30 setembro 2016

Críticas/Resenhas a filmes estreados em 2016 (circuito comercial - Portugal)

Janeiro:

- "99 Homes".
- "Mediterranea".
- "The Big Short"
- "Spotlight". 


Fevereiro:

- "Carol".
- "Deadpool".
- "Mustang".
- "Hail, Caesar!".
- "Saul fia". 
- "Triple 9".
- "Zootopia".


Março:

- "Mon Roi".
- "Pride and Prejudice and Zombies".
- "A Tale of Love and Darkness".
- "Batman v Superman: Dawn of Justice".
- "The Diary of a Teenage Girl". 
- "Z for Zachariah".
- "" (cópia restaurada/reposição).
- "Il racconto dei racconti".
- "Eye in the Sky".
- "L'ombre des femmes". 


Abril:

- "10 Cloverfield Lane".
- "A Bigger Splash".
- "Southpaw".
- "L'attesa".
- "Demolition". 
- "Suburra".
- "Truman".
- "La Loi du Marché".


Maio:

- "A Hologram for the King" - Brevemente.
- "Louder Than Bombs".
- "The Lobster".
- "Love is Strange".
- "Money Monster" - Brevemente.
- "The Nice Guys". 

Junho:

- "Equals".
- "Olmo e a Gaivota".
- "Tangerine". 

Julho:

- "Victoria".

Agosto:

- "The Neon Demon".

Setembro:

- "Kubo and the Two Strings".
- "Don't Breathe".
- "Captain Fantastic". 
- "Le gôut des merveilles".
- "Évolution".
- "Julieta".
- "Taxi Driver" (cópia digital restaurada/reposição).
- "La pazza gioia".
- "Deepwater Horizon".
- "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children".

Outubro:

- "Bølgen" - Brevemente.
- "Comoara" - Brevemente.
- "Serra Pelada".
- "The Girl on the Train" - Brevemente.
- "Die geliebten Schwestern" - Brevemente. 

Novembro:


Dezembro:

- "Valley of Love".

Em actualização ao longo dos próximos meses (este post serve essencialmente para eu ganhar vergonha na cara e não descurar a escrita de textos manhosos sobre obras cinematográficas que estrearam em circuito comercial em 2016). Se considerarem que vale a pena colocar uma avaliação aos filmes (0 a 5 ou 0 a 10), prometo que a medida vai ser estudada.

28 setembro 2016

Resenha Crítica: "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children" (A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares)

 Tim Burton tem um fascínio indelével pelos personagens que se encontram à parte da sociedade, ou pelas figuras peculiares, algo que "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children" (em Portugal: A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares) volta a confirmar, com o cineasta a realizar uma obra cinematográfica que mescla aventura, fantasia e romance, sempre num tom que varia entre o naïf, o bizarro e o gótico. Não chega a assustar, pelo menos os mais velhos, nem parece ser esse o propósito, embora, a espaços "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children" assuma um tom mais negro, com Tim Burton a criar uma obra cinematográfica essencialmente destinada aos pré-adolescentes e adolescentes ao mesmo tempo que pisca o olho aos adultos, um pouco a fazer recordar aquilo que o cineasta já tinha efectuado em "Frankenweenie". Diga-se que "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children" quase que nos traz à memória uma série de referências distintas que vão desde filmes de aventuras como "The Goonies" ou "Young Sherlock Holmes" (não faltam os jovens que lidam com uma aventura que coloca as suas capacidades à prova, amizades efectuadas ou solidificadas, elementos de investigação, diversas reviravoltas e um tom pontuado por alguma ingenuidade), passando pelas obras cinematográficas de Tim Burton que contam com deslocados da sociedade como protagonistas e uma estética gótica e imaginativa (desde "Edward Scissorhands", passando por "Ed Wood" a "Frankenweenie", entre outras), até a longas-metragens como "Groundhog Day" que lidam com o conceito de viver o mesmo dia repetidamente. Para além dos exemplos mencionados, parece ainda existir uma leve influência da saga X-Men e de Harry Potter, com as crianças peculiares a contarem com habilidades especiais e a viverem numa realidade praticamente à parte dos restantes seres humanos, enquanto a personagem do título surge como uma espécie de Professor Xavier ou Dumbledore. No caso de "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children", Tim Burton bebe inspiração do livro homónimo de Ransom Riggs, enquanto beneficia de contar com um argumento competente, um trabalho inspirado no design de produção e uma escolha certeira do elenco, sobressaindo sobretudo a inevitável Eva Green (a interpretação da actriz vale o preço do bilhete), bem como Asa Butterfield e a surpreendente Ella Purnell. Asa Butterfield interpreta Jake, um adolescente solitário, de tez pálida, algo tímido, que não conta com grandes amizades e trabalha em part-time num supermercado na Florida. Durante boa parte da sua vida, Jake habitou-se a ouvir com atenção as histórias de Abraham (Terence Stamp), o seu avô, um indivíduo considerado demente, de personalidade sonhadora e misteriosa, que viveu na casa da Senhora Peregrine (Eva Green), um espaço destinado a crianças peculiares, tendo formado amizade com esta mulher, bem como com Emma Bloom (Ella Purnell), uma adolescente que tem a capacidade de flutuar e controlar o ar. Terence Stamp incute carisma a Abraham, mais conhecido como Abe, um indivíduo que procurou compelir o neto a acreditar nas figuras que povoam o orfanato da Senhora Peregrine, embora nunca tenha revelado toda a verdade sobre o seu passado. Nem todos acreditam nestas histórias, apesar de Abe contar com uma série de fotos dos habitantes deste orfanato, um grupo heterogéneo que parece saído da mansão do Professor Xavier, com todos os jovens a contarem com uma característica peculiar que é utilizada no terceiro acto do filme. Não faltam elementos como Olive (Lauren McCrostie), uma jovem capaz de controlar o fogo, ou Millard (Cameron King), um rapaz invisível, ou Enoch (Finlay MacMillan - outro dos destaques do elenco secundário), um adolescente que é capaz de atribuir vida, ainda que temporariamente, a objectos ou corpos inanimados, ou Hugh Apiston (Milo Parker), uma criança que tem uma colmeia no interior do estômago, entre outros integrantes deste orfanato liderado pela Senhora Peregrine. Jake é praticamente empurrado a procurar pela Senhora Peregrine a partir do momento em que o avô é violentamente atacado por seres misteriosos, com o protagonista a encontrar Abe quase morto. O jovem depara-se ainda com um monstro bizarro, que mais tarde descobre chamar-se de "sem alma", um ser que não tem olhos, apresenta uma faceta monstruosa e uns braços em forma de lâmina.

 A morte de Abraham deixa o jovem em choque, bem como a descoberta do "sem alma", uma figura monstruosa que apenas é visualizada pelo adolescente e pelo veterano. Ninguém acredita na versão de Jake, inclusive o pai (Chris O'Dowd) e a mãe (Kim Dickens) do protagonista, com o casal a obrigar o filho a efectuar terapia junto de uma psicóloga (Allison Janney). Os progenitores consideram que o rebento padece de problemas do foro mental, enquanto o jovem mantém a sua história, acreditando ter visto um monstro. Jake procura ainda cumprir os últimos desejos de Abraham e comprovar as histórias do veterano, algo que conduz o protagonista a convencer o pai a viajar consigo até ao País de Gales, nomeadamente para Cairnholm, uma ilha onde o passado e o presente se tocam. É nesta ilha que supostamente se encontra localizada a casa da Senhora Peregrine, com Jake a procurar encontrar esta habitação e a personagem do título. Se Chris O'Dowd praticamente não tem espaço para se destacar ao longo do filme, surgindo como o estereótipo do pai que não compreende o filho, já Asa Butterfield consegue sobressair como este adolescente que evidencia alguma curiosidade em relação à possibilidade das histórias do avô serem reais. Asa Butterfield consegue convencer quer como o jovem atrapalhado que não se consegue adaptar no interior da sociedade do seu tempo, quer como o adolescente curioso e imaginativo que é obrigado a assumir a postura de herói improvável. A temática do herói improvável não é nova, nem está longe de estar esgotada, com Tim Burton a saber utilizar a mesma de forma convincente, sobretudo a partir do momento em que o protagonista descobre a casa do título. No início do filme, Jake chega a colocar em causa a relevância dos seus actos, mas a morte do avô, a viagem até Cairnholm e a entrada no mundo da Senhora Peregrine prometem mudar a vida deste adolescente. Os cenários da ilha galesa são pontuados pelo nevoeiro e alguma frieza, com Jake a procurar escapulir-se constantemente do pai, enquanto este último tenta que o filho se integre com os elementos locais. O progenitor do protagonista pensa que o filho se encontra fragilizado do ponto de vista mental e emocional, tendo alguma dificuldade em compreender o adolescente, tal como não entendia as histórias de Abraham. A relação entre Jake e Abraham era de grande proximidade, com o segundo a influenciar e muito o neto, algo que ajuda a explicar esta viagem do protagonista até ao País de Gales. Jake depara-se inicialmente com a mansão em ruínas, completamente destruída e recheada de cinzas, até entrar no vórtice que permite chegar ao tempo e ao espaço onde vivem a Senhora Peregrine e as crianças peculiares, com Eva Green a surgir em grande destaque. A Senhora Peregrine é uma ymbryne, ou seja, tem o poder de controlar o tempo e transformar-se numa ave. Nesse sentido, Peregrine consegue manter a mansão no dia 3 de Setembro de 1943, utilizando o seu relógio para controlar os segundos exactos em que deve recuar no tempo e regressar ao início dessa data. Os jovens, bem como a Senhora Peregrine nunca envelhecem, apesar de se recordarem dos episódios que protagonizaram em cada dia 3 de Setembro de 1943, com Jake a descobrir toda uma realidade distinta, colorida, recheada de figuras peculiares, enquanto somos transportados para o interior deste espaço onde a fantasia e os sentimentos bem reais se misturam. Eva Green é uma das actrizes que dá alma ao filme, com a intérprete a surgir com vestes azuis, cabelo negro e azulado, muitas das vezes acompanhada por um cachimbo, enquanto incute uma personalidade determinada, simpática e misteriosa a Peregrine, uma figura carismática e protectora que guarda imensos segredos sobre o passado de Abe.

 A mansão da Senhora Peregrine evidencia paradigmaticamente o cuidado que foi colocado na decoração de alguns cenários interiores, algo notório quando observamos os objectos decorativos deste espaço, bem como as tonalidades das paredes e as várias divisórias da habitação. Por sua vez, o jardim da habitação é pontuado por um espaço enorme, diversas plantações e um conjunto de plantas esculpidas que parecem ter sido podadas por Edward Scissorhands (este cenário tem muito de Tim Burton), enquanto somos apresentados aos elementos peculiares que habitam no interior da casa da Senhora Peregrine. Todos conviveram com Abe, o avô do protagonista, com o personagem interpretado por Terence Stamp a não ter saído da memória destes elementos, sobretudo de Emma. Com longos e encaracolados cabelos loiros, uma candura desarmante e uma química notória com Asa Butterfield, Ella Purnell consegue destacar-se como Emma Bloom, com os jovens a protagonizarem alguns momentos pontuados por enorme delicadeza, doses assinaláveis de romance e alguma estranheza. Purnell consegue transmitir o encanto despertado pela personagem que interpreta, uma figura feminina capaz de flutuar e controlar o ar quando se encontra debaixo de água, com Emma a despertar a curiosidade de Jake, um sentimento que é mútuo. Parece certo que Emma outrora esteve interessada em Abe, com Jake a despertar uma enorme curiosidade nesta jovem que utiliza botas pesadíssimas para não voar pelos ares. Tim Burton sabe trabalhar a dinâmica entre Jake e Emma, com o estilo meio naïf de ambos a conquistar-nos por completo, bem como os actos protagonizados por estes elementos. Veja-se quando encontramos Emma a pedir para Jake colocar uma corda sobre o seu corpo, tendo em vista a não voar pelos ares, enquanto ajuda um esquilo bebé que caiu de uma árvore, ou o momento belíssimo debaixo de água em que a primeira exibe o seu esconderijo ao protagonista. O momento subaquático tem tanto de terno como de fantasioso e bizarro (não faltam esqueletos no interior do navio, com Tim Burton a encontrar romantismo nos lugares e situações mais peculiares), embora as relações entre Jake e os elementos da casa nem sempre sejam pacíficas. Peregrine recebe o jovem de braços abertos, apesar de não revelar inicialmente todas as informações pretendidas pelo adolescente, embora Enoch tenha quase sempre uma postura arisca em relação ao protagonista, temendo o papel do mesmo no seio do grupo ou os problemas que a sua saída poderá provocar. Os peculiares não podem abandonar estes "loops" temporais, ou viajarem definitivamente para o tempo de Jake, com as ymbryne a criarem vórtices para protegerem os primeiros dos "sem alma" e do grupo de dissidentes liderados por Barron (Samuel L. Jackson). De cabelos e olhos brancos, dentes semelhantes a um tubarão esfomeado, Samuel L. Jackson surge com um visual espalhafatoso e caricatural como este antagonista de gestos exagerados, que não tem problemas em tirar os olhos aos jovens peculiares e comer os mesmos para assumir uma faceta humana, ou tentar capturar as ymbryne para conseguir a vida eterna. Sim, o objectivo do antagonista não é novo, mas aquilo que também sobressai em "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children" é a capacidade que Tim Burton apresenta para jogar com alguns lugares-comuns e adicionar o seu toque pessoal, embora em doses contidas. A própria banda sonora de Mike Higham consegue jogar assertivamente com os episódios da narrativa, tanto apresentando um tom mais calmo e doce como pronto a expor a inquietação, com Tim Burton a utilizar a música com alguma eficácia ao longo do filme. O cineasta junta estilo e substância, enquanto coloca Jake e os peculiares a depararem-se com a ameaça de Barron, um antagonista que nem sempre prima pela inteligência. Barron lidera uma facção de peculiares dissidentes que não quer viver num único dia, procurando caçar as crianças para lhes tirar os olhos e as ymbryne para efectuar uma nova experiência que pode permitir o cumprimento dos seus desideratos. Barron tem ainda o poder de mudar, ainda que temporariamente, a sua fisionomia, um recurso que potencia algumas reviravoltas no enredo. A chegada de Barron à mansão da Senhora Peregrine traz algumas doses de perigo, com Jake a surgir como o líder improvável que poderá contribuir para salvar os peculiares. Jake pensa ser um rapaz completamente normal (Burton aproveita ainda para questionar o que é ser "normal"), embora, mais tarde, descubra que conta com uma habilidade especial, em particular, visualizar os "sem alma". A narrativa ganha assim contornos de aventura, alguma acção e doses consideráveis de tensão, com Tim Burton a conceder espaço para que cada elemento dos peculiares sobressaia e exiba as suas habilidades, algo que comprova o bom trabalho de Jane Goldman na escrita do argumento do filme.

 A aventura é desenvolvida de forma convincente e inspirada, tal como as dinâmicas do grupo e o romance que se forma entre Jake e Emma, com a química entre Asa Butterfield e Ella Purnell a ser fundamental para diversas cenas funcionarem. O romance atribui algumas doses de candura a um filme que assume muitas das vezes um tom ingénuo que nos desarma, enquanto que as cenas de acção contam com uma boa utilização dos efeitos especiais e das especificidades dos personagens, para além de exibirem o lado mais negro de "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children". Barron surge como o representante mais visível do perigo, embora os seus objectivos não sejam os mais originais. Samuel L. Jackson parece divertir-se imenso a incutir gestos claramente exagerados a Barron, efectuando uma homenagem a "The Shining" pelo caminho, enquanto Tim Burton aproveita o elenco e os cenários para os seus propósitos. Veja-se a casa da Senhora Peregrine, um espaço pontuado pela fantasia e pelos elementos peculiares, ou a saída dos personagens para Blackpool, tendo em vista a travarem os planos de Barron. Aos poucos, Jake começa a descobrir mais sobre os peculiares e sobre si próprio, enquanto protagoniza uma série de episódios que prometem mudar a sua vida, ou não tivesse a hipótese de contactar com um mundo que lhe parece dizer mais do que aquele onde viveu durante toda a sua curta existência. É a típica jornada do herói improvável, que aos poucos enfrenta os seus medos e receios e efectua uma série de descobertas, enquanto Tim Burton efectua um elogio à diferença, com os peculiares a contarem quase todos com características distintas, embora o valor destes elementos seja inestimável. Estes encontram-se a viver à parte do Mundo e da sociedade, com "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children" a aproveitar ainda para efectuar um paralelo entre a situação dos jovens e a dos judeus durante a II Guerra Mundial. Veja-se que o avô do protagonista saiu da Polónia quando era jovem devido ao ataque de uns monstros, tendo ido para o País de Gales, onde conheceu a Senhora Peregrine, com a alusão aos "sem alma" a surgir inicialmente como uma alegoria aos nazis e ao Holocausto. A própria procura de Barron em eliminar os peculiares e alimentar-se dos olhos dos mesmos, tendo em vista a criar um grupo de elementos mais aptos, contrasta com os ideais de Peregrine, ou outras ymbryne como Avocet (Judi Dench num papel muito secundário), algo que indica essa mensagem do filme contra a intolerância e a favor da diferença. Pelo meio não faltam olhos degustados, esqueletos que ganham vida, figuras monstruosas e a certeza que Tim Burton não deixou totalmente o seu lado mais negro, embora conjugue essa sua faceta com o tom de aventura do filme. Entre aventuras e descobertas inesperadas, romances e momentos inquietantes, "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children" surge como uma obra cinematográfica marcada por um tom simultaneamente peculiar, negro e naïf, com Tim Burton a desenvolver assertivamente a premissa do filme enquanto permite que viajemos por este universo narrativo que nos conquista com uma facilidade indelével.

Título original: "Miss Peregrine's Home for Peculiar Children".
Título em Portugal: "A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares"
Realizador: Tim Burton.
Argumento: Jane Goldman.
Elenco: Eva Green, Asa Butterfield, Ella Purnell, Samuel L. Jackson, Terence Stamp, Allison Janey, Lauren McCrostie, Finlay MacMillan, Milo Parker, Judi Dench.

26 setembro 2016

Resenha Crítica: "Deepwater Horizon" (Horizonte Profundo - Desastre no Golfo)

 Acontecimento que marcou a História recente pela negativa, a explosão da plataforma Deepwater Horizon ocorreu no dia 20 de Abril de 2010, no Golfo do México, nos Estados Unidos da América, tendo contribuído para aquele que é considerado o maior derrame petrolífero da História deste país. A Deepwater Horizon era propriedade da Transocean, enquanto a BP operava na plataforma de petróleo, uma parceria que prometia lucros avultados, embora tenha terminado em tragédia para ambas as partes. A plataforma explodiu, onze homens saíram sem vida deste incidente, enquanto uma quantidade assinalável de petróleo foi derramada (calcula-se que tenha sido derramado o equivalente a 4,9 milhões de barris de petróleo) e o habitat de uma série de animais foi prejudicado. "Deepwater Horizon" (em Portugal: "Horizonte Profundo - Desastre no Golfo"), a nova longa-metragem realizada por Peter Berg, aborda os acontecimentos que ocorreram antes, durante e um pouco depois deste incidente, ainda que de forma ficcional (convém não retirar as célebres liberdades históricas da equação), com o filme a inserir-se naquela que o cineasta intitula como a "segunda fase da sua carreira". Nesta segunda fase, o cineasta embrenhou-se em temáticas inspiradas em episódios reais, algo que resultou em filmes como "Lone Survivor", um exemplo da exacerbação do jingoísmo yankee, com "Deepwater Horizon" a também contar com alguns momentos ultra-patrióticos (a bandeira dos EUA a esvoaçar é um exemplo paradigmático desse gostinho de Peter Berg), embora estejam mais contidos. O cineasta não esconde os seus propósitos, nem prima pela subtileza, com "Deepwater Horizon" a surgir como um filme-desastre que exalta o heroísmo de indivíduos aparentemente comuns (dos EUA), expõe a ganância das grandes empresas capitalistas como a BP, exibe a violência da explosão, tenta agarrar a atenção do espectador e procura pelo caminho homenagear aqueles que faleceram. A homenagem é tépida e pueril. É certo que seria impossível desenvolver a história de cada um dos cento e vinte e seis membros da equipa presente na plataforma, mas "Deepwater Horizon" deixa a sensação de que poderia e deveria ter sido atribuída mais dimensão aos personagens secundários que acabam por falecer (ao todo faleceram onze elementos), com este pouco cuidado na representação das figuras secundárias a contribuir para retirar impacto a alguns acontecimentos representados. Veja-se quando ocorre um sacrifício por parte de um personagem que não teve espaço para "crescer" junto do espectador, algo que resulta numa cena que está longe de provocar o efeito desejado, com Peter Berg a parecer bem intencionado nos seus propósitos, embora nem sempre seja competente a transpor os mesmos para o grande ecrã. No entanto, também é impossível manter a indiferença quando somos colocados diante das fotografias dos falecidos, um pouco antes dos créditos finais do filme, sobretudo quando percebemos que este desastre poderia ter sido evitado. Estas mortes aconteceram na realidade, tal como o desastre, algo que contribui para adensar o impacto dramático de alguns episódios expostos ao longo de "Deepwater Horizon". Peter Berg raramente desenvolve a maioria das figuras secundárias, embora evidencie competência quer a apresentar o protagonista e a relação deste com a família, quer a expor o espaço interior e exterior da plataforma (sobretudo antes de ocorrer a explosão), quer a manter a tensão em volta do enredo (é impossível ficar indiferente à explosão e ao pesadelo que passa diante dos nossos olhos, ainda que quase tudo seja exposto no formato de ficção). O protagonista é Mike Williams (Mark Wahlberg), um técnico-chefe da Transocean, responsável pela parte electrónica e eléctrica da Deepwater Horizon, que responde quer aos membros da BP, quer a Jimmy Harrell (Kurt Russell), o elemento responsável por liderar as operações por parte da equipa da primeira empresa mencionada.

Mark Wahlberg convence como o indivíduo aparentemente comum que se depara com uma situação adversa que o transcende, com o actor a ganhar uma barriguinha saliente, pronta a evidenciar que Mike está longe de ter as condições físicas necessárias para superar as dificuldades com que se depara durante a explosão da plataforma. Wahlberg efectua uma composição competente do personagem, com o actor a convencer quer nas cenas de maior leveza, quer quando Mike é colocado perante situações intensas e violentas, com o protagonista a evidenciar uma coragem indelével. Mike é casado com Felicia (Kate Hudson), de quem tem uma filha, a jovem Sydney (Stella Allen), com a relação do trio a ser pontuada por uma afinidade latente, algo exposto nos momentos iniciais de "Deepwater Horizon". Kate Hudson consegue evidenciar a cumplicidade entre Felicia e Mike, com Peter Berg a expor de forma rápida e eficaz a dinâmica do protagonista com a esposa e a filha. Estes momentos iniciais são essenciais para Peter Berg conseguir que o espectador invista emocionalmente em Mike, até transportar o protagonista para o interior da plataforma, com Mark Wahlberg a compor um personagem que desperta facilmente a nossa simpatia (veja-se as conversas do protagonista com a esposa e a relação do mesmo com a filha). A partida para a plataforma é marcada por alguns planos abertos que nos transmitem quer a dimensão do espaço exterior da Deepwater Horizon, quer o isolamento a que esta se encontra sujeita. A plataforma encontra-se rodeada pelo mar, contando com uma parafernália de tubos e aparelhos que são controlados por uma série de trabalhadores, para além de imensas divisórias prontas a albergarem estes homens e mulheres. Como foi anteriormente mencionado, a plataforma conta com cento e vinte e seis trabalhadores, embora aqueles que mais sobressaiam sejam Mike, Jimmy Harrell, Donald Vidrine (John Malkovich) e Andrea Fleytas (Gina Rodriguez). Andrea é uma trabalhadora da plataforma que conta com uma personalidade simultaneamente forte e frágil, que no último terço é obrigada a ultrapassar os seus medos e a demonstrar uma coragem impressionante, algo transmitido por Gina Rodriguez. Kurt Russell imprime carisma, experiência e firmeza a Jimmy Harrell, o indivíduo responsável por liderar a equipa da Transocean e cuidar da segurança das operações. Harrell encara a profissão com enorme responsabilidade e gere a sua equipa como se estivesse a lidar com a família, uma situação particularmente visível na relação de confiança que mantém com Mike. Os elementos da Transocean têm a responsabilidade de efectuarem a perfuração dos poços de petróleo no subsolo marinho, com a extracção a ser efectuada por outra equipa. Jimmy entra desde logo em conflito com os elementos da BP, em particular, Vidrine, um elemento que não esconde os propósitos de poupar o máximo nas despesas e iniciar os trabalhos o mais rapidamente possível. Malkovich incute um tom muito próprio a Vidrine (será que podemos utilizar o termo "personagem malkovichiano"?), um indivíduo que apresenta as suas ideias de forma muito clara, entrando em choque com Jimmy. As razões para este choque são simples. O cronograma de trabalho foi claramente desrespeitado, com o início da extracção de petróleo a estar completamente atrasado, algo que significa custos acrescidos, enquanto que as medidas pedidas por Jimmy custam mais dinheiro e prometem adiar ainda mais os propósitos da BP. Nesse sentido, medidas como a averiguação do estado do perfil de cimento são descuradas, enquanto que os resultados de um teste de pressão negativa são ignorados, com Vidrine a pedir para que este último seja repetido apenas na linha de estrangulamento. Vidrine interpreta que os números preocupantes do primeiro teste foram provocados devido a um efeito bolha de ar, enquanto Jimmy não parece totalmente convencido desta leitura do seu interlocutor. Esta troca de argumentos entre Vidrine e Jimmy é convincente e intensa, bem como o momento em que Mike expõe junto do primeiro as debilidades da plataforma, parecendo mais ou menos certo que estão a ser criadas as condições para a "tempestade perfeita". Perante o facto dos números na zona de estrangulamento terem sido francamente positivos, Jimmy acaba por aceder às pretensões de Vidrine, ainda que relutantemente, uma decisão que se revela catastrófica, com Peter Berg a expor que este desastre contou com uma mescla de ganância (por parte de elementos da BP) e algumas más opções (como Jimmy aceitar avançar com a operação).

Peter Berg procura exibir a colocação dos testes em prática, bem como alguns trechos dos espaços subaquáticos onde podemos perceber, antes dos personagens, que o desastre se está a aproximar a passos largos. Diga-se que existe todo um cuidado por parte do cineasta em dar a conhecer as tarefas efectuadas pelos elementos que trabalham nesta área, sobretudo no período que antecede o infeliz episódio que ficou marcado na vida destes personagens. Berg tenta ainda que o espectador fique ciente de diversos termos utilizados, tendo em vista a expor a complexidade das operações expostas ao longo de "Deepwater Horizon". Veja-se o caso de termos como lama de perfuração, ou outros já utilizados no texto como teste de pressão negativa, efeito bolha de ar, entre outros. A complexidade e o cuidado inerente a estas operações é exposto de forma relativamente eficaz, tal como os efeitos nocivos de tomadas de decisão menos ponderadas. O barato por vezes sai caro, com as piores previsões de Jimmy a acontecerem. A plataforma começa a ceder e sofre uma explosão violenta que consome gradualmente todos os seus sectores e contribui para a morte de alguns elementos que procuram travar os efeitos nocivos deste desastre e salvarem as suas vidas e as dos seus colegas (diga-se que o número de mortos não atingiu um número mais elevado devido ao espírito de entreajuda de diversos colegas, algo exposto por "Deepwater Horizon"). A destruição é exposta de forma intensa por Peter Berg, enquanto o espectador é colocado diante de momentos inquietantes, onde a vida de tudo e todos está em perigo. A violência é sentida, sendo praticamente impossível ficar indiferente às fortes labaredas de fogo que sobem bem alto e consomem a plataforma e as vidas daqueles que trabalham neste espaço. A plataforma torna-se num espaço infernal, um pesadelo do qual parece ser difícil sair com vida, enquanto o espaço exterior, marcado por um céu nocturno bem negro, é consumido pelas chamas e o fumo, com "Deepwater Horizon" a representar eficazmente o pânico e o desespero sentido pelos membros que se encontravam no local. Nestes momentos de dificuldades acrescidas, Mike sobressai com os seus actos de enorme humanidade e heroísmo, com Peter Berg a exacerbar mais uma vez os feitos do indivíduo comum. No entanto, apesar da intensidade destas cenas pontuadas pela violência, fica sempre a ideia de que tudo ganharia outro impacto se Peter Berg tivesse investido no desenvolvimento de mais personagens secundários. Tudo teria mais impacto. Mais intensidade. Mais relevância. Veja-se o choque provocado pelos ferimentos sofridos pelo personagem interpretado por Kurt Russell. Este choque não só remete para os efeitos convincentes, mas também, para não dizer, sobretudo, pelo facto de Peter Berg ter demonstrado alguma preocupação a desenvolver o personagem junto do espectador, com Kurt Russell a ajudar e muito a tarefa do cineasta. Temos ainda um momento intenso, protagonizado por Mike e Andrea, que ganha mais impacto graças à empatia que foi criada entre estes personagens e o espectador, algo essencial num filme do género. Veja-se ainda a forma pueril como são apresentados os acontecimentos que ocorrem após a explosão e a evacuação, algo que está longe de exprimir as implicações complexas do caso, com Peter Berg a utilizar as célebres frases finais para suprir algumas das lacunas do terceiro acto. O cineasta por vezes parece contentar-se com pouco, tal como a dupla de argumentistas, com "Deepwater Horizon" a contar com material de sobra para ambicionar um nível mais elevado, embora raramente consiga alcançar o impacto dos episódios que retrata. Berg apresenta competência a desenvolver o protagonista e a estabelecer a dinâmica do mesmo com a família, bem como a expor o funcionamento da plataforma e a destruição violenta da mesma, embora tropece na falta de desenvolvimento da maioria dos personagens secundários e na incapacidade de abordar a complexidade que envolveu o período após a destruição da Deepwater Horizon. É certo que "Deepwater Horizon" consegue prender a nossa atenção ao longo da sua duração e expõe a violência da destruição de forma convincente e asfixiante, embora seja impossível deixar de sentir o sabor agridoce de nos deparamos com uma obra cinematográfica que se parece contentar com a mediania quando poderia alcançar um estatuto bem superior.

Título original: "Deepwater Horizon".
Título em Portugal: "Horizonte Profundo - Desastre no Golfo".
Realizador: Peter Berg.
Argumento: Matthew Michael Carnahan e Matthew Sand.
Elenco: Mark Wahlberg, Kurt Russell, Gina Rodriguez, John Malkovich, Kate Hudson.

24 setembro 2016

Resenha Crítica: "La pazza gioia" (Loucamente)

 "La pazza gioia" não renega as suas origens, com Paolo Virzì a colocar-nos diante uma obra cinematográfica que combina praticamente na perfeição o humor e a tragédia, bem como alguns comentários de foro social e económico, algo que remete para as célebres comédias à italiana de cineastas como Mario Monicelli, Pietro Germi, Dino Risi, entre outros. Diga-se que o próprio Paolo Virzì parece assumir, ainda que indirectamente, essa tradição italiana ao comentar no press kit do filme: "É possível sorrir ou mesmo rir ao narrar o sofrimento, ou isso é visto como indecoroso e escandaloso? Oxalá assim seja, porque é isso que prefiro quando faço um filme, no fundo, é a única coisa que me interessa (...) Todos os filmes são uma terapia. Eles ajudam, não digo a curar, mas ao menos a suportar melhor as coisas da vida, sobretudo se conseguem desencantar a comédia precisamente em pleno drama e tragédia". No caso de "La Pazza Gioia" não ficamos diante de um indivíduo que pretende ser traído pela esposa para aproveitar as leis locais e assassiná-la, tendo em vista a contar com uma curta pena de prisão e casar com a sobrinha ("Divorzio all'italiana"), nem de uma siciliana que viaja em direcção a Inglaterra para se vingar do homem que a desonrou ("La ragazza con la pistola"), ou um mulherengo que apenas consegue colocar a "máquina" a trabalhar quando está em perigo ("Casanova '70"), mas sim perante Beatrice Morandini Valdirana (Valeria Bruni Tedeschi) e Donatella Morelli (Micaela Ramazzotti), duas figuras femininas emocionalmente despedaçadas que se conhecem no interior da Villa Biondi. Esta é uma instituição terapêutica destinada a mulheres que padecem de problemas mentais, sendo habitada por doentes, freiras e médicos. Se Giorgio Lorenzini (Tomasso Ragno), o director da instituição, é um indivíduo calmo e compreensivo, já Beatrice é um vulcão que expõe as suas emoções de forma bem viva, que não parece ter um travão que lhe permita discernir quando está a ser frontal ou inconveniente, enquanto mente, finge ter conhecimentos nos mais altos escalões da sociedade (veja-se a lista de supostos contactos que guarda no telemóvel), comete actos egoístas e atitudes mirabolantes, possui um guarda-roupa extravagante e esconde uma enorme fragilidade. Valeria Bruni Tedeschi arrasa por completo com uma interpretação plena de humanidade, sempre sem cair na caricatura, embora abrace os exageros de Beatrice, bem como a fragilidade desta mulher. As fragilidades de Beatrice apenas são conhecidas com o desenrolar do filme, bem como os problemas que povoam a mente de Donatella. Com o corpo repleto de tatuagens, roupas simples, uma silhueta magra e um rosto que espelha uma miríade de dores e desilusões, Donatella surge como uma figura problemática e deprimida, que inicialmente não parece disposta a formar grandes amizades, embora seja contagiada por Beatrice. A personagem interpretada por Valeria Bruni Tedeschi aparece como uma figura espalhafatosa, pronta a vestir-se com roupas de tonalidades garridas, a mentir e a evitar que alguém fique no seu quarto, uma situação que muda quando conhece Donatella. Beatrice finge inicialmente que é uma médica, tendo em vista a conversar com Donatella e a descobrir informações sobre o passado desta mulher que acabou de chegar à instituição, num momento pontuado por imenso humor, enquanto Valeria Bruni Tedeschi exibe o lado descontrolado da personagem que interpreta. 

 Beatrice padece de distúrbio bipolar, conta com uma personalidade assaz peculiar e um passado problemático, com as suas atitudes descontroladas e extemporâneas a surgirem como uma espécie de capa que permite esconder a fragilidade desta mulher. Muitas das vezes acompanhada por um chapéu para não ser incomodada pelo excesso de raios solares, pouco dada a cumprir os trabalhos destinados aos pacientes da Villa Biondi, Beatrice nem sempre parece ter a consciência dos actos que comete, algo que se torna particularmente notório ao longo do filme, pelo menos até esta começar a exibir as suas fragilidades e a ser confrontada com a realidade. Diga-se que Paolo Virzì aborda eficazmente os traços que marcam quer a personalidade de Beatrice, quer de Donatella, com o cineasta a saber ainda desconstruir algumas ideias pré-concebidas que poderíamos ter em relação a estas mulheres e a explanar que estamos diante de duas protagonistas dotadas de alguma complexidade. Esta situação torna-se particularmente notória quando Beatrice e Donatella entram em fuga e iniciam uma aventura marcada por momentos que variam entre o rocambolesco, o cómico, o dramático e o embaraçoso, enquanto conhecemos mais elementos sobre estas personagens e os episódios que as conduziram à Villa Biondi. Virzì é capaz de utilizar esta faceta aparentemente tresloucada de Beatrice ao serviço do humor, beneficiando e muito do carisma e talento de Valeria Bruni Tedeschi, enquanto a protagonista procura proteger Donatella, ainda que de forma peculiar, com esta relação de amizade a começar de forma conturbada (não poderia ser de outra forma). Donatella é inicialmente representada como uma mulher de personalidade arisca e fechada, pouco dada a grandes demonstrações de alegria ou a fazer amizades, com a sua alma a encontrar-se mais ferida do que o seu rosto. Micaela Ramazzotti compõe uma personagem que aos poucos surpreende o espectador, com a intérprete a conseguir transmitir os problemas que envolvem Donatella e consomem a sua mente. Donatella é desprezada pelo pai (Marco Messeri) e pela mãe (Anna Galiena), conta com tendências suicidas e outrora cometeu um acto que lhe valeu a perda da guarda do filho, com "La pazza gioia" a deixar-nos não só com a noção de que esta mulher cometeu imensos erros, mas também que não foi ajudada ou compreendida por aqueles que a rodeiam. "La pazza gioia" procura que, quando chega o final do filme, tenhamos a perspectiva da complexidade do passado e do presente de Beatrice e Donatella, duas figuras femininas que cometeram muitos erros mas também foram sujeitas a situações capazes de abalar a mais sólida das montanhas. Ou seja, "La pazza gioia" não escamoteia o lado problemático destas mulheres, mas também não despreza que o destino nem sempre foi agradável para com as mesmas, com a dupla a surgir como um livro que é muitas das vezes julgado pela capa ao invés de ser avaliado pelo seu conteúdo. Nesse sentido, o argumento de Paolo Virzì e Francesca Archibugi consegue desenvolver eficazmente a dupla de protagonistas, bem como a dinâmica entre Donatella e Beatrice, com a saída temporária destas mulheres da Villa Biondi a prometer ficar na memória. Diga-se que o melhor que se pode dizer sobre "La pazza gioia" é que honra o legado de alguns do cineastas mencionados, com Paolo Virzì a realizar uma obra cinematográfica puramente italiana, que é capaz de despertar alguns risos através da tragédia, emocionar e a espaços afiar a faca sobre a política e a economia de Itália e da União Europeia. Mario Draghi, Silvio Berlusconi (indirectamente), o actual Governo italiano, as instituições bancárias, as supostas regras de conduta da sociedade são alvo de comentários escarninos, enquanto conhecemos duas figuras peculiares, diagnosticadas como mentalmente instáveis, embora os espaços e as gentes com que contactam também estejam longe de serem exemplares.

 Num determinado momento do livro "Pela Estrada Fora", Sal Paradise salienta o seguinte: "(...) as únicas pessoas autênticas, para mim, são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, as que não bocejam nem dizem nenhum lugar-comum, mas ardem, ardem, ardem como fabulosas grinaldas amarelas de fogo de artifício a explodir (...)". Paolo Virzì parece seguir essa cartilha em "La pazza gioia", com a jornada de libertação, confrontação dos demónios interiores e consciencialização por parte destas duas mulheres aparentemente loucas a ganhar características delirantes, dramáticas, prontas a fazer sorrir e comover o espectador. Donatella apresenta quase sempre uma postura mais lacónica, embora o seu passado seja devastador. Beatrice é a loucura em pessoa, apesar de também ter sofrido e feito sofrer imenso. A evasão destas mulheres é marcada por episódios tão distintos como roubo de veículos, compras em centros comerciais, a fuga de um restaurante após terem consumido um belo repasto sem terem dinheiro para pagar a conta, mas também situações completamente dramáticas, com Beatrice e Donatella a perceberem a importância da amizade que formaram ao longo do tempo em que estão juntas. Estas tentam escapulir-se dos elementos da Villa Biondi que procuram capturá-las, embora, a partir de um determinado momento, pareça certo que Beatrice e Donatella apenas estão a adiar o inevitável. Não é que o inevitável seja propriamente mau, com a jornada de Donatella e Beatrice a contribuir para que estas mulheres contactem de perto com os problemas e os erros do passado e do presente, enquanto convivem, discutem e tomam consciência de que precisam de mudar os seus comportamentos perante a vida e aqueles que as rodeiam. Esta fuga permite ainda que "La pazza gioia" ganhe características de road movie, com as personagens principais a deslocarem-se para uma miríade de locais, enquanto contactam com uma série de pessoas que marcaram as suas vidas, algo que dá espaço para o elenco secundário ter algum tempo para sobressair. Veja-se quando Beatrice contacta com Pierluigi Aitiani (Bob Messini), o seu ex-marido, um advogado famoso, com a primeira a ter arruinado a relação ao envolver-se com Renato Corsi (Roberto Rondelli ), um vigarista violento. Beatrice entra na casa de Pierluigi como se o tempo não tivesse passado e ambos continuassem juntos, com Valeria Bruni Tedeschi a exibir o lado extravagante e diva trash desta mulher que não tem problemas em roubar o ex-marido. Já o contacto entre Renato e Beatrice permite expor o lado mais frágil desta mulher, com Tedeschi a conseguir comover-nos com a mesma facilidade com que desperta o nosso sorriso. Donatella também tem os seus encontros marcantes. Esta reencontra a progenitora e o pai, com este último a exibir um descuido enorme para com a filha, apesar de Donatella guardar boas recordações deste indivíduo que a abandonou quando a protagonista ainda era uma criança. Ferida no corpo e na alma, o reencontro de Donatella com Maurizio, o dono do Seven Apples, um clube nocturno onde a primeira trabalhou, permite que Paolo Virzì exponha uma das figuras venenosas do passado da protagonista, bem como alguns dos erros que esta cometeu e as agressões a que foi sujeita. Maurizio é um indivíduo casado que nunca assumiu o filho que teve com Donatella, com esta a ter perdido a guarda do bebé após uma série de episódios devastadores que nos são dados a conhecer. Donatella pretende contactar com o filho, embora a tarefa seja legalmente impossível, enquanto nos deparamos com as forças e fraquezas desta mulher, com Micaela Ramazzotti a conseguir que o espectador compreenda esta figura puramente humana.

 A fuga de Donatella e Beatrice ganha assim uma série de episódios de características distintas, que permite dar a conhecer a personalidade da cada uma das protagonistas. A faceta de diva trash de Beatrice é desfeita quando está na presença de Renato. A depressão de Donatella tem raízes profundas e os seus problemas são bem mais complexos do que poderíamos esperar, com esta mulher a estar longe de poder ser simplesmente catalogada como um perigo para o filho e para a sociedade. É certo que errou imenso, mas existe algo mais complexo a envolver esta personagem. Por um lado queremos culpá-la e achamos que merece estar afastada do filho, por outro sentimos que esta cometeu uma série de erros e enfrentou um furacão de revezes que nem todos são capazes de aguentar. O argumento ajuda a tarefa de Valeria Bruni Tedeschi e Micaela Ramazzotti, com as actrizes a contarem com material de sobra para criarem protagonistas capazes de despertarem um conjunto alargado de sentimentos no espectador. Tanto conseguimos rir com Donatella e Beatrice como recebemos murros no estômago que são desferidos de forma dolorosa, enquanto "La pazza gioia" aborda temáticas como a depressão, o distúrbio bipolar, os problemas entre pais e filhos, para além de desconstruir a imagem das protagonistas e apresentar uma viagem recheada de significado. O humor é encontrado na tragédia, enquanto a tristeza a espaços não conta com espaços para sorrisos, embora "La pazza gioia" seja uma obra cinematográfica que consegue balancear na justa medida a sua faceta dramática com algum optimismo. O argumento é exemplar, tal como o trabalho a nível da escolha do guarda-roupa, com as vestimentas de Donatella e Beatrice a contribuírem para exacerbar as características distintas das protagonistas. Beatrice veste-se quase sempre como se fosse uma diva sem palco para brilhar, enquanto Donatella surge quase sempre com roupas mais simples, informais e de tonalidades mais escuras. Diga-se que Beatrice não tem problemas em criticar o estilo da amiga, com as duas protagonistas a entrarem em algumas discussões, embora formem uma amizade forte e peculiar, surgindo como duas figuras trágicas, que são regularmente estigmatizadas e catalogadas de forma insensível por parte de alguns sectores da sociedade. Temos ainda o momento delirante em que Donatella e Beatrice fingem trabalhar como figurantes de um filme, utilizando as roupas das personagens, enquanto roubam o carro e parecem saídas de "Thelma & Louise". No caso do filme realizado por Ridley Scott, uma viagem iniciada por duas amigas logo se transforma numa fuga às autoridades, enquanto estas se deslocam por uma miríade de locais, contactam com uma série de pessoas e ficamos a conhecer diversos elementos sobre a inesquecível dupla de protagonistas, com "Thelma & Louise" e "La pazza gioia" a partilharem não só a faceta de road movie mas também o facto de contarem com figuras femininas complexas e marcantes como personagens principais. Com uma construção hábil da dupla de protagonistas, duas mulheres que tanto têm de frágeis como de fortes, uma interpretação fulgurante por parte de Valeria Bruni Tedeschi e um desempenho sublime de Micaela Ramazzotti, "La pazza gioia" procura fugir a catalogações fáceis sobre os doentes do foro mental, enquanto nos coloca diante de uma viagem intensa e marcante, dotada de episódios de características díspares e inesquecíveis, com Paolo Virzì a criar uma obra cinematográfica dotada de enorme humanidade, que conta com alguns traços das boas comédias à italiana, ou não estivéssemos diante de um filme que tanto tem de cómico como de dramático, com o humor a ser encontrado muitas das vezes na tragédia.

Título original: "La pazza gioia".
Título em Portugal: "Loucamente".
Título no Brasil: "Loucas de Alegria".
Realizador: Paolo Virzì.
Argumento: Paolo Virzì e Francesca Archibugi.
Elenco: Valeria Bruni Tedeschi, Micaela Ramazzotti, Roberto Rondelli, Bob Messini, Tommaso Ragno, Marco Messeri, Anna Galiena.

22 setembro 2016

Resenha Crítica: "Perfetti sconosciuti" (2016)

 Três casais decidem reunir-se para um jantar de convívio aparentemente inócuo e rotineiro, tendo em vista a trocarem uns "dedos" de conversa, com o sexteto a contar ainda com a companhia de um amigo que mantém uma relação pontuada por algum mistério. No entanto, um jogo promete mudar por completo os planos iniciais destes personagens, bem como a percepção que os protagonistas de "Perfetti sconosciuti" tinham formado em relação aos seus pares, pelo menos até Paolo Genovese, o realizador, puxar o tapete ao espectador e brindá-lo com uma reviravolta inesperada. Paolo Genovese concede espaço para que os intérpretes que integram o elenco principal consigam sobressair, com cada elemento a compor um ou uma personagem que guarda uma série de segredos e conta com uma personalidade muito própria, enquanto o cineasta gere os ritmos da narrativa de forma exímia. Aos poucos, conhecemos os segredos destes personagens, enquanto estes se deparam com factos que desconheciam sobre os seus pares. Tudo começa com um simples jogo, após uma apresentação rápida e eficaz dos personagens, com o desafio a consistir em que cada um dos convidados exiba as mensagens recebidas nos respectivos telemóveis ou receba as chamadas em alta voz. Parecia uma simples brincadeira, ou um jogo relativamente infantil, mas tudo se transforma numa situação incómoda para quase todos os elementos do grupo, com o jantar a trazer um fervilhar de emoções. Se um eclipse lunar contribui para que a Lua deixe de ser temporariamente visualizada pelos protagonistas, já um simples telemóvel permite que imensa informação seja revelada. Não faltam descobertas sobre traições, jogos de cariz sexual, a revelação da verdadeira orientação sexual de um personagem, entre outros exemplos que prometem mexer com as emoções dos protagonistas. No final, Paolo Genovese tira-nos o tapete, deixa-nos desamparados, expõe que tudo aquilo que percepcionámos foi bem mais complexo do que poderíamos esperar e exibe que a metáfora do eclipse não foi colocada na narrativa por mero acaso, com "Perfetti sconosciuti" a fazer justiça ao jogo dos protagonistas e a expor que algumas revelações podem provocar um impacto indelével. Quantos de nós estaríamos dispostos a exibir todo o conteúdo dos nossos telemóveis? Quais os segredos que escondemos daqueles que nos são mais próximos? Será possível manter uma relação estável, seja esta de amizade ou amorosa, contando sempre a verdade? "Perfetti sconosciuti" surge como um retrato relevante e importante sobre as relações contemporâneas, bem como da importância da tecnologia no nosso quotidiano, com um simples telemóvel a poder conter uma bomba atómica capaz de arrasar por completo com um envolvimento amoroso. Paolo Genovese sabe gerir o ritmo das revelações e da narrativa, com os momentos de humor a serem eficazmente rompidos com trechos pontuados pelo mal-estar e tensão, com o drama a envolver um filme que a espaços conta com pequenos salpicos de comédia, enquanto os vários elementos do elenco parecem compreender praticamente na perfeição a necessidade das dinâmicas colectivas estarem completamente afinadas para que o talento individual de cada actor e actriz sobressaia. É como se estivéssemos diante de uma pequena orquestra, conduzida com mestria por Paolo Genovese, com o cineasta a assumir quase o papel de Roman Polanski e a aproveitar de forma exímia as possibilidades de deixar um conjunto restrito de personagens num espaço fechado, enquanto uma miríade de sentimentos e revelações surgem ao de cima numa noite que promete deixar marcas. Alguns elementos de cada casal apresentam maiores afinidades entre si, outros parecem contar com um nível distinto de intimidade, embora seja certo que quase todos guardam segredos dos restantes, com Paolo Genovese a conceder espaço para que cada actor e actriz se destaque e explore a personalidade do personagem que interpreta. O elenco é composto por um conjunto de actores e actrizes de valor insuspeito, com a maioria a ter espaço para sobressair ao longo desta obra cinematográfica que se desenrola maioritariamente na casa de Eva (Kasia Smutniak) e Rocco (Marco Giallini).

Rocco e Eva organizam o jantar, com a segunda a surgir como uma psicóloga incapaz de compreender a filha adolescente, enquanto o primeiro é um cirurgião que mantém uma relação de alguma amizade com a jovem, com o casal a contar com um matrimónio aparentemente estável, apesar de esconderem alguns segredos um do outro. A decoração da habitação de Eva e Rocco é reveladora do estatuto de classe média/alta deste casal, bem como da maioria do grupo de amigos que participa neste jantar. É na casa de Eva e Rocco que se reúnem mais dois casais, nomeadamente, Bianca (Alba Rohrwacher) e Cosimo (Edoardo Leo) bem como Lele (Valerio Mastandrea) e Carlotta (Anna Foglietta), para além de Peppe (Giuseppe Battiston), com este último a não trazer a sua suposta companheira. O jantar é regado a bom vinho, comida e o mencionado jogo, com a narrativa a ganhar contornos gradualmente fervilhantes, enquanto o espaço da casa começa a ser contaminado por uma atmosfera claustrofóbica, com todos os personagens principais a serem obrigados a conviverem com o inevitável: a revelação de diversos segredos que procuravam esconder. O jogo partiu de uma ideia de Eva, embora a própria tenha os seus esqueletos no armário, com o argumento de Paolo Genovese, Filippo Bologna, Paolo Costella, Paola Mammini e Rolando Ravello a apresentar uma coesão latente (algo raro quando estão envolvidos tantos elementos) e a permitir que o cineasta explore estas intrigas entre amigos, bem como entre cônjuges. Como encarar a notícia de que a amante do esposo está grávida? Será uma boa ideia trocar de telemóvel com um amigo com uma rotina aparentemente desprovida de interesse? Como reagir à notícia de que um amigo de longa data é homossexual? A atmosfera torna-se gradualmente mais opressora, com a cinematografia a contribuir para essa sensação, enquanto as revelações contam com o tempo suficiente para serem desenvolvidas e ganharem impacto junto do espectador e dos personagens. Revelar mais do que aquilo foi mencionado ao longo deste texto seria estragar o prazer da primeira visualização de "Perfetti sconosciuti", embora a segunda visualização, após a descoberta das revelações, traga todo um novo conjunto de elementos que permitem valorizar ainda mais esta obra cinematográfica tipicamente italiana onde a tragédia e a comédia se juntam. Junte-se a tudo isto um elenco onde Alba Rohrwacher, Edoardo Leo, Valerio Mastandrea, Anna Foglietta, Giuseppe Battiston, Kasia Smutniak e Marco Giulliani têm espaço para sobressaírem e comporem personagens de relevo e "Perfetti sconosciuti" ganha rapidamente o estatuto de mais uma pérola oriunda de Itália. Alba Rohrwacher como uma veterinária recém-casada, que confia em demasia no esposo e parece apresentar alguma afinidade com o mesmo. Edoardo Leo como um taxista que tarda em encontrar estabilidade nos negócios e nas relações, algo que lhe promete trazer problemas. Valerio Mastandrea e Anna Foglietta destacam-se como um casal que se encontra unido há dez anos, com Lele e Carlotta a contarem com dois filhos e muitos segredos por revelar, bem como diversos problemas que começam a ser exibidos logo na apresentação rápida dos personagens, algo que que ocorre nos momentos iniciais do filme. Diga-se que Paolo Genovese não perde tempo a efectuar um retrato geral dos protagonistas e da intimidade de cada um, até começar a desenvolver gradualmente os personagens e a expor os seus segredos, com esta construção competente dos elementos que povoam a narrativa a contribuir e de que maneira para exacerbar o impacto dos acontecimentos ocorridos. Vale ainda a pena destacar Giuseppe Battiston como Peppe, um professor desempregado que supostamente tem um novo caso amoroso com uma mulher, tarda em encontrar um emprego que lhe agrade e tem uma aplicação específica no telemóvel para efectuar exercícios de X em X minutos, tendo em vista a perder peso.

 Giuseppe Battiston interpreta uma das várias figuras complexas de "Perfetti sconosciuti", com Peppe a permitir abordar temáticas como a homossexualidade, a insegurança em revelar a orientação sexual, a procura de contar com um aspecto que seja bem visto pela sociedade, entre outros exemplos, enquanto o actor tem uma interpretação de relevo. Todos estes elementos mencionados são amigos de longa data, ou conhecem-se há tempo suficiente para não terem problemas em disparar diálogos a espaços inconvenientes, embora o jogo prometa mudar a percepção que têm uns dos outros ou, pelo menos, permite que o espectador descubra alguns segredos relacionados com os protagonistas. Um dos vários méritos de Paolo Genovese passa por conseguir que compremos a ideia de que estes personagens estão a receber a informação ao mesmo tempo que o espectador, com o cineasta a contar com um domínio notório dos ritmos da narrativa, bem como da mise-en-scène, com os cenários, o trabalho dos actores, os planos, a contribuírem para que tudo funcione. Os vários espaços da casa de Eva e Rocco são utilizados, ainda que para objectivos distintos, com a habitação a surgir quase como uma personagem no interior da narrativa. Veja-se a sala de jantar, com os sete convidados a reunirem-se no interior da mesma, enquanto trocam conversas aparentemente inócuas, até o ambiente relativamente aprazível começar a aquecer, ou a forma como a casa de banho serve para Bianca extravasar os seus nervos. Inicialmente quase todos os personagens parecem apresentar uma confiança desmedida de que não contam com segredos comprometedores, pelo menos até estes começarem a ser revelados e a provocarem incómodos. Veja-se quando um dos personagens exibe a sua homofobia, ou uma confusão conduz um elemento a perceber o quão dolorosos podem ser os preconceitos contra os homossexuais, ou a exposição de que hoje em dia, ainda que tenhamos uma miríade de aparelhos e aplicações que permitam facilitar o diálogo, parecemos imensamente afastados daqueles que nos são próximos. Esse afastamento é visível nos segredos que estes personagens descobrem, com tudo e todos a parecerem contar com os seus esqueletos no armário e uma imensidão de receios, com Paolo Genovese a explorar esta situação com classe, inspiração e confiança. Entre o estudo sobre as relações modernas, o drama, a comédia e o comentário contundente sobre a nossa sociedade, "Perfetti sconosciuti" é uma pequena pérola que sabe conjugar um elenco principal composto maioritariamente por sete elementos, com tudo e todos a terem espaço para sobressair, bem como os aparelhos electrónicos que são utilizados, com as novas tecnologias a surgirem como uma fonte de aproximação, afastamento e imensos segredos.

Título original: "Perfetti sconosciuti".
Título em inglês: "Perfect Strangers".
Realizador: Paolo Genovese.
Argumento: Paolo Genovese, Filippo Bologna, Paolo Costella, Paola Mammini, Rolando Ravello.
Elenco: Giuseppe Battiston, Anna Foglietta, Marco Giallini, Edoardo Leo, Valerio Mastandrea, Alba Rohrwacher, Kasia Smutniak.

20 setembro 2016

Resenha Crítica: "Julieta" (2016)

 Melodrama pontuado por uma estrutura narrativa relativamente episódica, cenários prontos a adensarem os estados de espírito dos personagens e boas interpretações por parte de Emma Suárez e Adriana Ugarte, "Julieta" aborda a procura da protagonista em exorcizar alguns dos seus fantasmas interiores, enquanto escreve um diário, ou um livro de memórias, onde expõe diversos episódios sobre o seu passado. A depressão parece consumir o corpo e alma desta personagem que empresta o nome à vigésima longa-metragem realizada por Pedro Almodóvar, com Julieta a surgir como a protagonista, narradora e confidente do espectador. Conhecemos a faceta de Julieta como mulher solteira, namorada, esposa, mãe, filha e amiga, com Emma Suárez (Julieta no presente) e Adriana Ugarte (Julieta no passado) a conseguirem expressar os diferentes estados de espírito desta personagem ao longo do tempo. No presente, Julieta encontra-se a preparar uma mudança para Portugal, contando com a companhia de Lorenzo (Darío Grandinetti), o seu namorado. Lorenzo é um escritor de personalidade ponderada, com Darío Grandinetti a imprimir uma serenidade latente ao personagem que interpreta, uma figura que assume uma importância vital na vida de Julieta, sobretudo no terceiro acto do filme. A casa de Julieta conta com uma decoração relativamente moderna e impessoal (veja-se as tonalidades brancas das paredes, quase como se esta não quisesse deixar uma marca na habitação), uma estatueta com motivos fálicos, uma série de livros, diversos quadros e um espaço vermelho na cozinha que adensa o lado mais inquieto da alma da protagonista. Esse lado inquieto e turbulento surge ao de cima quando Julieta reencontra Beatriz (Michelle Jenner no presente; Sara Jiménez nas cenas do passado), uma amiga de infância da filha da protagonista. Beatriz revela que Antía (Priscilla Delgado durante a adolescência de Antía; Blanca Parés como a personagem aos dezoito anos de idade), a filha de Julieta, tem três rebentos (dois rapazes e uma rapariga), com a protagonista a fingir que se encontra informada sobre a situação, embora não contacte com a descendente há doze anos. Tudo muda radicalmente. A aparente felicidade de Julieta dá lugar a sentimentos como desilusão, tristeza, melancolia e dúvida, com as dores do passado a invadirem o presente, algo que conduz esta mulher a desistir de viajar para Portugal. Lorenzo fica desiludido e surpreendido com toda esta mudança comportamental de Julieta, com a protagonista não revelar inicialmente as razões para ter abandonado a decisão de deixar Madrid. Emma Suárez consegue transmitir a mágoa indelével da protagonista em relação ao afastamento da filha, com Julieta a padecer de uma depressão que teima em dar sinais de vida e exacerba a fragilidade emocional desta figura feminina que opta muitas das vezes por manter uma postura silenciosa e introspectiva. Quais as razões para mãe e filha se terem afastado? Pedro Almodóvar incute algum mistério em relação aos motivos que conduziram a este afastamento entre mãe e filha, enquanto nos dá a conhecer a protagonista e algumas figuras que a rodeiam, com Emma Suárez e Adriana Ugarte a efectuarem uma composição competente da personagem do título. Suárez sobressai desde logo quando contrasta com facilidade a aparente felicidade de Julieta com o sentimento de tristeza que invade a protagonista, quase como se Beatriz tivesse aberto uma cicatriz de uma ferida mal sarada. A alma de Julieta parece tão despedaçada como uma fotografia que esta mulher guarda no interior de um envelope azul. Rasgada em diversos pedaços, a fotografia reúne Julieta e a filha, duas figuras separadas pelo destino e por decisões nem sempre compreensíveis, com a protagonista a decidir escrever um diário onde pretende abordar todos os episódios relevantes da sua vida, tendo em vista a abrir a alma junto de Antía, a destinatária destes escritos. Julieta nem sabe se a filha vai ler o diário, embora esta decisão permita que a protagonista tente exorcizar alguns episódios menos felizes que ocorreram no passado e teimam em assolar a sua mente, enquanto enfrenta os mesmos e um estranho sentimento de culpa.

 Pedro Almodóvar povoa a narrativa com uma série de flashbacks, alguns com alguma pertinência, outros desprovidos de interesse devido ao pouco desenvolvimento dos personagens secundários ou das subtramas, com a narração de Julieta a surgir como o ponto de união entre estes episódios. Julieta surge como a narradora e a protagonista de serviço, com a narração em off a permitir costurar os diferentes episódios da narrativa, embora Pedro Almodóvar utilize excessivamente este recurso, algo que a espaços atribui um tom demasiado expositivo e redundante a alguns momentos do enredo. "Julieta" é livremente inspirado em três contos do livro "Runaway" de Alice Munro, algo que pode ajudar a explicar esta utilização quase literária da narração, como se existisse a necessidade de Julieta relatar tudo aquilo que sentiu e sente. É Julieta quem ficamos a conhecer ao longo do filme, seja quando esta se depara pela primeira vez com Xoan (Daniel Grao), uma das grandes paixões da sua vida, ou quando visita a mãe, uma mulher que se encontra acamada, ou enfrenta uma série de contrariedades profissionais e pessoais. Julieta conhece Xoan numa viagem de comboio, em plenos anos 80, com este episódio a ser exposto com enorme detalhe, bem como os sentimentos quentes que envolvem estes dois personagens. Xoan é um pescador de personalidade galanteadora e afável, que é casado quando se envolve com Julieta, embora a esposa esteja acamada há cinco anos. O personagem interpretado por Daniel Grao desperta facilmente a atenção da protagonista, com Xoan e Julieta a viverem um conjunto de episódios marcantes no interior do comboio onde efectuam uma viagem com destino a Madrid. Pedro Almodóvar aproveita eficazmente o espaço deste meio de transporte, com os momentos que decorrem no interior do comboio a contarem com situações tão díspares como a notícia de uma morte macabra e um jogo de sedução, enquanto um casal expõe os seus sentimentos e desejos. Adriana Ugarte consegue transmitir o lado mais aventureiro de Julieta durante esta fase da sua vida, algo exposto no caso que esta inicia no comboio ou na forma bem viva como a protagonista conduz as aulas de filologia clássica que lecciona temporariamente numa escola de Madrid. A literatura conta com uma relevância indelével na vida de Julieta, bem como o significado das palavras e as tragédias gregas, ou esta não surgisse como uma protagonista com propensão para se envolver em situações dramáticas. Após ter visto o seu contrato como professora substituta terminar, Julieta decide visitar Xoan, com quem inicia uma relação séria e tem uma filha, a jovem Antía. Xoan vive numa habitação com vista para o mar, com a casa deste pescador a transmitir o espírito livre deste personagem pronto a amar loucamente a protagonista e a filha, embora mantenha uma relação ambígua com Ava (Inma Cuesta), uma amiga de longa data. Ava é outra das figuras femininas que têm algum espaço para sobressair, com Inma Cuesta a interpretar uma artista especialista em esculturas com motivos fálicos. Uma das esculturas de Ava é transportada de mãos em mãos, com Pedro Almodóvar a aproveitar para colocar uma representação masculina na palma das mãos das mulheres, enquanto expõe o poder da figura feminina em relação ao homem. É o regresso de Almodóvar aos universos narrativos centrados maioritariamente em mulheres, com o cineasta a compreender as suas personagens, enquanto concede espaço para que as suas actrizes principais sobressaiam. No entanto, regressemos a Ava. Esta forma uma espécie de relação de amizade com Julieta, sobretudo a partir do momento em que uma tragédia conduz à morte de um personagem relevante para ambas as mulheres, com estes revezes a contribuírem e muito para a faceta menos esperançosa e pouco vivaz que Emma Suárez incute à protagonista. 

 Enquanto a narrativa avança, também os personagens amadurecem e protagonizam alguns episódios que moldam as suas vidas, algo notório quando Julieta se muda para Madrid com a companhia de Antía. A relação entre mãe e filha raramente é desenvolvida ao ponto de alcançar a densidade necessária para que a dor de Julieta, provocada pela ausência de Antía, após a jovem ter partido quando completou dezoito anos, seja sentida pelo espectador com a mesma intensidade que é vivida pela protagonista. Percebemos o estado de espírito da protagonista, mas nem sempre o sentimos de forma bem viva, algo inerente ao facto de Pedro Almodóvar apostar numa exposição excessiva dos acontecimentos por parte da narradora de serviço ao invés de desenvolver a relação entre Julieta e Antía de forma intensa e densa. A espaços quase que parece que ficamos diante de uma espécie de bullet points dos episódios que Julieta, ou melhor, Pedro Almodóvar, considera que contam com alguma relevância, embora o cineasta nunca desenvolva assertivamente a dinâmica entre Antía e os pais. "Julieta" quer dar muito ao espectador, embora nem sempre consiga cumprir esse desiderato, parecendo faltar quase sempre algo naquilo que diz respeito ao desenvolvimento das relações entre a personagem do título e as figuras que a rodeiam. O afastamento de Antía provocou uma enorme comoção na protagonista, sobretudo devido à relevância que a jovem teve para que Julieta conseguisse ultrapassar temporariamente uma depressão, com Almodóvar a colocar-nos diante de uma mulher que conta com uma série de relações conturbadas, seja com o pai, a empregada de Xoan, ou a filha. A relação de Julieta com o pai é problemática, sendo apresentada num dos diversos flashbacks que povoam a narrativa do filme, com Pedro Almodóvar a colocar-nos diante de pequenos fragmentos da vida desta mulher, embora nem todos sejam desenvolvidos na justa medida. Os problemas entre Julieta e o pai surgem como alguns dos elementos abordados de forma superficial ao longo do filme, com o argumento a nem sempre investir no desenvolvimento dos personagens secundários. Por sua vez, Marian (Rossy de Palma - na sua sétima colaboração com Almodóvar), a empregada de Xoan, surge como uma figura conservadora, indiscreta e caricatural, que não parece simpatizar com Julieta e raramente é desenvolvida ao longo do enredo. Quem está no centro de quase tudo aquilo que acontece na narrativa é Julieta, uma mulher que procura enfrentar os episódios do passado, após ter tentado esquecer os mesmos, com Pedro Almodóvar a realizar uma obra cinematográfica que, apesar de nem sempre explorar devidamente todas as subtramas e da banda sonora a puxar descaradamente para o melodrama, é relativamente eficaz em alguns dos seus propósitos. Pedaços do presente e do passado de Julieta são dados a conhecer, enquanto os cenários, o guarda-roupa e os penteados parecem contar com uma relevância indelével para adensar determinados estados de espírito. A casa de Xoan surge como um espaço relativamente simples, que permite transmitir a beleza do mar, mas também os seus perigos, com a relação entre Julieta e o amado a contar com alguns tumultos, um pouco à imagem das águas que rodeiam este cenário. O lar de Xoan contrasta com a casa da protagonista quando esta se desloca com a filha para Madrid, após um episódio trágico, com a jovem a surgir como um baluarte que procura evitar que Julieta permaneça enleada nas teias de uma depressão. A casa de Madrid é exposta e descrita como um espaço inicialmente opressivo e angustiante, até ser pintado, com o valor sentimental da primeira habitação de Julieta na capital de Espanha a trazer um peso indelével à narrativa. A procura da protagonista em pintar a casa, tendo em vista a mudar o estilo da mesma, reflecte também todo o cuidado que Almodóvar colocou na utilização das cores, com o cineasta a utilizar assertivamente a paleta cromática ao serviço da narrativa e dos seus devaneios (não faltam tonalidades vermelhas e azuis em doses industriais, muito ao estilo do realizador). Veja-se a casa da protagonista em 2016, com as tonalidades brancas das paredes a expressarem uma certa impessoalidade, ou o espaço do comboio (Julieta com uma camisola azul, as tonalidades vermelhas dos bancos e os tons laranjas da cortinas), entre outros exemplos. 

 Os espaços madrilenos também contam com algum peso dramático e valor simbólico, com a cidade de Madrid a surgir praticamente como uma personagem de relevo. Veja-se quando Julieta perambula por Madrid e se senta no banco de um campo de basquetebol, com este espaço a trazer à memória o período de tempo em que Antía e Beatriz brincavam no local. O passado e o presente tocam-se em episódios distintos, com Julieta a procurar reencontrar os espaços dos quais se afastou a partir do momento em que tentou esquecer a filha, com estes locais a contribuírem para o reavivar de memórias de outrora. Esse jogo de repetições verifica-se desde logo quando Julieta decide voltar a residir no mesmo prédio que habitara quando foi viver com a filha para Madrid, com a protagonista a isolar-se neste espaço para escrever o seu diário e esperar por algo aparentemente impossível, ou seja, que Antía entre em contacto e revele a sua morada. Julieta parece procurar algo que perdeu e tarda em reencontrar, seja a filha, ou a felicidade perdida, com o peso dos episódios que esta mulher viveu a carregarem a sua alma de uma melancolia com a qual não contava na juventude. Os próprios penteados da protagonista dizem muito sobre a sua personalidade (Almodóvar também não perdoa neste quesito). No passado, quando se encontra no comboio, Julieta conta com um penteado curto e moderno para a época, algo revelador da fase mais aventureira e impulsiva da protagonista. Já quando encontramos um momento onde passado e presente se unem, o cabelo de Julieta aparece mais descuidado, algo que contrasta com o corte elegante que apresenta no início do filme, antes de ser "engolida" pelos episódios que marcaram a sua vida. Julieta procurou esquecer a filha, mas este desiderato revelou-se uma tarefa impossível de cumprir, com a dor a parecer contribuir para separar e unir estas duas personagens, bem como um silêncio doloroso que marca a (não) relação de ambas. Este é também um filme sobre a dor, seja esta de uma esposa que se depara com a morte de um ente querido, de uma mãe que lida com o longo afastamento da filha, de um progenitor que procura contactar com uma das familiares mais próximas, de um namorado que não compreende totalmente aquilo que se encontra a ocorrer na mente da cara-metade. "Julieta" aborda temáticas como a perda, o sentimento de culpa por parte de uma mãe, os problemas familiares e a incapacidade de controlar o destino, com o argumento a explorar alguns temas relevantes, embora algumas subtramas sejam desenvolvidas praticamente "a correr", algo que tira uma certa força a uma obra cinematográfica que conta com uma protagonista capaz de despertar o nosso interesse. No presente, Julieta aparece como uma figura mais solitária, isolada e vulnerável, que carrega consigo o peso das diatribes do destino, enquanto em alguns flashbacks podemos encontrar uma faceta mais leve da protagonista, pelo menos até o acaso desferir uma série de pancadas ferozes que deixam diversas cicatrizes que teimam em ser reabertas e contaminam a alma. "Julieta" remete ainda para outros melodramas no feminino de Almodóvar, tais como "Volver". Não falta a utilização bastante expressiva das cores (sobretudo o vermelho e o azul), os problemas familiares e os momentos a puxar ao melodrama, os cenários decorados de forma a exacerbarem a personalidade de alguns personagens, embora "Julieta" não conte com os trechos marcados pelo absurdo como "Volver". A utilização extravagante das cores, os momentos melodramáticos e as interpretações de bom nível também estão presentes em "Todo sobre mi madre", um drama onde Pedro Almodóvar aborda temáticas como a dor de uma mãe que perdeu o seu filho. Em "Julieta", a personagem do título não perdeu a sua filha para sempre, mas não contacta com a mesma há doze anos, com a ausência a afectar e muito a protagonista, algo que é exposto ao longo do filme. Pedro Almodóvar volta a embrenhar-se no interior de um universo narrativo dominado pelas figuras femininas, com a personagem do título a destacar-se acima de todas as outras e a permitir que Emma Suárez e Adriana Ugarte sobressaiam, com as actrizes a compensarem alguns tropeços de "Julieta", tais como os exageros melodramáticos e o parco desenvolvimento de alguns elementos secundários, embora seja de elogiar todo o cuidado colocado no design de produção, bem como a atenção indelével aos pormenores e a capacidade do cineasta em envolver-se na mente de uma mulher que viveu uma série de episódios que a marcaram de forma insofismável.

Título original: "Julieta".
Realizador: Pedro Almodóvar.
Argumento: Pedro Almodóvar.
Elenco: Emma Suárez, Adriana Ugarte, Inma Cuesta, Daniel Grao, Rossy de Palma, Priscilla Delgado, Blanca Parés, Darío Grandinetti.

19 setembro 2016

Resenha Crítica: "Évolution" (Evolução)

  Misterioso, enigmático, pronto a estimular a mente e os sentidos do espectador, "Évolution" tem tanto de indecifrável como de questionador, inebriante, poético, belo, perturbador e assustador, com Lucile Hadžihalilović a abandonar-nos no interior de uma ilha isolada, rodeada pelo mar e povoada por um grupo de rapazes e estranhas mulheres, enquanto o nosso corpo e nossa a mente são consumidos por aquilo que a cineasta tem para apresentar, ou melhor, assombrar. Ficamos perante um território marcado por regras muito próprias, com o mar a transmitir simultaneamente uma sensação de libertação e isolamento, perigo e conforto, lirismo e crueza, com os personagens de "Évolution" a contarem com uma relação muito próxima com as águas que rodeiam a ilha onde habitam. A força das ondas e os seus sons são bem audíveis, enquanto as profundezas do mar transmitem toda uma sensação de mistério e poesia, quase como se estivéssemos diante de algo que tanto evidencia a capacidade de libertar como de aprisionar. O mar é uma presença sentida e relevante, enquanto os homens são uma ausência que nos traz mais dúvidas do que certezas, com o território a contar apenas com rapazes de tenra idade e mulheres. Não existem raparigas, nem homens a povoarem este espaço, com as mulheres a tratarem os jovens de um modo muito peculiar, com quase todos os rapazes a terem como destino um hospital estranhamente assustador, uma espécie de limbo onde o futuro das crianças parece incerto. Será que estão doentes? Quais os propósitos destes tratamentos? Qual o papel das enfermeiras? Estas são algumas das dúvidas que assolam inicialmente a nossa mente, com "Évolution" a conseguir estimular os nossos sentidos, a nossa capacidade de interpretação e de questionamento, enquanto mergulhamos para o interior de uma espécie de sonho bizarro onde os tratamentos efectuados na unidade hospitalar ganham contornos de pesadelo. O hospital surge representado como um espaço opressor, marcado por tonalidades verdes desprovidas de vida, com esta cor a estar longe de transmitir calma, esperança ou serenidade. Diga-se que o cenário do hospital demonstra paradigmaticamente algum do cuidado colocado no design de produção, com este espaço fechado, pontuado por paredes recheadas de marcas de humidade, a adensar a atmosfera misteriosa e inquietante que envolve esta obra cinematográfica estranhamente inebriante. O enredo conta maioritariamente com um jovem como protagonista, em particular, Nicolas (Max Brebant), um rapaz curioso, que gosta de nadar e desenhar. Nicolas mantém uma relação problemática com a mãe (Julie-Marie Parmentier), uma figura enigmática, com os comportamentos desta última a despertarem alguma curiosidade no primeiro. A casa onde Nicolas e a mãe habitam é pontuada por um estilo de decoração frio e austero, com este cenário interior a transmitir desde logo a impessoalidade e a frieza que marca o dia-a-dia neste espaço, bem como a estranha relação entre o protagonista e a progenitora. O quotidiano destes personagens é marcado por situações como a mãe de Nicolas obrigar o jovem a tomar um medicamento misterioso e a ingerir estranhas refeições, com Julie-Marie Parmentier a incutir algum mistério aos actos desta mulher. A frieza da casa de Nicolas contrasta com as cores vivas com que nos deparamos quando os personagens se encontram no fundo do mar, com esta grande extensão de água a trazer uma estranha sensação de liberdade e uma capacidade indelével para estimular a imaginação. No interior das águas marítimas, os jovens tanto podem encontrar uma estrela-do-mar como corais ou simplesmente envolverem-se em situações mais delicadas, com o mar a surgir como um elemento relevante no quotidiano dos moradores desta ilha.

Nicolas gosta de nadar, tendo supostamente descoberto um cadáver, algo que é desmentido pela sua progenitora, embora pareça certo que esta se encontra a esconder alguma coisa deste rapaz. Este efectua actos muito próprios dos jovens da sua idade, com os rapazes a brincarem, a envolverem-se em zangas e a formarem estranhos laços, mesmo quando começam a ser estranhamente internados num hospital, com tudo e todos a parecerem contar com este destino, excepção feita às mulheres. A curiosidade de Nicolas é adensada a partir do momento em que é internado pela progenitora, com este a ser sujeito a diversos tratamentos, tal como alguns rapazes desta ilha. Nicolas não sabe qual é a doença de que padece, nem acredita que conta com alguma maleita, com o jovem a procurar fugir deste espaço, enquanto tenta descobrir os segredos sobre as mulheres deste território. Nesse sentido, Nicolas é surpreendido pela descoberta de uma série de rituais protagonizados pelas mulheres, alguns dotados de erotismo e imensa estranheza, bem como por diversos hábitos das poucas figuras adultas desta ilha. É o despertar do jovem para o mundo dos adultos, para os sonhos e os pesadelos inerentes ao crescimento, com Nicolas a lidar com toda uma realidade que o transcende. Quais são os objectivos destas mulheres? Aos poucos percebemos alguns dos planos destas figuras femininas que contam com estranhas marcas nas costas, com o símbolo recorrente da estrela-do-mar a não ter sido colocado na narrativa ao acaso, ou não estivéssemos diante de algo que se pode reproduzir sexualmente ou de forma assexuada. Diga-se que as próprias luzes de um aparelho do hospital remetem para a forma de uma estrela-do-mar, algo que confirma a possibilidade destes jovens estarem a ser sujeitos a testes que permitam que estes se reproduzam de forma assexual, com o umbigo dos mesmos a surgir como um estranho alvo das experiências e estudos efectuados na unidade hospitalar. Nem tudo é esclarecido, embora "Évolution" forneça algumas pistas ao espectador, sempre sem deixar que este se sinta totalmente confortável, parecendo impossível que a nossa mente sossegue totalmente e se preencha de certezas em relação àquilo que está a acontecer neste hospital. O mistério pontua a narrativa da segunda longa-metragem realizada por Lucile Hadžihalilović, bem como os silêncios e os parcos diálogos, com as próprias interpretações a contribuírem para as características enigmáticas do filme. Veja-se o caso de Julie-Marie Parmentier, com esta a surgir como uma figura austera, que procura cuidar de Nicolas, embora os planos que esta congemina para o jovem contem com uma certa dose de ambiguidade, com a actriz a conseguir transmitir eficazmente essa situação. Esta parece ainda estar a lidar com questões relacionadas com a maternidade, uma situação que se verifica ainda em diversas figuras femininas que povoam a narrativa desta obra cinematográfica, com a maioria a indicar querer travar o crescimento destes jovens e mantê-los sob a sua alçada (com o mar a poder simbolizar o líquido amniótico, ou seja, um elo de ligação entre os jovens e as suas criadoras), enquanto deixam que os rapazes sejam sujeitos a testes peculiares (que a espaços incutem uma faceta de "body horror" a "Évolution"). Outra das intérpretes em destaque é Roxane Duran como Stella, uma enfermeira do hospital, uma mulher que inicia uma estranha relação de proximidade com o protagonista, com a actriz a demonstrar que estamos diante de uma figura que se encontra numa luta interna entre manter os valores do espaço que a rodeia ou ceder à curiosidade do rapaz. Stella é um enigma difícil de compreender, embora partilhe alguns momentos com Nicolas que prometem ficar na memória de ambos e do espectador, ou não estivéssemos diante de uma obra cinematográfica onde os gestos e as sensações contam com enorme significado e relevo. Lucile Hadžihalilović incute uma certa ambiguidade aos episódios que ocorrem ao longo do enredo, com o design sonoro a incrementar o tom intrigante da narrativa, enquanto a cineasta extrai interpretações convincentes por parte do elenco principal e inquieta o espectador.

O grande destaque a nível de interpretações vai para o jovem Max Brebant, um estreante que consegue exprimir as questões que assolam a mente do protagonista, bem como os seus receios, anseios e fraquezas, algo que partilha com outros rapazes e com Stella. "Évolution" é também um filme sobre os medos e as dúvidas de um jovem em plena puberdade, que se depara com todo um mundo novo, quase como se de repente entrasse numa máquina do tempo que o coloca a saltitar entre a infância e a idade adulta, com alguns dos episódios em que este se envolve a serem incompreensíveis até para os mais velhos. A entrada do jovem no hospital adensa essas dúvidas, bem como as descobertas que efectua fora deste cenário fechado. Os testes efectuados nestes jovens contam com características bizarras, com Lucile Hadžihalilović a não ter problemas em jogar com os receios dos personagens e do espectador. Veja-se quando Nicolas sonha que um molusco toca no seu umbigo, ou os estranhos procedimentos que são efectuados no hospital, com "Évolution" a entrar muitas das vezes pelas águas do terror. Os sonhos perturbam a realidade de Nicolas, enquanto este entra num mundo de descobertas no interior de uma ilha capaz de perturbar, encantar, assustar e inebriar os sentidos. Lucile Hadžihalilović deixa-nos diante de imagens marcantes, simultaneamente poéticas e perturbadoras, que teimam em permanecer na nossa mente após a visualização de "Évolution", uma obra cinematográfica que aborda temas como os ritos de passagem, as descobertas efectuadas por um rapaz que se encontra a entrar na puberdade, os medos e os receios dos jovens, a maternidade, a gravidez (seja esta feminina ou masculina), entre outros. A ilha que nos é apresentada surge como um espaço praticamente à parte do Mundo, localizada num território e tempo difíceis de discernir, quase onírico e a espaços assustador, com Lucile Hadžihalilović a criar um universo narrativo que mexe com os nossos sentidos e se apodera da nossa mente, algo incrementado por uma cinematografia capaz de adensar todos estes elementos, com "Évolution" a deixar uma marca bem forte e a teimar em assumir um lugar na nossa memória.

Título original: "Évolution".
Título em Portugal: "Evolução".
Realizadora: Lucile Hadžihalilović,
Argumento: Lucile Hadžihalilović e Alante Kavaite.
Elenco: Max Brebant, Roxane Duran, Julie-Marie Parmentier.