupe com a idiotice da história. Uma história sensata punha-nos a todos na prisão”. Aquando do interrogatório inicial sobre o assassinato do sócio, já Spade se referira às questões das autoridades como “perguntas idiotas”; e aquando do interrogatório no gabinete do district attorney refere que “ (…) a melhor forma de me safar do sarilho em que me querem meter, é trazer os assassinos presos e a única hipótese que tenho…de os apanhar e os trazer… é ficar afastado de todos vocês pois só atrapalham.”. Todas estas afirmações para além de salientarem o sentimento de desconfiança perante a capacidade da polícia, reforçam o carácter cínico e auto-confiante da personagem de Bogart.
Aos 49 minutos do filme dá-se um dos momentos fundamentais do filme, a apresentação de Kasper Gutman a Sam Spade, onde a utilização da câmara em ângulo baixo permite destacar o estilo imponente do primeiro. É também no diálogo entre estes que o protagonista fumador toma realmente noção do que está em jogo na busca pelo Falcão de Malta. De notar que a câmara torna latente a espera de Gutman para que o seu interlocutor beba a bebida servida, algo que Sam não cai à primeira, no entanto, na segunda visita, somos convidados pela câmara a ver através do posicionamento dos personagens a espera do criminoso pelo desfalecimento do detective e esta a sentir a perda do controlo dos sentidos.
Esta personagem interpretada por Sidney Greenstreet (na sua estreia como actor de cinema), marca uma continuidade com o elemento criminoso presente nos filmes de gangsters dos anos 30 e não só. Há que salientar que apesar de ser um elemento de continuidade apresenta características diferentes, de um George Hally (Roaring Twenties), Hugh 'Baby Face' Martin (Dead End), Johnny Rocco (Key Largo), todos exemplos de gangsters mas nenhum apresenta a polidez de Gutman, este último utiliza o seu poder não tanto para fazer os crimes pelas próprias mãos mas sim para o mandar fazer.
Outro dos aspectos marcantes do filme são os diálogos rápidos, por vezes frenéticos, aqui a mortalidade das balas e a força dos punhos são largamente substituídos pela acutilância das palavras, a comprovar isto temos o diálogo entre Sam, Brigit, Joel e a policia, bem como o diálogo com a personagem de Sidney Greenstreet, “Fat Man” Gutman, entre outros. Estes diálogos rápidos são uma característica muito comum nos filmes negros, como por exemplo, The Big Sleep, onde mais uma vez assistimos a Bogart como um detective privado, bem como em Dark Passage, entre outros.
O momento em que o falcão finalmente aparece, quando falta cerca de 28 minutos para terminar o filme, não só une a história como inicia os acontecimentos que vão gerar os acontecimentos finais do filme. A forma como esta cena é feita, quase sem cortes, diálogos rápidos, sem tempos mortos, dá uma grande intensidade a cena, para além de não nos dar pistas sobre como a história vai ser finalizada.
A sequência final começa com o Detective Dundy (Barton MacLane) a escoltar B. O’Shaughnessy para for a do apartamento de Spade, rumo à esquadra, enquanto que Sam fica atrás juntamente com o Detective Tom Polhaus (Ward Bond). É então que Polhaus questiona Sam sobre o objecto em questão, sendo que a resposta do detective para além de lacónica, tornou-se uma das falas mais famosas da História do Cinema,“The stuff that dreams are made of.” Então Spade dirige-se ao corredor e fica a ver Brigid a entrar no elevador. Neste momento o jogo de luz e sombra, típico dos filmes negros é utilizado para dar a sensação de que as sombras das barras do elevador parecem as barras da prisão. O filme termina com Spade, a segurar a estátua falsa, a descer as escadas ao mesmo tempo que o elevador desce com Brigid e os polícias. Assim os valores morais prevalecem e Sam prefere perder a chance de tentar ter um futuro com a mulher fatal a desrespeitar o código de conduta imposto a si próprio e pela sociedade.
O tópico da Femme Fatale e o seu destino é algo presente na maioria dos filmes noir é a Femme Fatalle, no caso de The Maltese Falcon é interpretada por Mary Astor, onde esta é primeiro de tudo apresentada como uma personagem frágil, como se constata quando vai pedir ajuda a Sam e ao sócio, no entanto, aos poucos, com o desenrolar dos acontecimentos apercebemo-nos que esta é tão inescrupulosa como os outros perseguidores da relíquia, sendo capaz de matar e mandar matar pela mesma. Esta é causadora de desejo sexual, e se é verdade que não temos nenhuma cena explícita ao longo do filme, este acto é sugerido através do efeito de câmara ao colocar Sam Spade em posição de beijar Brigid, virando o foco para Wilmer que se encontra fora do hotel a espiar o casal, na manha acorda no hotel de Brigid. No caso deste filme, a Femme Fatale não tem um final redentor, sendo levada pelos oficiais de justiça. Este exemplo é bastante comum no filme noir, o do final infeliz desta, por vezes resultando até da morte da mesma como em Dead Reckoning, sendo a morte o final redentor para a personagem, como se fosse feito justiça. No entanto, como em qualquer género ou subgénero cinematográfico, existem sempre desvios, para além do final devastador da mulher fatal, existem outros, tais como em Dark Passage (1947), em que Irene Jansen decide ajudar Vincent Parry (Humphrey Bogart), um foragido de San Quentin, não só a limpar o nome deste como após o falhanço do mesmo esperar por uma chamada deste, reunindo-se o casal num romântico rendezvous .
Outro aspecto importante a salientar do filme são os cenários. The Maltese Falcon não apresenta uma grande variação, a nível de cenários, passando os personagens a maioria das cenas em salas, seja no escritório, no hotel, aparecendo muito pouco de exteriores. Esta situação deve-se em grande parte não só devido à necessidade de transmitir um ambiente fechado, um meio claustrofóbico até, mas sobretudo devido ao baixo orçamento do filme, que não permitia grandes veleidades a nível de despesas, levando os realizadores a filmarem em estúdio. Este é um caso comum em alguns dos primeiros filmes noir clássicos americanos, como Scarlet Street, The Big Clock, The Big Sleep, The Blue Dahlia (1946). Posteriormente outros filmes vão rodar em locações reais, como por exemplo Dark Passage, um dos pioneiros, no caso, San Francisco, algo que concede aos filmes noir uma nova sensação, garantindo um maior senso de realismo e modernidade.
Enquanto em filmes noir como Dark Passage a personagem principal é utilizado muitas das vezes como narrador (muito por culpa da forma como o filme é rodado), no caso do The Maltese Falcon, a informação que não nos é dada directamente pela acção é descrita no jornal, no caso o San Francisco Post-Disputch, em que aos 12:48 Hursby, Archer, Murders Linked, depois em baixo close up Private Detective Was Shadowing Thursby” e do incêndio.
Um dos assuntos levantados acima foi as alterações efectuadas no roteiro do filme, para corresponder às regras impostas no cinema pelo chamado Código Hays, que durou desde 1934 até 1967, para dar lugar ao novo sistema de avaliação de conteúdo dos filmes, o MPAA film rating system. Ora o The Maltese Falcon esteve sujeito a este Código, pelo que para além das alterações que geralmente são efectuadas aos roteiros, seja para agilizar os mesmos, porque não resulta tão bem no papel filmado como no papel, para tornar o filme “mais comerciável” pelo estúdio, teve ainda de lidar com os censores, que procuravam restringir as temáticas do pecado e corrupção nos filmes. Entre os roteiros analisados um dos rejeitados por "sexo ilícito e alcoolismo" foi, The Maltese Falcon, que requereram as seguintes alterações, Joel Cairo não deveria ser caracterizada como "pansy type" ou seja afeminado; a "sugestão de sexo ilícito entre Spade e Brigid" deveria ser eliminado; deveriam beber menos álcool; não deveria de haver contacto físico entre Iva e Spade, Gutman deveria de dizer "By Gad!" menos vezes; e o "diálogo de Spade sobre os District Attorneys deveria ser rescrito de forma a não haver a ideia de que estes são pessoas capazes de tudo para subirem na carreira”. Assim para além dos próprios filmes em si mesmos, temos os próprios relatórios censórios a confirmar a obsessão noir pela perversão sexual, pelo lado mais sujo da sociedade. Os vilões em filmes como The Maltese Falcon, Laura, Phantom Lady tendem a ter traços homossexuais, como no caso de Joel Cairo no primeiro, considerados pelos censores como uma ameaça aos valores democráticos e à masculinidade. Assim as obras literárias nem sempre poderiam ser seguidas literalmente devido ao seu conteúdo desafiador do status quo.
Este filme acaba por representar à imagem dos Roaring Twenties, uma sociedade desiludida, que confia pouco nas autoridades, em que crime seja este vender bebidas alcoólicas de forma ilegal ou roubar uma peça de arte valiosa é encarado com um meio para subir na vida. No caso do filme noir temos já um Mundo mais cínico, que vive com constantes receios internos e externos, no entanto, a moral superior acaba na maioria das vezes por prevalecer, no caso de Roaring Twenties, Cagney redime-se antes da morte, e em The Maltese Falcon, o Mcguffin é falso desfazendo os sonhos dos que procuravam enriquecer, para além de que os valores morais de Sam são mais altos do que a tentação causada pela Femme Fatalle.
Assim podemos constatar que a conjuntura económica, política e social são elementos preponderantes na produção artística, à qual a cinematografia não escapa. Assim se pode falar numa transição de um género para o outro, sendo que a partir do momento em que a sociedade norte-americana se vê mais preocupada com o inimigo externo do que o interno, torna-se mais preponderante o filme noir, isto não quer dizer que os filmes de gangsters tenham acabado, muito pelo contrário, apesar de em menor produção estes continuam a ser produzidos até aos dias de hoje, seja em Hollywood, na Ásia, na Europa, sendo que em 2006 o filme The Departed foi o vencedor do Óscar de melhor filme, algo que é válido também para os filmes negro, agora considerados como neo-noir, não só nos Estados Unidos como noutros países, sendo La Señal (2007) de Ricardo Darín e Martin Hodara um exemplo paradigmático, e no mercado norte-americano temos duas obras magistrais do realizador Christopher Nolan, Memento e Dark Knight, este último funde elementos de filmes de gangsters dos anos 30, com elementos noir, efeitos CGI contemporâneos numa das adaptações de heróis de Banda Desenhada mais bem conseguidas.
Estes dois géneros de filmes marcaram para sempre a história do cinema e serão sempre recordados, servindo de inspiração a muitos que se seguiram, marcando e sendo marcados por uma época.