26 julho 2017

Resenha Crítica: "London Town" (2016)

 "London Town" é um filme simples, que sabe utilizar essa simplicidade como um dos seus principais atributos. No seu cerne está a história de um adolescente que se encontra a formar a sua identidade, a conhecer o primeiro amor, a desafiar a autoridade paterna e a descobrir a banda The Clash, enquanto tem de lidar com uma série de responsabilidades típicas dos adultos. Em pano de fundo temos Inglaterra em plena década de 70, marcada pelos protestos populares, pela música punk e pela ameaça xenófoba da Frente Nacional Britânica, com "London Town" a utilizar o contexto histórico para adornar a história do protagonista e dialogar com o nosso tempo. É um filme que não procura desenvolver os seus temas de forma complexa, ou determinada, nem foge aos lugares-comuns, mas nem por isso é menos convincente na abordagem das suas temáticas, enquanto nos coloca diante de uma magnífica banda sonora, pontuada por uma série de músicas dos icónicos The Clash. O adolescente que mencionámos é Shay Baker, interpretado com acerto e confiança por Daniel Huttlestone, com o jovem intérprete a transmitir as dúvidas, inquietações e certezas que perpassam pela mente do protagonista. Shay vive com Nick Baker (Dougray Scott), o pai, num pequeno apartamento situado em Wanstead (nos subúrbios de Londres), bem como com Alice (Anya McKenna-Bruce ), a irmã, uma rapariga de seis anos de idade e uma personalidade afável. Sandrine (Natascha McElhone), a mãe de Shay e Alice, divorciou-se há bastantes anos de Nick, tendo partido para Londres em busca de uma carreira no mundo da música e de um estilo de vida libertino. Shay pondera reunir-se com a mãe, sobretudo após receber uma carta desta que contém uma cassete com uma série de músicas, entre as quais "(White Man) In Hammersmith Palais", da banda The Clash, liderada por Joe Strummer (Jonathan Rhys Meyers). É o primeiro contacto que Shay tem com esta banda, embora fique desde logo siderado com as letras e o estilo punk dos The Clash, algo que adensa o desejo que o jovem tem em contactar com a mãe. Nick não se exibe particularmente favorável, ou entusiasmado em relação à possibilidade dos filhos reunirem-se com Sandrine. "No child of mine is gonna live in a bloody squat with a bunch of hippies let alone, look at me let alone with a woman more interested in being her 14-year-old's mate than his mother" diz Nick para o filho, enquanto o jovem Shay completa o ritual típico da adolescência de desafiar a autoridade paterna.

23 julho 2017

Resenha Crítica: "Valerian and the City of a Thousand Planets" (Valerian e a Cidade dos Mil Planetas)

 Num determinado momento de "Valerian and the City of a Thousand Planets" (em Portugal: "Valerian e a Cidade dos Mil Planetas"), encontramos o personagem do título (Dane DeHaan), um agente espácio-temporal, a desferir um murro em Arün Filitt (Clive Owen), o seu comandante. É um momento de alguma inquietação, mas a Sargento Laureline (Cara Delevingne), a companheira, colega de trabalho e namorada de Major Valerian, logo salienta que ensinou este movimento ao protagonista, algo que permite aliviar a tensão e despertar um largo sorriso no espectador. Diga-se que este momento permite ainda exibir de forma paradigmática a faceta leve, bem disposta e confiante de "Valerian and the City of a Thousand Planets", ou não estivéssemos perante uma space opera que não tem problemas quer em abraçar o seu lado camp, deliciosamente extravagante e delirante, quer a exibir que não pretende ser mais do que um pedaço de duas horas e pouco de puro escapismo. Luc Besson não se envolve por questões profundas ou complexas, por vezes parece que se perde no "parque de diversões" maravilhoso que criou, a espaços aparenta querer percorrer os caminhos mais simples ou aqueles que fazem pouco sentido, mas também não deixa de ser notório que o cineasta tem em "Valerian and the City of a Thousand Planets" uma space opera divertida, dotada de uma série de figuras e cenários que captam a atenção e uma dupla de protagonistas que desperta facilmente a nossa simpatia. Tem ainda o mérito de saber despertar a nossa boa vontade em relação às suas limitações, tais como aquelas que já foram mencionadas, com Luc Besson a realizar uma obra cinematográfica de alto orçamento que mantém uma certa ingenuidade e uma leveza que aos poucos nos conquista e encanta. Os seus momentos iniciais permitem colocar-nos perante um aperitivo do arsenal de efeitos especiais que Luc Besson tem à sua disposição, com o cineasta a não se poupar a esforços para justificar cada cêntimo que gastou ao criar todo um conjunto de cenários e seres que contribuem para a riqueza visual do filme. No caso dos momentos iniciais (após o prólogo), ficamos perante o planeta Mül, um espaço dotado de areais límpidos, um céu de uma tonalidade azul bastante viva, uma atmosfera harmoniosa e características paradisíacas, sendo habitado pelos Pearls, um povo inteligente, calmo e ponderado. 

22 julho 2017

Resenha Crítica: "The History of Love" (A História do Amor)

 "The History of Love" (em Portugal: "A História do Amor") começa com um "era uma vez" a ser narrado em off, quase que a remeter para uma espécie de conto de fadas. Não é um conto de fadas que "The History of Love" nos apresenta, mas sim um melodrama açucarado e desastrado, pontuado por alguns momentos de humor e uma vontade imensa de nos comover. Por vezes parece que Radu Mihaileanu efectuou uma aposta para demonstrar quantas frases de efeito ou lamechas conseguiria colocar no interior de uma obra cinematográfica, ou pura e simplesmente não existiu arte e engenho da parte deste cineasta para criar algo que nos compelisse a acreditar verdadeiramente nos sentimentos e nas palavras dos personagens. "Léo, se a amas tens de deixá-la ir", "As histórias de amor nunca duram", "O amor só existe nos livros", estas são algumas frases de efeito com que somos presenteados ao longo desta obra cinematográfica, algo que a espaços contribui para atribuir uma artificialidade excessiva a "The History of Love" ao ponto de "sairmos" do enredo e começarmos apenas a ver actores e actrizes a representar. É certo que nem sempre isso acontece, para além de nem ser o pecado capital deste filme. O maior problema centra-se na incapacidade que Radu Mihaileanu demonstra para conjugar de forma harmoniosa a história de Léo Gursky no presente (2006) e no passado (antes e durante a II Guerra Mundial, bem como em 1995 e 1957) com o enredo relacionado com Alma Singer (Sophie Nélisse), uma adolescente que conta com quinze anos de idade. De um lado temos uma paixão que conta com a II Guerra Mundial e o Holocausto como pano de fundo, bem como a história de um idoso solitário a viver em Chinatown (2006), enquanto que no outro espectro temos um romance adolescente que parece saído de uma série do Disney Channel, ou seja, é uma mistura que não combina. Até poderia funcionar noutras mãos e a história destes personagens ainda se chega a "tocar", mas é tudo de forma demasiado artificial. Diga-se que um número considerável de personagens são unidos por um livro, ou por um passado em comum, ou por uma miríade de coincidências, enquanto "The History of Love" nos coloca diante de uma série de momentos que variam entre o romantismo, o drama, o humor e a lamechice. O livro que une uma parte considerável destes personagens chama-se "The History of Love", tendo sido escrito por Léo Gursky quando era mais jovem (interpretado por Mark Rendall durante a juventude), tendo em vista a relatar o seu romance com Alma Mereminski (Gemma Arterton), a mulher que jurou amar para toda a vida.

19 julho 2017

Resenha Crítica: "Dunkirk" (2017)

 Já entraram numa sala de cinema com uma vontade enorme de gostar de um filme? É algo que por vezes me acontece quando estou diante de filmes de cineastas que admiro, ou que contam com actores e actrizes por quem tenho uma especial simpatia. Christopher Nolan é um desses cineastas. Também não sei se já apanharam uma enorme desilusão em relação a algum desses filmes em que depositavam algumas esperanças. É algo que de vez em quando me acontece. "Dunkirk" é um desses casos em que gostava de me ter sentido arrebatado pelo filme, mas este apenas conseguiu despertar a minha indiferença. Parece contraditório dizer que um filme inspirado num episódio Histórico tão marcante como a Operação Dínamo, ocorrido de 26 de Maio a 4 de Junho de 1940, é capaz de despertar indiferença, mas é isso que acontece ao longo desta obra cinematográfica. A ideia inicial é interessante, pelo menos até o trabalho de montagem se tornar caótico a um ponto em que é praticamente impossível seguir todos os episódios com atenção ou preocupação, enquanto Christopher Nolan tenta incutir uma aura de thriller grandioso a "Dunkirk". O cineasta divide a acção pela terra, pelo mar e pelo ar, em diferentes escalas de tempo, enquanto nos apresenta a grupos distintos de personagens (e às suas perspectivas sobre os eventos que decorrem ao longo do filme). Em terra, temos elementos como Tommy (Fionn Whitehead), um soldado que encontramos no início do filme a tentar fugir dos bombardeamentos inimigos, até chegar a uma praia de Dunquerque que surge como um espaço desolador. Não faltam soldados à espera de serem resgatados, enquanto o mar tanto traz uma sensação de esperança e de liberdade como de clausura e desolação. Essa sensação quase claustrofóbica é adensada pelos ataques alemães e pela incerteza que perpassa pela alma destes soldados. É nas imediações deste espaço que Tommy conhece Gibson (Aneurin Barnard) e Alex (Harry Styles), com o trio a pretender regressar a Inglaterra com vida, algo apenas possível se conseguirem entrar a bordo de um barco. A coordenar as saídas dos soldados que se encontram nas praias, enquanto aguardam por regressar a Inglaterra, está o Comandante Bolton, um indivíduo aparentemente justo e cordial, com Kenneth Branagh a conceder alguma dimensão às poucas falas que o seu personagem tem ao longo do filme. Outro dos personagens que a espaços surge em destaque é Mr. Dawson (Mark Rylance), um indivíduo que representa um dos muitos civis que arriscaram as suas vidas ao utilizarem os seus barcos particulares para ajudarem a transportar os militares britânicos de regresso a casa.

18 julho 2017

Resenha Crítica: "À bras ouverts" (De Braços Abertos)

 "À bras ouverts" (em Portugal: "De Braços Abertos") tem despertado alguma polémica em França devido à forma ofensiva como retrata os ciganos. Esta polémica e a má recepção da crítica levou Christian Clavier a tentar defender o filme ao salientar que "À bras ouverts" não é um "amontoado de clichés". Até podemos ter imensa boa vontade para com Christian Clavier, mas o actor não poderia estar mais errado: "À bras ouverts" é um amontoado de clichés. Pior do que isso. Esses lugares-comuns remetem para os estereótipos associados à comunidade cigana, com os elementos desta etnia a serem representados de forma ofensiva e caricatural ao longo desta comédia. O problema não está no acto de fazer humor com temas polémicos ou minorias, mas sim na forma como estas piadas e estes estereótipos acabam por servir mais para achincalhar uma comunidade do que para efeitos cómicos, com Phillipe de Chauveron (do sucesso "Qu'est-ce qu'on a fait au Bon Dieu?") a realizar uma obra cinematográfica pueril, básica, simplista e sofrível, que de comédia tem muito pouco e de cinema ainda menos. Nem chega àquele nível dourado de "é tão mau que é bom". É simplesmente medíocre, sem qualquer sentido de ritmo ou domínio dos timings da comédia, enquanto ficamos diante de uma série de caricaturas desprovidas de dimensão e massa humana. Essas caricaturas são interpretadas por actores e actrizes como Christian Clavier, Ary Abittan, Elsa Zylberstein, Cyril Lecomte, Marc Arnaud, com a maioria a dar uma pálida imagem e a compor personagens que queremos tirar rapidamente da memória. Christian Clavier interpreta Jean-Etienne Fougerole, um intelectual de esquerda, que vive numa mansão de luxo, tem uma fisionomia que a espaços nos faz recordar Fernando Rosas, é adepto do "faz o que eu digo, não faças o que eu faço" e defensor da etnia cigana. Jean-Etienne é colocado entre a espada e a parede quando é convidado para debater com Clément Barzach (Marc Arnaud), um intelectual conservador de direita, num programa televisivo que conta com uma audiência considerável. Autor do livro "À bras ouverts", onde defende que os mais privilegiados devem acolher nas suas casas os mais necessitados, bem como a inclusão da comunidade cigana no interior da sociedade francesa, Jean-Etienne é desafiado por Clément a passar das palavras aos actos. Jean-Etienne encoleriza-se, tenta dar respostas evasivas até ser praticamente obrigado a dizer que as portas da sua casa estão abertas, embora não acredite que alguém responda ao repto.

16 julho 2017

Resenha Crítica: "Cars 3" (Carros 3)

 É praticamente impossível visionarmos "Cars 3" e não pensarmos em diversos filme da saga "Rocky". Desde a crise de confiança do protagonista, passando pelo contraste entre o treino old school do personagem principal e a metodologia moderna e de ponta do rival, até à aceitação das limitações inerentes ao avançar da idade e à descoberta do prazer de treinar um novato, não faltam temas e situações que unem "Cars 3" aos filmes da icónica saga imortalizada por Sylvester Stallone. Temos ainda a abordagem de alguns problemas que afectam diversos desportistas que se deparam com o avançar da idade, nomeadamente, a perda de algumas qualidades e a inevitabilidade de terem de lidar com a entrada em cena de novatos com fome de títulos. No caso de Lightning McQueen (Owen Wilson), este percebe que a sua carreira está num impasse a partir do momento em que é colocado diante do ímpeto vencedor de Jackson Storm (Armie Hammer) e sofre um grave acidente de viação que coloca a sua vida em perigo (naquele que é um dos momentos mais pesados da saga). É algo a que McQueen não estava habituado, ou não estivéssemos diante de um piloto confiante nas suas capacidades, que colecciona um grande número de vitórias e parece praticamente imbatível, uma situação que muda quando começa a observar diversos colegas a retirarem-se das corridas e encontra um adversário temível. Storm é um carro preto, novato, que utiliza tecnologia moderna para treinar e apresenta uma confiança inabalável que parece começar a faltar a McQueen. O acidente e as derrotas levam a que o protagonista comece a duvidar de si próprio, embora pretenda regressar aos grandes palcos e vincar o seu valor no meio dos novatos. Nesse sentido, McQueen decide começar a treinar no novo centro de treino da Rust-eze, um espaço moderno, recheado dos melhores equipamentos. Este espaço foi construído com o dinheiro de Sterling (Nathan Fillion), um empresário de sucesso que comprou a Rust-eze, embora esteja longe de apresentar a mesma lealdade para com McQueen do que Rusty e Dusty, os antigos proprietários da marca que patrocina a equipa do protagonista. Se Rusty e Dusty mantinham uma relação de amizade com o protagonista, já Sterling encara McQueen como uma marca que deve ser preservada e utilizada para vender uma série de merchandising, ou seja, como a Pixar e a Disney encaram a franquia de "Cars", com as ideias do empresário a colidirem com as pretensões do piloto, sobretudo nas questões relacionadas com a carreira deste último.

15 julho 2017

Resenha Crítica: "Baywatch: Marés Vivas" (2017)

 "Baywatch" é um filme que padece de problemas de identidade. Tanto quer ser uma paródia da série televisiva homónima como homenageia e utiliza de forma descarada alguns dos seus ingredientes. Entre esses elementos encontram-se os diálogos existencialistas, uma defesa feroz do feminismo, um guarda-roupa composto por vestimentas pesadas, personagens dotados de complexidade....ups, desculpem, filme errado. Não faltam corridas em slow-motion, decotes generosos, mamas e rabos a serem realçados pela câmara de filmar (é certo que já vimos muito mais de Alexandra Daddario em "True Detective", ou de Kelly Rohrbach em diversos ensaios fotográficos), actrizes e actores em forma (os músculos salientes de Dwayne Johnson e Zac Efron são recursos de peso ao serviço do humor), salvamentos espalhafatosos, imensa canastrice (por vezes propositada), diálogos manhosos e um caso pueril para a equipa de salva-vidas resolver. Diga-se que quando assume a sua faceta de comédia, ou exibe a sua parvoíce sem qualquer ponta de pudor, ou recorre à metalinguagem, "Baywatch" consegue despertar alguns risos e tem alguns momentos em que proporciona umas boas doses de escapismo. Veja-se os momentos em que encontramos alguns dos nadadores-salvadores a correrem em slow-motion, com os atributos físicos dos intérpretes a sobressaírem em grande estilo, sejam os seios ou os traseiros das actrizes, ou os músculos de Dwayne Johnson e Zac Efron, enquanto alguns personagens ironizam com a situação. Em alguns momentos parece que os personagens de "Baywatch" sabem que estão no interior de um filme inspirado numa série que se encontra completamente datada, com o argumento de Damian Shannon e Mark Swift a inserir de forma relativamente eficaz uma série de referências que remetem para o programa televisivo, ou envolvem comentários sobre o mesmo. Note-se os já mencionados comentários sobre os movimentos em slow-motion, ou Matt Brody (Zac Efron) a salientar que a teoria dos companheiros parece saída de uma série televisiva manhosa. A situação sai de controlo quando "Baywatch" se decide levar um pouco mais a sério, nomeadamente, a partir do momento em que Seth Gordon, o realizador desta obra cinematográfica, decide colocar Mitch Buchannon (Dwayne Johnson) e a sua equipa a investigarem um caso relacionado com tráfico de droga, mortes misteriosas e um plano maquiavélico para privatizar a praia que vigiam. Mitch é um nadador-salvador que encara a sua profissão com enorme seriedade e rigor (com uma inocência e determinação que a espaços quase que nos leva a questionar se não ingere unicórnios às refeições), enquanto dispara frases de efeito, emana canastrice como o seu homónimo interpretado por David Hasselhoff e conta com um físico digno de Hércules.

14 julho 2017

Resenha Crítica: "Ma vie de Courgette" (A Minha Vida de Courgette)

 É possível despir as emoções durante a visualização de um filme? "Ma vie de Courgette", a primeira longa-metragem realizada por Claude Barras, atesta de forma paradigmática que essa é uma tarefa praticamente impossível de alcançar, ou não estivéssemos perante um filme de animação que consegue mexer de forma indelével com as nossas emoções e o nosso estado de alma. É um filme terno e encantador, dotado de enorme sensibilidade e humanidade, que nos toca profundamente, seja ao nosso "eu" adulto ou ao lado mais juvenil, enquanto desperta uma miríade de emoções e aborda temáticas relevantes. Em cerca de uma hora e pouco de duração, "Ma vie de Courgette" leva-nos do riso às lágrimas, da melancolia à euforia, do pessimismo à esperança, enquanto nos deixa diante da história do pequeno Icare (Gaspard Schlatter), mais conhecido como Courgette. Este é um rapaz de nove anos de idade, algo tímido e sensível, que conta com cabelo azul, nariz vermelho e anda quase sempre acompanhado por um papagaio de papel. Não sabemos ao certo se o pai de Courgette desapareceu e nunca mais entrou em contacto com o rapaz, ou se faleceu, enquanto que a mãe do protagonista é viciada em bebidas alcoólicas, sobretudo cerveja, algo que afecta a relação entre o jovem e a progenitora. Nos momentos iniciais de "Ma vie de Courgette", encontramos Courgette no interior do seu quarto, enquanto brinca sozinho com um papagaio de papel (com um desenho de um super-herói que representa o pai), ou efectua um castelo com latas de cerveja vazias. Por sua vez, a mãe de Courgette encontra-se na sala, enquanto consome bebidas alcoólicas de forma compulsiva e pragueja com a televisão, até decidir entrar no quarto do filho e começar a discutir com o petiz, com as nuvens negras a cobrirem o céu e a exacerbarem a atmosfera desoladora que envolve os momentos iniciais do filme. Pouco depois, deixamos de ouvir esta mulher, até recebermos a notícia que faleceu, algo que conduz Raymond (Michel Vuillermoz), um polícia com um bigode saliente e uma personalidade afável, a transportar o protagonista em direcção ao orfanato local. Courgette leva consigo o papagaio de papel, bem como uma lata de cerveja (a única recordação material que guarda da mãe), enquanto se depara com uma realidade que não deseja, nem lhe agrada, embora os responsáveis do orfanato demonstrem uma enorme simpatia e prestabilidade. Veja-se o caso de Paul (Adrien Barazzone) e Rosy (Véronique Montel), um professor e uma auxiliar (e par romântico) que mantêm uma grande proximidade com os petizes, ou de Madame Papineau (Monica Budde), a directora, uma senhora relativamente simpática e cordial.

11 julho 2017

Resenha Crítica: "La fille inconnue" (2016)

 Disse para mim mesmo que tão depressa não voltaria a escrever sobre filmes que não gostei, ou que me desiludiram. O que eu quero fazer é uma coisa, outra diametralmente oposta é aquilo que consigo efectuar. É nessa tradição de me contradizer que decidi escrever uma resenha crítica sobre "La fille inconnue". Curiosamente, também em "La fille inconnue" existe essa dicotomia entre o que os irmãos Dardenne pretendem para o filme e o resultado final desta obra cinematográfica. Nenhum cineasta está livre de um tropeço, inclusive os irmãos Dardenne, algo que podemos comprovar em "La fille inconnue", um obra cinematográfica que se envolve pelas franjas do drama social e do filme de investigação, sempre de forma algo inconsequente, enquanto deixa um travo amargo na nossa mente. Esperávamos mais de um filme dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, mas aquilo que estes nos dão é uma obra cinematográfica que sabe aquilo que quer dizer, embora se desoriente imenso pelo caminho, com as subtramas e as reviravoltas a nem sempre provocarem o efeito pretendido. Essa situação é particularmente visível nos momentos finais de "La fille inconnue", quando as revelações nem sempre convencem, sobretudo quando somos colocados perante a chegada da irmã de uma figura que conta com um relevo indelével no interior do enredo, com o aparecimento desta personagem a surgir como um recurso demasiado artificial. Não é que estes momentos sejam desprovidos de sentido, mas são inseridos de forma pouco subtil e algo extemporânea no interior do enredo, embora se perceba a intenção dos irmãos Dardenne e se elogie as suas preocupações sociais (e a atenção dada à "população das margens"). O problema é que por muito bem intencionados que sejam nas suas preocupações, os cineastas nem sempre, ou muito raramente, conseguem criar uma harmonia entre a exposição do quotidiano de Jenny Davin (Adèle Haenel), uma médica, na clínica em que esta trabalha, ou a acompanhar os pacientes ao domicílio, com a investigação levada a cabo pela protagonista. Jenny nem sempre efectua os actos mais pragmáticos, ou toma as decisões mais compreensíveis, com Adèle Haenel a incutir sobriedade a esta médica e a surgir como um dos elementos em destaque no filme. Quando conhecemos Jenny, a médica encontra-se prestes a integrar os quadros de uma clínica mais luxuosa do que aquela em que trabalha, enquanto evidencia uma postura metódica a tratar dos doentes e tenta ensinar Julien (Olivier Bonnaud), o seu estagiário, um jovem adulto que nem sempre consegue deixar as emoções de lado no cumprimento do seu ofício.

08 julho 2017

Resenha Crítica: "Paterson" (2016)

 Paterson (Adam Driver) é um indivíduo ponderado, sensato, calmo e observador, que encontra poesia nos locais mais simples e improváveis. Este trabalha como motorista de autocarros, escreve poemas nos tempos livres, passeia o cão todas as noites e ama profundamente Laura (Golshifteh Farahani), a sua esposa. Laura é uma mulher sonhadora, criativa e terna, que aprecia a poesia do esposo e compreende-o na perfeição, com o casal a contar com uma união bastante forte, algo exposto de forma credível e encantadora ao longo desta longa-metragem realizada por Jim Jarmusch. Essa união é visível nos pequenos actos de Paterson e Laura, com Adam Driver e Golshifteh Farahani a inserirem credibilidade e candura às dinâmicas dos personagens que interpretam, enquanto acompanhamos o casal ao longo de um período de cerca de sete dias. Note-se a forma terna como Paterson encoraja as ideias da esposa, ou a maneira sincera como esta pesquisa informação relacionada com poetas como Dante e Petrarca para incentivar o marido a escrever, com uma simples troca de olhares a dizer muito sobre a cumplicidade que pontua a relação destes personagens. Essa intimidade é adensada pela atenção que Jim Jarmusch concede aos pequenos pormenores que envolvem o dia-a-dia de Paterson e Laura e transmitem imenso sobre a personalidade destes personagens. Veja-se quando encontramos caixinhas adornadas a preceito no interior da lancheira de Paterson, ou uma tangerina com a casca pintada, com as refeições deste indivíduo a serem preparadas e primorosamente decoradas por Laura. Temos ainda os momentos em que Laura decide inventar receitas, ou aprender a tocar guitarra, com Paterson a aderir às ideias da esposa e a incentivá-la. Adam Driver imprime uma ponderação notória a Paterson, com o actor a transformar-se neste poeta de gestos simples, palavras certeiras e postura observadora. Um simples pacotinho de fósforos permite que Paterson deixe a imaginação fluir, enquanto traduz as suas ideias e sentimentos em poemas que deixam transparecer a sua personalidade fascinante. Golshifteh Farahani imprime uma faceta cândida e sonhadora a Laura, com esta mulher a contar com sonhos bem vivos, uma doçura que nos encanta e uma criatividade deveras peculiar. Veja-se os cortinados às bolinhas efectuados por esta mulher, ou os quadros manhosos com as pinturas que efectua de Marvin, um bulldog inglês bastante expressivo e carismático, que gosta de dormir no sofá, comandar os passeios e, tal como a maioria dos cães, aprecia um bom pedaço de papel, inclusive se este material estiver num caderno. 

07 julho 2017

Resenha Crítica: "Le meraviglie" (O País das Maravilhas)

 Não é obra do acaso, nem mera coincidência, que os planos finais de "Le meraviglie" destaquem a propriedade da família de protagonistas. É o sublinhar da importância deste cenário para os personagens principais, seja como uma espécie de "castelo" que é administrado de forma muito própria, ou como um espaço que em alguns momentos transmite a falsa sensação de que não é influenciado pelo contexto que o rodeia, ou como um limbo no qual os sonhos são aprisionados. Estes planos permitem ainda exprimir a relevância deste cenário para as características simultaneamente ancoradas na realidade e fabulescas da segunda longa-metragem realizada por Alice Rohrwacher, com a cineasta a desenvolver com acerto as dinâmicas da família que habita nesta casa e a abordar a vida no campo sem romancear o quotidiano nos espaços rurais. Parece algo contraditório salientar que "Le meraviglie" tanto conta com uma faceta de fábula e dotada de algum lirismo como transmite o quotidiano da vida no campo de forma objectiva e ancorada na realidade, mas é precisamente isso que acontece ao longo do filme, com Alice Rohrwacher a conciliar habilmente estas dicotomias. Diga-se que estas contradições andam de braço dado com as idiossincrasias do território onde fica localizado o "castelo" em que se desenrola boa parte do enredo, com o "rei" a procurar que as ameaças externas não influenciem a sua propriedade, embora essa tarefa seja praticamente impossível de concretizar. Localizada num território rural nas imediações da Umbria, esta propriedade tem em Wolfgang (Sam Louwyck), um imigrante de origem alemã ou belga, o seu "rei". Este é um indivíduo de barba saliente, pouco dado a aceitar grandes alterações nas suas rotinas, que educa as filhas de forma peculiar e tenta ser fiel aos seus ideais, mesmo que estes contem com umas boas doses de ingenuidade. Wolfgang é casado com Angelica (Alba Rohrwacher), de quem tem quatro filhas, as jovens Gelsomina (Maria Alexandra Lungu), Marinella (Agnese Graziani), Luna (Maris Stella Morrow) e Caterina (Eva Lea Pace Morrow). Temos o "rei", as "princesas", a "rainha" conciliadora, a "fada" (já lá vamos) e um "castelo" dotado de uma dimensão considerável, onde existem divisórias para a família habitar e tratar da produção de mel e terrenos para as ovelhas circularem. É uma habitação dotada de características rústicas, com as marcas das histórias das quais foi protagonista e cenário a serem evidentes, sejam estas os espaços restaurados ou as paredes recheadas de tijolos despidos, algo que ajuda a exacerbar a sensação de que a família de Gelsomina habita no interior de um "castelo" que se encontra entre o presente e o passado. As dinâmicas da família que vive no interior desta habitação são muito específicas, com as jovens, todas menores de idade, a ajudarem os pais nas tarefas diárias, tais como a produção de mel, enquanto os progenitores, sobretudo Wolfgang, procuram afastar as raparigas do mundo exterior. Esta é uma tarefa complicada, sobretudo quando a curiosidade começa a apoderar-se de Gelsomina e a contaminar os sentidos desta jovem de doze anos de idade.

03 julho 2017

Resenha Crítica: "Hymyilevä mies" (O Dia Mais Feliz na Vida de Olli Mäki)

 Existem filmes que nos conquistam quando menos esperamos. "Hymyilevä mies" (em Portugal: "O Dia Mais Feliz na Vida de Olli Mäki") é um desses casos, com a segunda longa-metragem realizada por Juho Kuosmanen a contribuir para revigorar o nosso prazer em efectuar descobertas entre as várias estreias semanais e a paixão que temos pelo cinema. É uma obra cinematográfica que nos conquista pela forma genuína como retrata as relações humanas e o amor que une Olli Mäki (Jarkko Lahti) e Raija (Oona Airola), bem como pela sua cinematografia cuidada e pela subtileza na abordagem das temáticas, com Juho Kuosmanen a realizar um filme que tem o mundo do boxe como pano de fundo, embora no seu cerne esteja a história de uma boa pessoa que se apaixona por outra boa pessoa. Olli Mäki (Jarkko Lahti) é um pugilista que podemos definir como uma boa pessoa. Este apaixona-se por Raija (Oona Airola) que, curiosamente, também é uma boa pessoa, com a relação que se forma entre ambos a contar com contornos ternos e sinceros. A sinceridade e simplicidade são outras características que marcam a personalidade de Olli e Raija, com Jarkko Lahti e Oona Airola a contribuírem para transmitir a sensação de que estamos diante de duas figuras genuínas. A dinâmica entre Jarkko Lahti e Oona Airola é essencial para acreditarmos na forma como o amor que Olli Mäki nutre por Raija é capaz de mexer por completo com o protagonista, com o casal a complementar-se praticamente na perfeição e a despertar um sentimento de empatia. Jarkko Lahti consegue por imensas vezes pregar-nos uma partida ao fazer com que nos esqueçamos temporariamente que estamos diante de um intérprete a compor um personagem, com o actor a transmitir as dúvidas que assolam a mente de Olli Mäki, a evidenciar a simplicidade do antigo padeiro e a compelir-nos a acreditar neste pugilista. Diga-se que é fácil revermo-nos neste personagem, nas suas dúvidas e anseios. Quantos de nós não tivemos medo ou dúvidas em algum momento das nossas vidas? Quem nunca sentiu o fervor incontrolável do amor a circular pelas veias e a toldar por completo a nossa mente? A partir do momento em que encontramos Olli a observar Raija durante uma conferência de imprensa, percebemos que o foco deste personagem não está totalmente no evento em que vai participar e está a promover, mas sim na mulher que ama. O evento é um combate que opõe Olli Mäki a Davey Moore (John Bosco Jr.), um boxeador oriundo dos EUA, campeão em título na categoria de Peso Pena, que se desloca até à Finlândia para enfrentar o protagonista, com este acontecimento a adquirir contornos mediáticos que surpreendem o protagonista.

30 junho 2017

Resenha Crítica: "Corpo Celeste" (2011)

 Num determinado momento de "Corpo Celeste", Marta (Yle Vianello), a protagonista da primeira longa-metragem realizada por Alice Rohrwacher, tenta perceber o que significa a expressão: "Eli, Eli lema sabachthani". Mais tarde, a jovem pré-adolescente descobre que "Eli, Eli lema sabachthani" significa "Meu Deus, por que me abandonaste?", mas, no momento em que a protagonista efectua esta questão, Santa (Pasqualina Scuncia), a sua catequista, evita responder à pergunta. Mais do que procurar responder às questões da jovem, Santa tenta que os catequistas em formação decorem as orações e cumpram as regras, algo que contribui para alguns atritos entre esta e a protagonista. Marta é uma pré-adolescente questionadora e observadora, que conta com uns olhos azuis bastante expressivos e está a lidar com as mudanças do seu corpo, a descobrir a cidade onde nasceu e a contactar com uma nova cultura. É uma cultura de contradições, onde a modernidade e a tradição se reúnem, seja nos valores dos seus habitantes ou nos edifícios, com Alice Rohrwacher a conseguir evidenciar as dicotomias deste território e a forma como este influencia e é influenciado pelos seus cidadãos (algo que a cineasta repete em "Le meraviglie", a sua segunda longa-metragem). Veja-se o caso da igreja onde Marta tem as aulas de catequese, um espaço onde tanto são efectuadas práticas tradicionais como iniciativas modernas que visam conquistar os mais novos, com o próprio edifício religioso a conter no seu interior as marcas deste ziguezague entre a modernidade e a tradição. Note-se o crucifixo com néones azuis, bastante moderno embora seja visto com um certo despeito quer pelo padre da paróquia, quer por alguns paroquianos, com a ideia do primeiro em trazer um objecto mais tradicional a encher alguns crentes de alegria. Estamos em plena cidade de Reggio Calabria, exposta com uma mescla de encanto e desencanto por Alice Rohrwacher, quase sempre a partir do olhar de Marta. É Marta quem a câmara de filmar acompanha de forma atenta, com os planos a concentrarem-se imenso nesta jovem, bem como naquilo que esta observa, seja uma procissão, o interior da igreja ou os locais praticamente abandonados em que a população despeja o lixo, nomeadamente os espaços que pertencem a rios que se encontram quase secos. Este território também conta com uma certa secura, com as suas características a adensarem o sentimento de alienação e solidão de Marta, enquanto esta procura lidar com as mudanças e sensações típicas da idade, tais como as transformações corporais, para além de ter de suportar as constantes ausências da mãe (Rita, interpretada por Anita Caprioli) e o mau feitio da irmã (Rosa, interpretada por Maria Luisa De Crescenzo)