19 agosto 2017

Resenha Crítica: "Mulholland Dr." (2001)

 A tonalidade vermelha está muito presente em "Mulholland Dr.", seja no batom ou no verniz das unhas de algumas personagens, ou nas cortinas e outros adereços dos cenários, ou nas luzes que envolvem os espaços por onde circulam as figuras que pontuam o enredo desta obra cinematográfica inebriante, envolvente, surreal e dotada de diversos elementos noir e de imenso mistério. Não é uma novidade nos filmes de David Lynch, tanto a utilização certeira da cor vermelha como as características surreais e noir, com "Mulholland Dr." a confirmar a genialidade do cineasta e a sua capacidade para nos deixar à deriva, presos às sensações despertadas por aquilo que estamos a observar e inquietos em relação a todos os pormenores que envolvem esta obra cinematográfica. Quem tem uma apetência notória para utilizar a cor vermelha é Rita (Laura Harring), uma espécie de femme fatale que no início do filme é alvo de uma tentativa de assassinato e ainda sofre um acidente de viação nas imediações de Mulholland Drive. Rita sobrevive, mas fica temporariamente sem memória, embora tenha a sensação de que a sua vida está em perigo, uma situação que a compele a esconder-se no interior de um apartamento que se encontra aparentemente desabitado. Pouco tempo depois, também Betty (Naomi Watts) chega ao apartamento, com a habitação a pertencer à tia desta personagem. Betty é uma aspirante a actriz, aparentemente algo inocente e optimista, que viajou até Los Angeles para efectuar testes para integrar o elenco de uma obra cinematográfica. A aspirante a actriz pensa inicialmente que Rita é uma amiga da tia, até ligar a esta última e perceber que precisa de obter mais informação em relação à estranha que se encontra no interior do apartamento. Com longos cabelos negros, batom vermelho saliente, unhas pintadas de encarnado e uma postura a fazer recordar uma femme fatale dos filmes noir, Laura Harring incute algum mistério, sensualidade e aparente fragilidade à personagem que interpreta. Por sua vez, Naomi Watts transmite alguma da inocência e da vivacidade de Betty, uma jovem adulta de cabelos loiros, uma personalidade aparentemente afável e uma faceta de detective dos filmes noir, com a aspirante a actriz a formar uma forte ligação com Rita. Naomi Watts e Laura Harring convencem-nos da grande proximidade que se forma entre Betty e Rita, com David Lynch a estabelecer eficazmente as dinâmicas entre estas personagens, até começar a desvendar alguns dos segredos que envolvem a dupla.

15 agosto 2017

Resenha Crítica: "Wild at Heart" (Um Coração Selvagem)

 Não faltam gritos, sentimentos expostos de forma exagerada, situações peculiares, referências a "The Wizard of Oz", imensa violência, episódios surreais, figuras que escapam ao cumprimento da lei, interpretações propositadamente artificiais, revelações escabrosas, cigarros tragados em grande velocidade e uma banda sonora que realça os ritmos intensos e selvagens do filme e dos personagens em "Wild at Heart", uma delirante obra cinematográfica realizada por David Lynch. É o Heavy Metal e o Rock and Roll a apoderarem-se da alma e do coração do filme, bem como do âmago de Sailor Ripley (Nicolas Cage) e Lula Pace Fortune (Laura Dern), um casal explosivo que conta com dinâmicas muito próprias, um enorme apetite sexual e uma grande propensão para expor os sentimentos de forma exagerada. Estamos diante de uma dupla de protagonistas que protagoniza uma série de momentos dignos de atenção, seja uma tórrida cena de sexo, ou danças que envolvem movimentos de luta, com Nicolas Cage (pronto a converter qualquer um ao cageísmo) e Laura Dern (em nova colaboração com David Lynch após o marcante "Blue Velvet") a contarem com desempenhos meritórios. Nicolas Cage imprime uma faceta deliciosamente exagerada, errática, peculiar e rebelde a Sailor Ripley (um nome genial para um personagem), um indivíduo que anda quase sempre acompanhado de um casaco de pele de cobra (que considera um símbolo da sua individualidade e da sua crença na liberdade pessoal). Laura Dern incute uma mescla de infantilidade e arrojo a Lula, uma jovem adulta com um enorme apetite sexual, um gosto notório pela música e pela aventura, uma personalidade estouvada e uma paixão forte por Sailor. É em aventuras e problemas que Lula e Sailor se envolvem, sobretudo após este último sair da prisão, vinte e dois meses depois de ter sido encarcerado. No início de "Wild at Heart" encontramos um assassino a tentar eliminar Sailor, a mando de Marietta (Diane Ladd), a mãe de Lula, embora o protagonista acabe por levar a melhor e consiga matar o criminoso. Marietta procura fazer de tudo para separar o casal, em grande parte devido a pensar que Sailor sabe algo mais do que deixa transparecer em relação à morte do progenitor de Lula, enquanto a jovem encontra-se longe de aceder às pretensões da mãe, algo notório quando enceta uma longa viagem ao lado do amado, com a dupla a ser seguida de perto pelos elementos que a primeira envia para eliminar o protagonista.

14 agosto 2017

Resenha Crítica: "Sangailes vasara" (O Verão de Sangailé)

 "Sangailes vasara" (em Portugal: "O Verão de Sangailé") é um filme dotado de alguns planos belíssimos, uma atmosfera luzidia e uma vontade enorme de ser doce. A espaços parece que estamos a entrar no interior de um conto de encantar, pontuado por enorme inocência e pela típica história de amadurecimento e ultrapassagem dos medos. A banda sonora também ajuda a essa sensação de leveza, romantismo e doçura, tal como a chegada regular dos raios de Sol, capazes de aquecerem o coração, a alma e os sentimentos. O problema é quando "Sangailes vasara" tenta encontrar a beleza e o romantismo onde estes não existem, com Alante Kavaite, a realizadora e argumentista, a parecer mais preocupada em incutir um tom onírico e sedutor ao filme do que em abordar as temáticas com complexidade. É uma oportunidade perdida, mas Alante Kavaite prefere evitar o choque e prosseguir por um caminho mais simples ou açucarado, algo notório na forma quase romântica e extremamente irresponsável como são expostas as auto-mutilações de Sangailé (Julija Steponaityte). Esta é uma jovem de dezassete anos de idade, algo reservada e solitária, que se encontra de férias de Verão e tem como hobbies observar os aviões a circularem num espectáculo aeronáutico, procrastinar e protagonizar longos períodos de silêncio. É nestas férias que Sangailé conhece o tédio, o amor, a amizade e a coragem para ultrapassar alguns dos seus medos e afirmar a sua personalidade, com o momento em que trava conhecimento com Austé (Aiste Dirziute), uma jovem que trabalha no refeitório da estação eléctrica, a mudar por completo a sua vida. Austé conta com vários amigos, gosta de desenhar roupas, aprecia tirar fotografias, tem algum talento para cozinhar bolos e denota ser afável. Sangailé e Austé travam conhecimento durante um espectáculo aeronáutico, com a segunda a fazer com que a protagonista ganhe um concurso, embora esta rejeite o prémio, nomeadamente, voar com o campeão Jurgis Kairysi. A razão é simples e explicada numa fase mais adiantada do enredo: Sangailé tem vertigens (embora, ultrapasse rapidamente este sintoma). Mais tarde, Sangailé reúne-se com Austé, com a dupla a formar uma relação de enorme amizade e proximidade que culmina num romance adolescente pontuado por sentimentos quentes e diversas situações marcantes, com Julija Steponaityte e Aiste Dirziute a contarem com uma dinâmica relativamente competente. 

12 agosto 2017

Resenha Crítica: "Wind River" (2017)

 Na sua superfície, "Wind River" é um thriller que envolve uma investigação intrincada no interior de uma reserva indígena. No seu núcleo, é um filme sobre o sentimento de perda e a dor provocada pela morte de alguém que amamos. É, também, um filme sobre um território de fronteira marcado pela forte presença da neve e da solidão, com Taylor Sheridan a não poupar nos planos bem abertos que nos deixam perante o isolamento, a desesperança e as características algo opressoras desta reserva situada no estado do Wyoming. As árvores estão despidas, as cores frias predominam, os predadores andam à solta, a falta de elementos que façam cumprir a lei dificulta o combate ao crime, enquanto que a neve cobre praticamente todos os poros da segunda longa-metragem realizada por Taylor Sheridan, quase que a dar o mote para a frieza e desolação que marcam alguns dos cenários que são apresentados e a acentuar uma certa sensação de insegurança e instabilidade. A banda sonora adensa essa atmosfera de insegurança, com o trabalho de Nick Cave e Warren Ellis a tanto contribuir para despertar um sentimento de melancolia e de desesperança como de receio e opressão. Diga-se que a insegurança contamina quase todos os poros desta reserva, algo que podemos comprovar desde os momentos iniciais do filme, com Taylor Sheridan a deixar um aperitivo para a violência que vai permear uma parte significativa desta obra cinematográfica. Nos momentos iniciais de "Wind River" somos colocados perante Natalie (Kelsey Asbille), uma índia de dezoito anos de idade, enquanto esta corre de forma desesperada e avança por um cenário hostil, pontuado pela presença forte da neve e do frio. Mais tarde descobrimos que esta faleceu. Antes de obtermos essa informação, "Wind River" deixa-nos perante Cory Lambert (Jeremy Renner), um caçador com ares de cowboy solitário, a disparar de forma certeira sobre um grupo de lobos. O sangue tinge a neve e realça a perícia de Cory para caçar predadores, algo que conduz as autoridades locais a designarem o protagonista para eliminar um ou mais pumas que estão a dar cabo do gado de Dan (Apesanahkwat), o pai de Wilma (Julia Jones), a ex-mulher do caçador. Regularmente vestido com roupas castanhas, uma tonalidade que remete para o isolamento e para a disciplina do protagonista, Jeremy Renner incute seriedade, dureza e melancolia a Cory, um caçador letal e perspicaz, especialista em analisar pistas, que nem sempre consegue dar a atenção devida a Casey (Teo Briones), o seu filho, embora ame o rapaz, enquanto lida com a dor provocada pela morte da filha.

08 agosto 2017

Resenha Crítica: "Wiener-Dog - Uma Vida de Cão"

 "Wiener-Dog" não funciona como comédia negra. Também não funciona como comédia de costumes, nem acerta quando tenta avançar por caminhos mais dramáticos. Os seus personagens são completamente desinteressantes, o seu argumento é de uma pobreza franciscana e a realização de Todd Solondz é demasiado insossa, enquanto que os actores e as actrizes que constam na ficha do elenco apenas se limitam a compor caricaturas superficiais e desprovidas de dimensão. É um filme que nos deixa com a amarga sensação de apenas termos perdido tempo da nossa vida, que se acha mais divertido e inteligente do que é na realidade, que quer à força provocar o choque e o riso, mas apenas desperta indiferença. Tal como em "Happiness", Todd Solondz coloca-nos diante de um núcleo alargado de personagens, ainda que o enredo de "Wiener-Dog" esteja dividido em quatro histórias, com todos estes capítulos a serem unidos pela presença de uma cadela da raça dachshund. Diga-se que a pobre cadelinha surge como uma mera desculpa para Todd Solondz colar quatro histórias sensaboronas com cuspo, enquanto procura satirizar alguns elementos da sociedade dos EUA. No primeiro capítulo, "Wiener-Dog" coloca-nos perante Danny (Tracy Letts), um indivíduo financeiramente abonado que decide adquirir uma dachshund para Remi (Keaton Nigel Cooke), o seu filho, um rapaz que outrora padeceu de cancro. Por sua vez, Dina (Julie Delpy), a esposa de Danny e mãe de Remi, exibe desde logo a sua insatisfação pela presença da cadela, enquanto que o rapaz demonstra um certo entusiasmo por contar com a companhia desta criatura dotada de enormes doses de fofura. Não demora muito tempo para percebermos que Danny e Dina não gostam de cães, nem sabem lidar com os mesmos, algo notório quando deixam a cadela fechada numa espécie de gaiola e exibem uma faceta questionável para com o animal de estimação. É uma maneira simplista de Todd Solondz satirizar aquele grupo de pessoas que compra cães, mas não tem paciência, nem tempo para educá-los e acompanhá-los, com "Wiener-Dog" a deixar-nos diante de um casal desagradável e de um jovem extremamente ingénuo, com o trio a não despertar o nosso mínimo interesse ou atenção. Diga-se que a crítica efectuada por Todd Solondz até é pertinente (continua-me a fazer confusão quando percebo que algumas pessoas compram ou adoptam cães sem saberem minimamente as características das raças, algo que gera muitas das vezes abandonos ou devoluções), mas é efectuada sem a mínima inspiração ou mordacidade, algo que retira algum do possível impacto a esta história.

07 agosto 2017

Resenha Crítica: "Une vie" (A Vida de Uma Mulher)

 Ao longo de "Une vie" (em Portugal: "A Vida de Uma Mulher") é possível encontrarmos diversos planos que se centram em Jeanne (Judith Chemla), à janela, a observar o território que rodeia a sua casa. São planos que contribuem para exibir na perfeição a solidão desta personagem e a sua personalidade observadora, com o espaço exterior a ser exposto de forma algo desfocada e a transmitir simultaneamente uma sensação de liberdade e de clausura, enquanto a habitação tanto permite proteger esta mulher como proporcionar-lhe imensas desilusões e deixá-la presa aos seus pensamentos. Jeanne é uma personagem em constante descoberta, criada pelos pais numa espécie de redoma, sem conhecer a malícia ou dificuldades, que tem no casamento um momento fulcral da sua vida. Tudo parecia perfeito, com Julien (Swann Arlaud) a prometer amar Jeanne para toda a vida, enquanto esta aparenta acreditar nessas palavras, pelo menos até os actos do esposo começarem a destoar do discurso. Diga-se que "Une vie" é um filme de poucas palavras, com boa parte do poder dos seus acontecimentos a estar nos silêncios, nos rostos que muito exprimem e muito escondem, ou nas elipses que agilizam e dinamizam a narrativa, embora nem sempre sejam utilizadas de forma harmoniosa. Uma das personagens que se exprime muitas das vezes através do silêncio é Jeanne, uma mulher que aos poucos descobre um lado mais obscuro da Humanidade, um pouco a fazer recordar aquilo que acontece com Thierry (Vincent Lindon), o protagonista de "La loi du marché". Tal como Thierry, também Jeanne procura manter a dignidade em situações adversas, enquanto Stéphane Brizé "despe" os seus intérpretes e faz com que estes encarnem por completo os personagens que interpretam. Judith Chemla transmite ingenuidade e fragilidade como Jeanne, sempre sem uma expressividade excessiva, com o seu rosto a dizer imenso e a expor a forma cruel como a realidade começa a magoar a alma desta mulher. A começar pela relação com o esposo, com Julien a não ter problemas em exibir uma postura fria para com a sua cara-metade. Note-se quando Julien reclama com a esposa devido a esta gastar demasiada lenha e velas, uma situação que coloca em evidência que a doçura dos primeiros momentos do matrimónio está a conhecer a amargura das descobertas pouco agradáveis, típicas de um casal que não se conhecia bem antes de se casar. Até então, Jeanne apenas conhecera o calor proporcionado por Simon-Jacques (Jean-Pierre Darroussin) e Adélaïde (Yolande Moreau), os seus pais, um casal aparentemente feliz, financeiramente abonado, que conta com uma mentalidade relativamente aberta (para a época) e tenta proteger a filha, embora esse objectivo nem sempre seja fácil de alcançar.

05 agosto 2017

Resenha Crítica: "Hampstead: Nunca é Tarde Para Amar"

 "Hampstead" (em Portugal: "Hampstead: Nunca é Tarde Para Amar") é um filme banal, marcado por uma pífia utilização dos lugares-comuns, uma enorme vontade de exibir a sua faceta feel good e uma incapacidade gritante para desenvolver algumas das temáticas que lança para o interior do enredo. No entanto, "Hampstead" ganha todo um outro interesse se encararmos esta obra cinematográfica como um exercício que nos permite observar a forma sagaz como Diane Keaton e Brendan Gleeson ultrapassam as armadilhas de um argumento pouco inspirado ao mesmo tempo que conseguem incutir vida e sensibilidade aos personagens que interpretam. Diane Keaton dá vida a Emily Walters, uma viúva na casa dos sessenta ou setenta anos de idade, que colecciona problemas financeiros, descura por completo a organização da sua casa e é mãe de Philip (James Norton), um indivíduo que parece ter nascido da união entre um casal de argumentistas que resolveu procriar num momento de desinspiração. Emily trabalha como voluntária numa loja solidária, a espaços contacta com o filho (uma figura ausente, que de vez em quando aparece para nos recordar que a protagonista tem problemas financeiros) e desperta a atenção de James (Jason Watkins), um contabilista com uma apetência notória para protagonizar situações embaraçosas. Embora não seja completamente solitária, Emily encontra-se algo deslocada em relação às figuras que a rodeiam em Hampstead, um espaço onde quase todos são ricos e gostam de organizar petições (de acordo com o filme). Diga-se que Emily conta em alguns momentos com a companhia das suas vizinhas, sobretudo Fiona (Lesley Manville), uma dondoca que procura encontrar um companheiro para a viúva, gosta de efectuar despesas fúteis e é imensamente superficial, com Lesley Manville a limitar-se a incutir o máximo de estereótipos e de frivolidade a esta mulher. Por sua vez, Brendan Gleeson interpreta Donald Horner, uma espécie de cliché do rabugento de bom coração, um indivíduo solitário que vive há dezassete anos numa cabana situada no Hampstead Heath, tendo construído esta habitação sem qualquer acordo legal. Donald gosta de pescar e de plantar os seus alimentos, enquanto procura viver de forma calma e solitária no bosque, se possível bem longe da Humanidade, embora esta faça questão de o importunar. O sossego de Donald termina a partir do momento em que começa a ser assediado por uma empresa de construção civil que pretende construir uma série de apartamentos de luxo no terreno onde este se encontra a habitar, uma situação que lhe proporciona algumas dores de cabeça. 

04 agosto 2017

Resenha Crítica: "Verão Danado" (2017)

 O dia é a noite e a noite é o dia para os personagens de "Verão Danado", quase como se estes estivessem presos no interior de um movimento perpétuo que se move às custas dos prazeres fugazes, da energia contida que clama por ser extravasada e da falta de perspectivas para o futuro. A noite é aproveitada para festejar, conviver, coleccionar conquistas, discussões, libertar energia, fortalecer amizades ou travar conhecimentos, com as emoções a palpitarem ao ritmo da batida da música que acompanha cada festa, enquanto o álcool, o tabaco e os charros são de consumo quase que obrigatório e as regras são temporariamente esquecidas. O dia também é aproveitado, mas praticamente como um aquecimento para a noite, ou não estivéssemos diante de um grupo de jovens adultos que se encontram quase todos licenciados e desempregados, muitos sem perspectivas de futuro, que procuram desfrutar dos prazeres da juventude, inebriar a angústia e conter os sonhos ao mesmo tempo que lidam de forma muito própria com a passagem do tempo. Tanto procuram desfrutar de cada segundo como se fosse o último como tratam o avançar do relógio como uma mera formalidade que permite perpetuar os momentos de lassidão, enquanto protagonizam uma série de episódios ao longo deste Verão danado, que lhes aquece a alma e inquieta o espírito. É a chamada "geração sem remuneração", com Pedro Cabeleira, um estreante na realização de longas-metragens, a colocar-nos diante de um filme que pulsa vida, cinema e emoções, enquanto nos deixa diante da "noite-a-noite" de Chico (Pedro Marujo), um jovem adulto, licenciado em filosofia, ou seja, desempregado. De barba saliente, uma propensão notória para fazer questões (sejam estas pertinentes ou inconvenientes) e meter conversa com jovens da sua idade, Chico vive numa espécie de limbo, preso às indefinições em relação ao seu futuro e às sensações inebriantes e sedutoras dos prazeres efémeros. Fuma imenso, seja cigarros ou charros, bebe sem travões quando está em festas, colecciona conquistas e protagoniza uma série de episódios e diálogos típicos de alguém da sua idade. Diga-se que um dos méritos de "Verão Danado" é fazer com que acreditemos nos diálogos dos personagens ao ponto de parecer que estamos mesmo diante de jovens adultos a falarem uns com os outros. Mérito para o elenco e para o argumento, bem como para a capacidade de Pedro Cabeleira em criar todo um ambiente credível em volta dos personagens e do meio que os rodeia.

03 agosto 2017

Resenha Crítica: "Blue Velvet" (Veludo Azul)

 A expressão "It's a strange world" é utilizada por quatro vezes ao longo de "Blue Velvet", algo que remete para atmosfera bizarra, peculiar e intensa que permeia o enredo desta hipnótica obra cinematográfica realizada por David Lynch. As marcas do cineasta encontram-se vincadas em quase todos os poros de "Blue Velvet", seja na forma como é capaz de simultaneamente hipnotizar e repelir o espectador, ou de inserir elementos surreais e violentos ao enredo, ou a controlar por completo os ritmos da narrativa e a explorar a paleta de cores ao serviço da história e da construção dos personagens, enquanto nos coloca diante de uma investigação que ganha contornos bizarros, inesperados e intensos. Essa investigação é protagonizada por Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachlan), um jovem adulto aparentemente calmo, apreciador de cerveja Heineken, que conta com uma curiosidade notória e surge como uma espécie de detective de carácter dúbio dos filmes noir. Diga-se que "Blue Velvet" deixa-nos perante diversos elementos transversais aos filmes noir, tais como a femme fatale, a insegurança nos espaços citadinos, a atmosfera de malaise, a investigação intrincada, o clube nocturno, as figuras que se movem pelas sombras, os personagens de carácter ambíguo e um protagonista que se movimenta pelas margens da imoralidade. Jeffrey envolve-se com a ingénua, com a femme fatale e acaba pelo caminho por se deparar com psicopatas, polícias corruptos, assassinos, traficantes e outras figuras do género, ou seja, que apimentam e muito o regresso do protagonista a Lumberton. Nos momentos iniciais de "Blue Velvet" encontramos Jeffrey a regressar a Lumberton, a cidade que o viu nascer, tendo em vista a administrar os negócios do pai (Jack Harvey), um indivíduo que se encontra temporariamente hospitalizado. É um regresso atribulado, com Jeffrey a deparar-se com uma orelha humana no interior de um espaço verdejante, uma situação que o conduz a entregar este órgão vestibulococlear às autoridades, nomeadamente, ao detective John Williams (George Dickerson). Este agradece a prestabilidade de Jeffrey e promete averiguar o caso, embora tente que o protagonista não faça mais questões enquanto a investigação está em curso. Claro está que Jeffrey quer saber mais, seja sobre a identidade do elemento que ficou sem orelha, ou em relação à forma como este órgão foi retirado, com a entrada em cena de Sandy (Laura Dern), a filha de John, a facilitar a vida do protagonista.

31 julho 2017

Resenha Crítica: "Princess - O Lado Oculto de uma Família"

 A mestria com que Tali Shalom-Ezer semeia a dúvida na nossa mente é algo de assinalar, com a cineasta a jogar com as nossas emoções e inquietações ao longo de "Princess" (em Portugal: "Princess - O Lado Oculto de uma Família"), enquanto desperta a incerteza sobre os actos de alguns personagens e aborda com acerto as relações peculiares e complexas de uma família invulgar. Será que um personagem é real ou fruto da imaginação da protagonista? Qual a natureza da relação entre a personagem principal e o namorado da mãe? Para onde é que Tali Shalom-Ezer nos está a guiar? Estas são algumas das questões que assolam a nossa mente ao longo de "Princess", enquanto acompanhamos as dinâmicas muito próprias de Adar (Shira Haas), Alma (Keren Mor) e Michael (Ori Pfeffer). Adar é uma jovem de doze anos de idade, bastante solitária, pouco dada a ir às aulas, que vive com Alma, a sua mãe, bem como com Michael, o namorado da progenitora, com a pré-adolescente a manter uma relação dotada de ambiguidade com este indivíduo. Diga-se que não parecem existir grandes barreiras no interior desta família, com Alma e Michael a exibirem uma abertura que nos surpreende. Note-se quando encontramos Alma e Michael a fazerem sexo, enquanto Adar ouve os sons emitidos pelo casal (o fora de campo é utilizado com acerto), ou o à vontade com que os dois primeiros expõem o corpo junto da jovem. Essa falta de barreiras contribui não só para colocar em evidência as dinâmicas muito próprias deste trio, mas também para adensar as nossas dúvidas em relação à estranha proximidade que existe entre Adar e Michael. Será apenas amizade? Estaremos diante de brincadeiras inocentes? Existe algo de estranho a rodear a relação de Adar e Michael, com Tali Shalom-Ezer a incutir inicialmente alguma ambiguidade em volta dos actos protagonizados por estes dois personagens, até expor que há algo de mais complexo a envolver o relacionamento desta dupla. Estamos perante um filme que nos desafia, que nos envolve para o interior da sua atmosfera próxima de um sonho, até nos desferir um murro no estômago e nos transportar para o interior de um pesadelo, com a cineasta a desenvolver as dinâmicas destes personagens com acerto, a abordar algumas temáticas complexas quase sempre com uma sensibilidade notória e a conceder espaço para que o elenco principal sobressaia em bom nível.

28 julho 2017

Resenha Crítica: "Il magnifico cornuto" (1964)

 O adultério e o desejo de cariz sexual surgem como temáticas que marcam o enredo de diversas comédias à italiana, tais como "Divorzio all'italiana", "Signore & Signori", "Brutti, sporchi e cattivi", "Drama della gelosia", "Matrimonio all'italiana", "L'oro di Napoli", entre outras obras cinematográficas deste subgénero. Estas contam com uma capacidade indelével para abordarem assuntos sérios com recurso ao humor, com a reunião entre a comédia e a tragédia a estar bastante enraizada neste subgénero, algo que acontece em "Il magnifico cornuto", uma obra cinematográfica onde o adultério e o desejo de cariz sexual estão presentes em quase todos os poros do enredo e mexem com o âmago dos personagens principais. O desejo parece levar muitas das vezes a melhor, com uma simples conferência sobre chapéus a contar com cochichos, jogos de sedução e a certeza de que as traições marcam o quotidiano de boa parte dos personagens que nos são apresentados. Um dos elementos mais em foco nesses cochichos é Roberto Mariotti (Bernard Blier), um vendedor de roupas e tapetes em pele, conhecido como o "corno de ouro". Quem não parece ter este tipo de preocupações é Andrea Artusi (Ugo Tognazzi) e Maria Grazia (Claudia Cardinale), com o casal a contar com uma relação marcada pela confiança e cumplicidade. Vestem-se bem, contam com uma casa dotada de diversos luxos, preparam a mudança para uma habitação requintada e participam em diversos eventos pontuados por vários convivas que não têm problemas financeiros. Andrea confia na esposa e não tem problemas em que esta exiba os seus atributos físicos. Maria Grazia também acredita no esposo, com o casal a parecer complementar-se praticamente na perfeição, apesar das tentações aparecerem imensas vezes pelo caminho. Se Maria Grazia procura inicialmente desviar-se desses caminhos sinuosos que podem levar a traições, já Andrea acaba por iniciar um affair com Cristiana (Michèle Girardon), a esposa do presidente do clube frequentado pelo protagonista e de diversas associações (José Luis de Vilallonga). Michèle Girardon compõe uma personagem sedutora e aparentemente experiente na arte da traição, que gosta de despertar a atenção dos homens e não parece sentir qualquer sentimento de culpa por trair o esposo. Andrea sente-se atraído por esta mulher, com um encontro num hotel a selar uma traição que tem o condão de servir de alavanca para o protagonista começar a questionar se a esposa está a traí-lo. É o início de "uma bela" obsessão, sobretudo pela facilidade com que a imaginação de Andrea funciona, algo que o conduz a protagonizar actos que desafiam o bom senso, com "Il magnifico cornuto" a envolver-se pelos meandros de uma relação matrimonial que é claramente afectada pelo espectro da traição.

26 julho 2017

Resenha Crítica: "London Town" (2016)

 "London Town" é um filme simples, que sabe utilizar essa simplicidade como um dos seus principais atributos. No seu cerne está a história de um adolescente que se encontra a formar a sua identidade, a conhecer o primeiro amor, a desafiar a autoridade paterna e a descobrir a banda The Clash, enquanto tem de lidar com uma série de responsabilidades típicas dos adultos. Em pano de fundo temos Inglaterra em plena década de 70, marcada pelos protestos populares, pela música punk e pela ameaça xenófoba da Frente Nacional Britânica, com "London Town" a utilizar o contexto histórico para adornar a história do protagonista e dialogar com o nosso tempo. É um filme que não procura desenvolver os seus temas de forma complexa, ou determinada, nem foge aos lugares-comuns, mas nem por isso é menos convincente na abordagem das suas temáticas, enquanto nos coloca diante de uma magnífica banda sonora, pontuada por uma série de músicas dos icónicos The Clash. O adolescente que mencionámos é Shay Baker, interpretado com acerto e confiança por Daniel Huttlestone, com o jovem intérprete a transmitir as dúvidas, inquietações e certezas que perpassam pela mente do protagonista. Shay vive com Nick Baker (Dougray Scott), o pai, num pequeno apartamento situado em Wanstead (nos subúrbios de Londres), bem como com Alice (Anya McKenna-Bruce ), a irmã, uma rapariga de seis anos de idade e uma personalidade afável. Sandrine (Natascha McElhone), a mãe de Shay e Alice, divorciou-se há bastantes anos de Nick, tendo partido para Londres em busca de uma carreira no mundo da música e de um estilo de vida libertino. Shay pondera reunir-se com a mãe, sobretudo após receber uma carta desta que contém uma cassete com uma série de músicas, entre as quais "(White Man) In Hammersmith Palais", da banda The Clash, liderada por Joe Strummer (Jonathan Rhys Meyers). É o primeiro contacto que Shay tem com esta banda, embora fique desde logo siderado com as letras e o estilo punk dos The Clash, algo que adensa o desejo que o jovem tem em contactar com a mãe. Nick não se exibe particularmente favorável, ou entusiasmado em relação à possibilidade dos filhos reunirem-se com Sandrine. "No child of mine is gonna live in a bloody squat with a bunch of hippies let alone, look at me let alone with a woman more interested in being her 14-year-old's mate than his mother" diz Nick para o filho, enquanto o jovem Shay completa o ritual típico da adolescência de desafiar a autoridade paterna.

23 julho 2017

Resenha Crítica: "Valerian and the City of a Thousand Planets" (Valerian e a Cidade dos Mil Planetas)

 Num determinado momento de "Valerian and the City of a Thousand Planets" (em Portugal: "Valerian e a Cidade dos Mil Planetas"), encontramos o personagem do título (Dane DeHaan), um agente espácio-temporal, a desferir um murro em Arün Filitt (Clive Owen), o seu comandante. É um momento de alguma inquietação, mas a Sargento Laureline (Cara Delevingne), a companheira, colega de trabalho e namorada de Major Valerian, logo salienta que ensinou este movimento ao protagonista, algo que permite aliviar a tensão e despertar um largo sorriso no espectador. Diga-se que este momento permite ainda exibir de forma paradigmática a faceta leve, bem disposta e confiante de "Valerian and the City of a Thousand Planets", ou não estivéssemos perante uma space opera que não tem problemas quer em abraçar o seu lado camp, deliciosamente extravagante e delirante, quer a exibir que não pretende ser mais do que um pedaço de duas horas e pouco de puro escapismo. Luc Besson não se envolve por questões profundas ou complexas, por vezes parece que se perde no "parque de diversões" maravilhoso que criou, a espaços aparenta querer percorrer os caminhos mais simples ou aqueles que fazem pouco sentido, mas também não deixa de ser notório que o cineasta tem em "Valerian and the City of a Thousand Planets" uma space opera divertida, dotada de uma série de figuras e cenários que captam a atenção e uma dupla de protagonistas que desperta facilmente a nossa simpatia. Tem ainda o mérito de saber despertar a nossa boa vontade em relação às suas limitações, tais como aquelas que já foram mencionadas, com Luc Besson a realizar uma obra cinematográfica de alto orçamento que mantém uma certa ingenuidade e uma leveza que aos poucos nos conquista e encanta. Os seus momentos iniciais permitem colocar-nos perante um aperitivo do arsenal de efeitos especiais que Luc Besson tem à sua disposição, com o cineasta a não se poupar a esforços para justificar cada cêntimo que gastou ao criar todo um conjunto de cenários e seres que contribuem para a riqueza visual do filme. No caso dos momentos iniciais (após o prólogo), ficamos perante o planeta Mül, um espaço dotado de areais límpidos, um céu de uma tonalidade azul bastante viva, uma atmosfera harmoniosa e características paradisíacas, sendo habitado pelos Pearls, um povo inteligente, calmo e ponderado. 

22 julho 2017

Resenha Crítica: "The History of Love" (A História do Amor)

 "The History of Love" (em Portugal: "A História do Amor") começa com um "era uma vez" a ser narrado em off, quase que a remeter para uma espécie de conto de fadas. Não é um conto de fadas que "The History of Love" nos apresenta, mas sim um melodrama açucarado e desastrado, pontuado por alguns momentos de humor e uma vontade imensa de nos comover. Por vezes parece que Radu Mihaileanu efectuou uma aposta para demonstrar quantas frases de efeito ou lamechas conseguiria colocar no interior de uma obra cinematográfica, ou pura e simplesmente não existiu arte e engenho da parte deste cineasta para criar algo que nos compelisse a acreditar verdadeiramente nos sentimentos e nas palavras dos personagens. "Léo, se a amas tens de deixá-la ir", "As histórias de amor nunca duram", "O amor só existe nos livros", estas são algumas frases de efeito com que somos presenteados ao longo desta obra cinematográfica, algo que a espaços contribui para atribuir uma artificialidade excessiva a "The History of Love" ao ponto de "sairmos" do enredo e começarmos apenas a ver actores e actrizes a representar. É certo que nem sempre isso acontece, para além de nem ser o pecado capital deste filme. O maior problema centra-se na incapacidade que Radu Mihaileanu demonstra para conjugar de forma harmoniosa a história de Léo Gursky no presente (2006) e no passado (antes e durante a II Guerra Mundial, bem como em 1995 e 1957) com o enredo relacionado com Alma Singer (Sophie Nélisse), uma adolescente que conta com quinze anos de idade. De um lado temos uma paixão que conta com a II Guerra Mundial e o Holocausto como pano de fundo, bem como a história de um idoso solitário a viver em Chinatown (2006), enquanto que no outro espectro temos um romance adolescente que parece saído de uma série do Disney Channel, ou seja, é uma mistura que não combina. Até poderia funcionar noutras mãos e a história destes personagens ainda se chega a "tocar", mas é tudo de forma demasiado artificial. Diga-se que um número considerável de personagens são unidos por um livro, ou por um passado em comum, ou por uma miríade de coincidências, enquanto "The History of Love" nos coloca diante de uma série de momentos que variam entre o romantismo, o drama, o humor e a lamechice. O livro que une uma parte considerável destes personagens chama-se "The History of Love", tendo sido escrito por Léo Gursky quando era mais jovem (interpretado por Mark Rendall durante a juventude), tendo em vista a relatar o seu romance com Alma Mereminski (Gemma Arterton), a mulher que jurou amar para toda a vida.