
Sanshô dayû (1954) é inspirado num conto de Mori Ogai, com o mesmo título. No filme, Kenji Mizogouchi apresenta um retrato brutal sobre a escravatura durante o Período Heinan. No filme, o realizador aproveita para regressar a temáticas como a liberdade, direito das mulheres, preocupação para com os desprotegidos pobreza. O filme é um drama pesado, que se desenvolve durante a parte final do período Heinan (794-1185) do Japão Feudal. Ao ocorrer durante a Idade Média, o filme é considerado um jidaigeki, ou seja um filme de época, através do qual o realizador vai criticar uma parte da história do seu País. Este foi o último filme do realizador a vencer o prémio de Melhor Filme no Festival de Veneza, tendo vencido a edição de 1954.
O filme inicia-se com a expulsão do Governador de Tango, cuja família também é obrigada a sair do território. Este é expulso, ou melhor, transferido, devido a ter defendido os direitos dos mais desprotegidos, que ainda tentam defender o Governador mas desde cedo percebem a sua insignificância pois a defesa deste só lhes traria consequências gravosas. Assim, Tamaki, a esposa deste e os dois filhos de ambos, partem para irem viver junto dos pais desta em Iwashiro. É nesta cena que este dará os conselhos a Zushio, que o levam a ter uma certa conduta ao longo do filme, que muito se irão explicar devido a seguir os conselhos do pai, como “sem misericórdia, um Homem é como uma besta”, que os homens são iguais entre si.
Na viagem somos envolvidos pela tristeza e melancolia dos personagens, através dos belos cenários que o ecrã nos mostra, onde se pode destacar o mar, a terra e o céu, que em conjunto simbolizam, o sonho, a realidade, e a passagem para outro Mundo. Enquanto efectuam a caminhada em busca de chegar até aos pais de Tamaki, esta Anju, Zushio e a serva destes caem numa armadilha, efectuada por um bando de criminosos que rapta jovens e mulheres para vender em Sanshô. Assim as crianças são raptadas e as duas mulheres são levadas numa embarcação. Esta cena encapsula uma cena de grande violência emocional, num curto momento de segundos, desde o rapto das crianças do único lego de ligação com a família, da sua mãe, ao facto desta última se ver impotente perante o rapto dos filhos e a morte de Ubatake (a serva) afogada ao tentar libertar-se e salvar as crianças.
O triste destino que espera as crianças é serem vendidos como escravos, para a propriedade de Sansho, onde serão sujeitos a maus tratos e violência. O cenário deste local é confrangedor, demonstrando um local sujo, obscuro, onde os escravos são sujeitos a violência e trabalho forçado, num local onde os únicos direitos que têm é trabalhar e acatar ordens. Um dos poucos personagens que consegue mostrar alguma humanidade no universo masculino deste cenário é Taro, filho de Sansho, que demonstra uma grande revolta pela situação de Namiji, que é torturada após tentar defender as crianças. De realçar a forma como Mizoguchi utiliza os tons escuros e as sombras para evidenciar a obscuridade deste cenário físico e psicologicamente violento.
Neste campo vemos o pior dos seres humanos, desde violência, tortura, humilhações, actos desumanos, que retiram humanidade a quem os sofre e demonstram a falta da mesma, da parte dos que aplicam esses actos. Que demonstram que para conseguir os seus objectivos ou subir na vida, ou sujeitos a privações e maus tratos constantes, os homens por vezes tornam-se desumanos e ganham contornos de animais irracionais, de selvagens.
De referir que estas acções praticadas por Sansho, no seu território, não são condenadas pelo Governo, mas sim elogiadas, visto este recolher de forma eficaz os impostos, sendo os tributos que recolhe muito úteis para o Governo, demonstrando uma grande cumplicidade entre estes actos e a entidade Governadora, que dava a estes Senhores Feudais alguma liberdade de manobra, a ponto deste poderem disputar a autoridade junto dos cidadãos com os membros do Governo.
Na cena em que estes são apresentados ao senhor feudal, assistimos à utilização do ângulo picado e contrapicado para no caso de o primeiro dar a noção de inferioridade em que os outros dois se encontram e no segundo para dar uma noção de superioridade do personagem. Já a Mãe destes é vendida para Sado, para ser uma cortesã. Neste campo de trabalhos forçados, os dois irmãos são separados, Zushio vai trabalhar para junto dos homens e Anju junto das mulheres.
O filme vai apresentar um salto temporal de dez anos, mostrando-nos Zushio e Anju já na idade adulta. E se estes crescem corporal e fisicamente, o ambiente de miséria e escravidão que os rodeia mantém-se na mesma. No entanto, se Anju continua a mesma sonhadora que acredita puder voltar a ser livre, Zushio torna-se tão brutal como os que o rodeiam, esquecendo-se dos ensinamentos do seu pai, numa demonstração em como o ambiente que rodeio o ser humano, pode transformar o mesmo.
Mas não são apenas estes que se encontram em sofrimento. A mãe destes, passados todos estes anos continua a tentar fugir para ir em busca dos seus filhos, entoando a canção que embala Anju a longa distância. Uma melancólica música que une dois entes queridos num ambiente de tristeza, solidão e desilusão em que se encontram.
Após algumas interrogações e adiamentos, Zushio consegue libertar-se, prometendo à irmã regressar para liberta-la. Zushiu vai ter ao templo de Nakayama, onde após grande esforço pede ao pastor Donmo, para ser ouvido por um alto elemento do Governo. A cena em que este vai ter junto do Governador é bastante tensa, onde Yoshiaki Hanayagi transmite uma grande intensidade ao estado de espírito de Zushio, cujo desespero e descontrolo é por demais evidente. Após algum tempo de espera, consegue ser recebido por este, após mostrar o símbolo que comprova a sua paternidade, um Buda. Durante o diálogo com este pede que o pai seja libertado e que o bom trabalho do progenitor seja reconhecido, mas é nesta precisa cena, que o personagem vai começar a perceber que o seu sofrimento não terminou aquando do tempo em que se encontrava como escravo, pois a vida irá trazer-lhe muito mais sofrimento, ou não fosse o tema mais entoado pelo filme “a vida é tortura”. Nesta cena é lhe revelado que o Pai deixou o Mundo terreno no ano anterior, e é-lhe feito o convite para assumir o cargo paterno e tornar-se o novo Governador de Tango.
Como Governador, percebe que os seus poderes estão bastante limitados à iniciativa privada, algo que lhe é indicado pelo Governador, quando o primeiro demonstra vontade de libertar todos os escravos de Sanshô. Este ignora todos os conselhos e ordens que lhe foram dados e desafia Sanshô e os senhores feudais, ao proibir a escravatura em toda a sua área de Governação libertando todos os escravos de Sanshô dayû. No poder, decide aplicar os conselhos do seu pai à prática e proteger os mais fracos, como que estes ensinamentos ecoassem no coração do jovem, que decide aplicar o poder que lhe é dado, naquilo que considera justo e humano.
Ao libertar os escravos numa demonstração de luta entre o poder político e o poder privado, em que este último se consegue quase sempre sobrepor no Japão deste tempo, Zushio leva a sua ideia de libertar os escravos. Esta medida de Zushio irá causar uma grande comoção, quer entre os escravos que vêm nesta medida uma caminho para a liberdade e para o senhor de Sanshô, que manda destruir todas as tabuletas onde são assinaladas as ordens do Governador. Sanshô ainda tenta ser recebido por Zhushio e reverter esta situação a seu favor, algo que não acontece. De referir, a alteração de estatuto social entre os personagens, agora é Zushio, como Governador que se encontra num nível superior, algo demonstrado pelo efeito de câmara, e do cenário, que coloca o antigo escravo numa altura superior.
É então que parte para o local onde se encontrava a sua irmã e toma conhecimento da sua terceira desilusão em liberdade, a irmã suicidou-se para permitir que este fugisse. A cena da morte de Anju aparece carregada de enorme simbolismo, o facto de emergir na água, passando para o mundo etéreo, abandonando a terra para entrar noutro mundo, através das portas do Mar.
Num ambiente de grande festa por parte dos libertos, e de grande tristeza de Zushio por ter perdido mais um elemento querido, este último decide abandonar o cargo de Governador e partir em busca da única pessoa que lhe resta, a sua mãe. Se há momentos em que o filme mexe emocionalmente com o espectador, este é inquestionavelmente um deles. A mãe deste encontra-se num estado deplorável, uma sombra do que era no inicio do filme, não se recordando do filho. Mais uma vez o Pequeno Buda que acompanha Zushio faz com que o reconheçam, agora perante a mãe, que através deste fica a saber da morte dos outros dois elementos da família. O filme termina com o filho a seguir os conselhos do pai, num movimento circular, que se iniciou com os conselhos do progenitor a Zushio, e terminou com o cumprimento deste último, junto da sua Mãe, desolado perante um Mundo que o maltratou. Mais uma vez, um filme de Mizoguchi termina sem um final conclusivo, deixando o mesmo em aberto, procurando desta forma gerar nos espectadores o sentimento de que os personagens têm uma vida própria fora do grande ecrã, deixando no espectador o sentimento especulativo sobre o que se terá sucedido no reencontro entre Mãe e filho após longa ausência.
O filme apresenta uma das grandes forças do realizador, que passa por conseguir criar uma empatia entre os personagens e os espectadores, que passado pouco tempo de estarem a assistir ao filme emergem neste universo transmitido pelo ecrã, esta ligação que o realizador consegue criar entre o espectador e a obra acaba por despertar no primeiro uma grande ligação com a mesma.
Entre os temas abordados, temos logo evidenciado a preocupação do realizador para com os direitos humanos, algo que fica paradigmaticamente demonstrado no inicio do filme, quando é situada a época em que o filme ocorre, nomeadamente “uma era em que a humanidade ainda não acordou como seres humanos”. Entre as situações que Mizoguchi apresenta estão, os trabalhos desumanos a que são sujeitos as crianças, que deveriam estar a brincar e junto dos pais ao invés de estarem a ser forçados a trabalhar como escravos; para além das crianças, os próprios adultos trabalhavam enquanto lhes restasse vida; as punições dadas aos incumpridores eram gravosas, passando sobretudo por desfigurações. Mais uma vez denuncia os maus tratados às mulheres, à imagem do que tinha efectuado em Gion no Shimai, nomeadamente através das figuras de Tamaki, Anju, Namiji.
Ao longo de Sansho Dayo, assistimos a cenas de grande violência emocional, em que o realizador consegue ser bastante efectivo na maneira como as realiza, entre as cenas que se encaixam nesta descrição, temos as crianças que são raptadas da mãe, o afogamento de uma das progenitoras ao tentar salvar as crianças, a própria canção entoada pelas mulheres apresenta uma melancolia violenta. Ou seja, ao representar a dureza da vida destes personagens, Mizoguchi cria no espectador não só uma sensação de revolta, de impotência por tudo aquilo que está a visualizar, algo que se deve sobretudo a este ter conseguido criar uma empatia entre o público e os personagens, que leva os primeiros a sentir as dores dos últimos.
O filme apresenta uma grande violência, não só emocional, como já foi referido, mas por aquilo que não mostra. Grande parte das cenas de violência que ocorrem no filme, são efectuadas de maneira não a mostrar ao espectador a personagem a ser agredida fisicamente, mas sim sugerindo neste a violência que se abate sobre a outra personagem. Entre estes casos, encontram-se as marcas efectuadas na face de Namiji, onde apenas vemos esta a ser agarrada, os ferros a serem aquecidos e esta a gritar de dor, como castigo de ter demonstrado uma opinião contrária aos seus superiores, que lhe fazem ver da pior maneira que não pode ter opiniões, para aumentar a dramaticidade da cena, assistimos ainda ao olhar impiedoso de Sanshu sobre a indefesa Namiji. O mesmo acontece quando Tamaki tenta fugir e lhe cortam o tendão, aí não é mostrado o corte, ouvindo-se apenas o grito de dor e a reacção na face das outras mulheres presentes no mesmo local.
Ao longo do filme, vemos serem desenvolvidas temáticas relacionadas com a mentalidade da Idade Medieval e que se vão perpetuar nos ideais e hábitos Japoneses, tais como o respeito pela entidade paternal, pelos mais velhos; o Budismo, que ganha grande aderência no Período Heinan. Quanto ao respeito pela entidade paternal, cujos conselhos devem ser seguidos e respeitados pelos mais jovens, temos o exemplo paradigmático dos conselhos do pai, terem sido um bastião para Zushio e Anju manterem-se firmes perante o cenário desumano a que foram sujeitos durante grande parte da sua vida. Os conselhos paternos irão explicar algumas acções dos personagens. Desde logo a tentativa de Anju em reencaminhar o irmão, quando este parecia querer desviar-se dos ensinamentos paternos ao deixar a raiva consumir a sua alma e tornar-se na besta sem compaixão que o pai pediu para nunca serem. Posteriormente temos mais dois exemplos paradigmáticos, nomeadamente a medida tomada por Zanshiu, de libertar todos os escravos, partindo em defesa dos mais fracos, mesmo que isso sacrifique a sua posição pessoal, bem como este ter abandonado o cargo de Governador para ir procurar a mãe, o único elemento da família que se encontra vivo.
Quanto ao Budismo, foi durante o Período Heinan, que esta religião começou a expandir-se pelo Japão, algo que fica muito bem demonstrado no filme, através da representação dos templos, da prática religiosa, dos símbolos religiosos como o Buda que identifica a paternidade de Zushio. Para além do rigor histórico, importa referir, que o filme é efectuado numa altura em que Mizoguchi assume mais abertamente o seu interesse pelo Budismo e a prática da religião.
Como se pode ver pelo breve resumo e análise do filme, este apresenta uma constante busca dos protagonistas, quer pela liberdade, pela mãe dos personagens, pela felicidade, pela dignidade do pai. Esta busca dos personagens raramente é bem sucedida, o que evidencia o tom dramático do filme, estes lutam, procuram, não desistem, mas o destino atraiçoa-os sempre.
Aspectos técnicos/imagem:
À imagem de outros trabalhos de Mizoguchi, a câmara encontra-se algo estática, esta raramente se move, os personagens é que giram á volta deste. O que não impede que se efectuem movimentos como o travelling paralelo, em que a câmara acompanha por vezes os personagens, para além de exemplificar todo o cenário que se encontra à volta dos mesmos. Outro dos aspectos comuns é a inexistência de close-ups, com a câmara a apresentar uma certa distância dos personagens.
As diferenciações sociais são acompanhadas não só pelo ângulo da câmara, através do plano picado e contra picado, mas também através do próprio cenário, que coloca os personagens com um estatuto social superior, num nível mais elevado, algo bem visível nas cenas do tempo, ou junto dos Governadores, onde estes aparecem sempre com uma elevação em relação aos homens comuns, ou inferiores ao seu estatuto.
Os cenários desérticos e órfãos de vida, pelos quais os personagens caminham, tal como o estado de espírito e alma dos mesmos, esvaziados pela tristeza e solidão, pelas cicatrizes que a vida lhes deixou. O filme apresenta ainda uma dicotomia interessante entre a terra e o mar. A terra como a realidade dura e cruel, o mar como a esperança de uma vida melhor, de uma luz no horizonte longínquo que se apaga com o contacto com a terra.
Outro dos aspectos que se podem salientar no filme, passa pela boa utilização da banda sonora, sobretudo do tema base do filme, “A Vida é Tortura”, que se aplica exemplarmente ao que ocorre aos personagens ao longo do filme, despertando no espectador um sentimento de grande tristeza, que acompanha as agruras dos personagens principais.
Assim, Mizogouchi apresenta um retrato algo pessimista e desolador sobre o Mundo e aqueles que o habitam, sobre como o destino nem sempre trás a vida que pretendíamos e a sorte que queríamos, oferecendo ao espectador um filme emocionalmente potente, que não deixa ninguém indiferente. Sanshô dayû recomenda-se a todos os apreciadores de bom cinema, sendo não só um dos melhores filmes de Mizoguchi, como um dos melhores filmes realizados, mexendo como poucos nos sentimentos dos espectadores, não deixando ninguém indiferente quanto à busca destes personagens pela felicidade, pela liberdade, por uma vida melhor junto daqueles que amam.