11 março 2020

Crítica: "Portrait de la jeune fille en feu" (Retrato da Rapariga em Chamas)

 É possível ficar indiferente ao final de "Portrait de la jeune fille en feu"? Arrebatador, hipnótico, comovente, dotado de sentimento, romantismo e melancolia, o momento mencionado demonstra paradigmaticamente o poder de um close-up, a força da Sétima Arte e a capacidade que uma actriz tem para despertar uma miríade de emoções. Sentir esta cena em sala de cinema é algo inquestionavelmente intenso e emotivo. A nossa mente fica presa a tudo o que observamos e escutamos, a nossa alma aquece, o coração palpita descontroladamente e um arrepio apodera-se do nosso ser, qual culminar de uma experiência cinematográfica digna de todo o nosso envolvimento emocional. O passado ecoa pelo presente, as recordações acentuam as sensações, enquanto o terceiro movimento de "Verão", de "As Quatro Estações" de Vivaldi, dialoga com as emoções e os sentimentos que perpassam por este episódio. Céline Sciamma é uma cineasta acima da média. Já o tinha comprovado em filmes como "Tomboy" e "Bande des filles". No entanto, "Portrait de la jeune fille en feu" é outra loiça, pertence àquele patamar das obras-primas, daquelas fitas que permanecem na memória e deixam uma marca que fica agarrada ao nosso âmago. É filme dotado de enorme sensibilidade, onde os não ditos têm tanta ou mais relevância do que as palavras, os gestos são sentidos e os rostos têm poder para se expressar silenciosamente. Os diálogos também têm fulgor, com o argumento a ser um dos pontos fortes deste belo romance, sobretudo a partir do momento em que as protagonistas começam a demonstrar mais intimidade e a conhecer-se mutuamente. 

Céline Sciamma exibe uma enorme precisão a  jogar com o ritmo da narrativa, a fazer com que tudo pareça acontecer de forma natural, enquanto nos envolve para o interior de um castelo situado na Bretanha, em finais do Século XVIII. O mar rodeia as proximidades desta habitação e atribui uma sensação quer de liberdade, quer de prisão a este local ao qual a pintora Marianne (Noémie Merlant) chega numa fase inicial do enredo. A artista é contratada para pintar o retrato de casamento de Héloïse (Adèle Haenel), uma jovem que acaba de sair do convento. Esta resiste ao seu destino de esposa ao recusar posar para a pintura que será oferecida ao futuro marido. Para ultrapassar esta resistência, a progenitora (Valeria Golino), uma condessa de origem italiana, apresenta a pintora como dama de companhia de Heloïse. Noémie Merlant imprime uma postura inicialmente estudiosa, observadora e prática à sua Marianne. A tonalidade vermelha escura de um dos vestidos que mais utiliza remete para o fogo que começa a despertar lentamente no interior do seu âmago, realça as sensações desta mulher e o seu romantismo. Merlant é capaz de expressar imenso através dos gestos e olhares, tal como Adèle Haenel. Esta insere uma faceta inicialmente misteriosa à sua Heloïse, uma jovem que gosta de ler e ouvir música, adepta das artes e da liberdade, que é praticamente obrigada a assumir o lugar da irmã como noiva de um milanês, após a morte misteriosa desta última.

05 março 2020

Crítica: "The Invisible Man" (O Homem Invisível)

 O conceito, a premissa e o título de "The Invisible Man" parecem aquela peça de roupa que se adapta a qualquer época ou estação. Não faltam longas-metragens e séries inspiradas no livro homónimo de H.G. Wells, ainda que pareça existir sempre espaço para mais uma, quais calças de ganga ou t-shirts de cores neutras que estão sempre prontas a integrar a lista de compras e a entrar de rompante pelo guarda-roupa. A nova adaptação da perene obra literária não conta com a concisão do filme de James Whale, mas insere-se que nem uma luva nos nossos tempos. As repercussões de uma relação problemática, a violência no interior de um namoro, o empoderamento da mulher, os efeitos nocivos da masculinidade tóxica aparecem como temas que permeiam esta película dotada de uma atmosfera opressora, inquietante, pessimista. A parca iluminação, a paleta de cores propositadamente escura ou desprovida de vitalidade, potenciam e muito esse ambiente tenso, tal como o design de som, com o realizador Leigh Whannell e a sua equipa a construírem toda uma atmosfera que propícia o nosso envolvimento com os episódios protagonizados por Cecilia. Elizabeth Moss é o rosto, o corpo e os gestos desta fita. A câmara assim o diz. Os planos que se fecham no seu rosto assim o sublinham. O destaque constante à sua Cecilia assim o dita.

Alguns dos pontos fortes de "The Invisible Man" são colocados em evidência nos momentos iniciais da narrativa. Um ambiente tenso, um aproveitamento eficaz dos cenários, uma capacidade notória de fazer germinar o receio no interior do espectador. O cenário em questão é a habitação de Adrian (Oliver Jackson-Cohen), o namorado de Cecilia. Fria, impessoal, dotada de vidros, tons desprovidos de vida e um estranho aparelho que remete para uma experiência deste cientista, esta casa diz muito sobre a personalidade do seu proprietário. É na aurora do filme que nos deparamos com a protagonista a tentar fugir deste espaço. Procura não fazer barulho, evita movimentos bruscos, desliga a maioria das câmaras, mas existe sempre a sensação de que algo pode falhar a qualquer momento. A localização desta propriedade, longe de quase tudo e todos, acentua precisamente essa ideia de ameaça, de que a ajuda pode não chegar a tempo. Se este cenário é permeado pela aspereza, já o lar de James é marcado pelo calor humano, ou não estivéssemos perante um lugar onde a protagonista busca protecção, apoio e afecto. Aldis Hodge insere uma postura afável e confiável ao seu James, um polícia que vive com Sydney (Storm Reid), a sua filha, uma adolescente com quem mantém uma relação de enorme proximidade.

26 fevereiro 2020

Crítica: "Doubles vies" (Vidas Duplas)

 A literatura, o mercado editorial, as relações amorosas e de amizade estão no centro de "Doubles vies", um filme que gosta de levantar questões, de deixar as respostas em aberto, de possibilitar que a palavra seja valorizada e de permitir que os intérpretes façam uso dessa faceta palavrosa do argumento. Visões distintas e semelhantes entram em diálogo, sejam estas sobre o futuro do mercado editorial ou relacionadas com as razões para as pessoas investirem ou não dinheiro em obras literárias. É legítimo dizer que os livros são caros quando gastamos um valor absurdo em telemóveis ou computadores dos quais não utilizamos nem metade das suas potencialidades? Será que os livros deveriam ser mais caros para serem devidamente valorizados? Os eBooks e os audiobooks são o futuro do mercado ou uma tendência incapaz de destronar a obra física? É ético que um escritor utilize informação melindrosa relacionada com aqueles que o rodeiam como conteúdo para as suas histórias? Qual o valor literário de um tweet ou de uma mensagem enviada por e-mail? Estas são algumas das questões levantadas e debatidas ao longo desta longa-metragem realizada por Olivier Assayas. A espaços fica a ideia de que o cineasta poderia e deveria ter aproveitado para deixar o filme respirar, que é como quem diz, permitir que os diálogos ganhassem impacto através de um ou outro momento de silêncio ou contemplação. Esses períodos de acalmia do verbo raramente acontecem, mas nem por isso a palavra deixa de ter força, com esta a ter no elenco um enorme aliado.

Guillaume Canet transmite com precisão as incertezas do seu Alain em relação ao futuro do mercado editorial. Líder da Editions Verteuil, uma editora com um passado de respeito, este exibe por diversas vezes alguma vontade em acompanhar a mudança dos tempos, em apostar no digital. É alguém que gosta de manter longos diálogos sobre o assunto, que exibe um certo cuidado na escolha das obras que integram o espólio da sua editora, ainda que nunca deixe de lado a vertente comercial. O intérprete imprime carisma, charme e uma capacidade assinalável de ser evasivo a este editor que é casado com Selena (Juliette Binoche), uma actriz que protagoniza uma série televisiva de grande popularidade. Juliette Binoche incute uma postura deliciosamente pedante e acutilante à sua personagem, uma intérprete apreciadora de literatura, pouco dada a eBooks e tecnologias, incapaz de esconder a sua opinião ou de evitar comentários desagradáveis. No entanto, está longe de conseguir expor totalmente os seus sentimentos. Sabe que o esposo a trai, mas não exibe esse conhecimento junto do cônjuge. Diga-se que ela também o trai, com "Doubles vies" a fazer justiça ao título ao colocar-nos diante de relações onde a lealdade não é o ponto forte, nas quais quase tudo e todos sabem que algo não está a correr bem nos seus envolvimentos oficiais. 

25 fevereiro 2020

Crítica: "Hors normes" (Especiais)

 "Hors normes" balanceia constantemente entre a leveza e a crueza, o humor e o drama, enquanto demonstra uma humanidade assinalável e aborda diversos temas relacionados com o autismo. A espaços fica a ideia de que pretende ser um raio de sol que derrete o gelo do pragmatismo. O problema é que em excesso esses raios provocam algumas queimaduras, que é como quem diz, os realizadores Olivier Nakache e Éric Toledano esforçam-se em demasia para apelar ao sentimento. Por vezes conseguem, fruto desses balões de humanidade que já mencionámos, bem como de um trabalho assinalável de Vincent Cassel e do restante elenco. No entanto, a banda sonora logo faz questão não só de sublinhar esse propósito de comover, mas também de dizer como o espectador se deve sentir. O que não impede "Hors normes" de efectivamente conseguir o seu propósito e embrenhar-se pelo interior de alguns casos mais intrincados de autismo, tendo as instituições de Bruno Haroche (Vincent Cassel) e Malik (Reda Kateb) como pano de fundo, em especial, a do primeiro, a La Voix des Justes. Esta não se encontra legalizada, ainda que funcione há vinte anos e apresente resultados bastante positivos, indo ao ponto de contar com o apoio de diversas entidades públicas e um papel fundamental na sociedade, algo que é exposto em diversos trechos da fita. 

Não nos enganemos no que diz respeito a possíveis subtilezas. Olivier Nakache e Éric Toledano retratam negativamente as instituições oficiais destinadas a cuidar daqueles que padecem desta perturbação global do desenvolvimento. A dupla procura demonstrar o descaso ou a rigidez destas organizações e do Estado em relação aos casos mais intrincados de autismo, bem como uma certa incapacidade destas entidades quer para inovar nos tratamentos, quer para integrar estes homens e mulheres na sociedade quando chegam à idade adulta. É certo que "Hors normes" também explana os perigos da falta de recursos de instituições como a de Bruno, mas nunca de modo a desvanecer o mérito do trabalho deste elemento e da sua colectividade. O guarda-roupa reforça a simplicidade do protagonista, um traço que é sublinhado pelo desempenho meritório de Vincent Cassel. Subtileza, humanismo, sentimento e resiliência são alguns dos ingredientes que o intérprete e o argumento incutem à personagem. Mas o eterno Vinz de "La Haine" traz algo mais a esta figura. Faz com que acreditemos que estamos diante de alguém que é genuinamente boa pessoa, dedicado à sua causa e incapaz de dizer que não aos elementos de quem cuida. 

20 fevereiro 2020

Crítica: "Tenki no ko" (O Tempo Contigo)

 A razão, a lógica, o pragmatismo, o tempo e o espaço são desafiados pelo amor e pela amizade em "Tenki no ko" (em Portugal: "O Tempo Contigo"), a nova longa-metragem de Makoto Shinkai. Tal como em "Kimi no Na wa.", o cineasta deixa-nos diante de um filme de animação dotado de romantismo e sensibilidade, pontuado por uma série de elementos associados ao fantástico, aos mitos e aos ritos. Em alguns momentos ameaça esticar a corda e exagerar nos devaneios adocicados, mas rapidamente somos contagiados pelo charme, humor e enorme coração deste romance onde a chuva e as nuvens cinzentas não conseguem enregelar o fervor de um amor que não se deixa amedrontar pelas adversidades. Makoto Shinkai consegue que acreditemos na ligação forte que se forma entre os protagonistas, na química que existe entre ambos, na mescla de maturidade e imaturidade que pontua os seus actos. Na adolescência muito é vivido e sentido de modo intenso. Tudo é novo, tudo está a ser descoberto, tudo parece ganhar um sentido de urgência, que o digam Hodaka (Kotaro Daigo) e Hina (Nana Mori), as personagens principais de "Tenki no ko". O primeiro é um adolescente de dezasseis anos de idade, que fugiu de casa em direcção a Tóquio. A segunda está prestes a completar dezoito anos de idade, trabalha desde a morte da mãe e procura cuidar de Nagi (Sakura Kiryu), o irmão mais novo.

O território de Tóquio onde estes vivem é pontuado por nuvens cinzentas, chuva constante e uma certa sensação de incerteza, ou não estivéssemos perante uma urbe que tanto potencia como coarta a concretização dos sonhos. A equipa de animação é exímia a reunir o real e o fantástico, a despertar uma certa sensação de encanto, bem como a realçar os espaços e as especificidades desta cidade. Note-se as diversas lojas, as ruas recheadas de néones e a capacidade destes lugares em reunirem no seu interior a modernidade e a tradição. É na capital japonesa que Hodaka consegue um emprego mal remunerado, em particular, na pequena editora de Keisuke (Shun Oguri), um indivíduo aparentemente descontraído, com quem fica a viver no local de trabalho. Neste espaço, conhece Natsumi (Tsubasa Honda), a sobrinha do chefe, uma jovem extrovertida e afável, que também labora na pequena publicação. O trio forma uma relação de proximidade e amizade, enquanto procura recolher histórias sobre lendas urbanas. Por sua vez, Hina pondera trabalhar num clube nocturno, mas é travada de forma enérgica pelo protagonista, com quem travara conhecimento no anterior local de trabalho. É um momento-chave para a relação desta dupla. Os laços entre ambos fortalecem-se com o avançar do enredo, sobretudo quando começam a trabalhar juntos, em particular, a aproveitar os poderes da adolescente como um meio para ganhar fundos e trazer a felicidade para aqueles que a rodeiam.

17 fevereiro 2020

Crítica: "Les misérables" (Os Miseráveis)

 "Les misérables" começa em euforia, em explosões de sentimentos e sensações desabridas. Se a aurora do enredo é pontuada pela alegria, já o seu término é marcado pelo desalento, por uma violência visceral que se alimenta do ódio e de um sistema político, social e económico ineficiente. As bandeiras francesas aparecem em realce durante o dealbar da primeira longa-metragem realizada por Ladj Ly, a esvoaçarem, a bailarem pelas mãos e a serem exibidas como sinal de orgulho. Esse entusiasmo popular resulta da vitória da França no Mundial 2018. Todos os problemas aparentam ter sido esquecidos, as tristezas deixadas de lado, os ódios apagados pela alegria vibrante proporcionada pelos jogadores da selecção nacional francesa de futebol. O que se segue é uma desconstrução dessa paz aparente, dessa ideia de que os problemas não existem, de que é possível existir união. Tudo é exposto de forma crua, visceral, de modo quase documental, pronto a puxar-nos para o interior dos arredores de Paris, em particular, Montfermell. Somos apresentados aos habitantes deste território, à sua diversidade, às diferentes culturas e tradições que atribuem uma identidade muito própria a um espaço que é quase um protagonista desta película onde não existem heróis e vilões, bons e maus, anjos e demónios. Todos estão numa zona cinzenta, sejam polícias ou moradores. Talvez aquele que esteja mais perto de se encontrar do lado mais próximo da lei é Stéphane Ruiz, um polícia que acaba de integrar a Brigada Anti-Crime de Montfermell.

Damien Bonnard consegue transmitir o mal-estar do seu Stéphane diante dos actos nem sempre recomendáveis dos colegas, bem como expressar a procura deste indivíduo em apresentar uma postura educada e humana diante daqueles que o rodeiam. É quase como um duplo do espectador, alguém que acabou de chegar a um local marcado por regras muito próprias. Este faz equipa com Chris e Gwada, um duo que está há mais de uma década em funções no interior deste espaço intrincado. Alexis Manenti consegue espelhar quer o lado imoral e violento da sua personagem, quer a sua faceta mais leve, sempre sem deixar a sensação de que o seu Chris transgride a lei e o poder inerente às suas funções. Djebril Zonga insere uma mescla de segurança e insegurança ao seu Gwada, um representante da autoridade que cresceu no território. A vida pessoal destes elementos também é exposta, ainda que não desenvolvida. No entanto, permite demonstrar mais uma vez a procura de "Les misérables" em atribuir humanidade às suas personagens. Estamos diante de polícias que recebem mal, procuram estar junto das suas famílias, trabalham em condições intrincadas e são regularmente colocados diante de acontecimentos onde nem sempre é fácil manter a cabeça fria ou tomar a opção mais pragmática. Também cometem erros e actos à margem da lei, que o digam Chris e Gwada, algo que contribui e muito para alimentar a animosidade dos habitantes deste território dos subúrbios de Paris. 

13 fevereiro 2020

Crítica: Sonic the Hedgehog (Sonic: O Filme)

 Temos boas e más notícias sobre "Sonic the Hedgehog". Comecemos pelo lado positivo, ou seja, o visual de Sonic. Este é bastante semelhante ao dos jogos do célebre ouriço da SEGA, algo que permite afastar da memória a atrocidade genérica que o estúdio apresentou nos primeiros materiais promocionais. As más notícias é que se esqueceram de refazer o argumento superficial e desinspirado de Patrick Casey e Josh Miller, uma dupla com um currículo tão obscuro como alguns dos diálogos que permeiam o filme. É certo que "Sonic the Hedgehog" nunca chega a atingir os níveis de mediocridade de "Super Mario Bros.", uma fita que traz tão gratas recordações como uma intoxicação alimentar. O problema é que a obra cinematográfica realizada por Jeff Fowler raramente desperta algo para além de indiferença ou letargia. Falta energia e alma a este filme. Falta um argumento capaz de escapar aos lugares-comuns ou que seja competente a jogar com os mesmos. Falta alguém que diga a Jim Carrey que o seu Robotnik é uma caricatura que nunca escapa aos gestos exagerados e aos delírios egocêntricos do intérprete. A estrela de "The Mask", "Ace Ventura" e "Dumb and Dumber" precisa regularmente de um realizador que controle os seus ímpetos. Jeff Fowler deixa-o à solta, sem rédea curta, pronto a contribuir para que sejamos assolados por uma sensação de cansaço e pela percepção de que já vimos o actor a fazer estas graçolas em outras fitas e de forma mais eficaz. 

O enredo segue em parte a estrutura dos jogos de computador nos quais temos de ultrapassar níveis de diferentes graus de dificuldade para chegarmos ao ansiado embate com o "boss", que é como quem diz, ao confronto com o antagonista principal ou com algum vilão poderoso. No caso, a película começa in media res, com o Dr. Robotnik a perseguir Sonic em plena San Francisco, até recuarmos para o período em que este último veio parar ao planeta Terra. Ao provocar inadvertidamente um desastre eléctrico, o velocista azul passa a ser perseguido pela personagem interpretada por Jim Carrey, um cientista tresloucado que é contratado pelo Governo. É então que o ouriço passa a contar com a ajuda de Tom Wachowski (James Marsden), um xerife de Green Hills que se prepara para deixar a pequena cidade, tendo em vista a abraçar uma nova aventura profissional em San Francisco. Aos poucos a dupla começa a formar amizade, enquanto procura escapar ao antagonista e recuperar os anéis que Sonic perdeu. Estes permitem que o protagonista viaje de um local para outro, desde que pense nesse sítio, ainda que prefira deslocar-se inicialmente para a habitação do representante da autoridade que partilha o apelido com as criadoras de "The Matrix". O pouco carismático James Marsden não compromete nem deslumbra como este xerife de bom coração que protagoniza uma série de episódios que variam entre o cómico e o perigoso ao lado da figura do título. 

05 fevereiro 2020

Crítica: "Birds of Prey: And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn" (2020)

 Não é por acaso que, em determinado momento de "Birds of Prey: And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn", encontramos a personagem do título a ver um episódio de "Sylvester & Tweety" na companhia da jovem Cassandra Cain (Ella Jay Basco). Também o filme realizado por Cathy Yan apresenta a mesma saudável loucura e, em Harley Quinn, uma protagonista capaz de se envolver nos episódios mais delirantes, violentos e cómicos, sem que esses actos pareçam colocar verdadeiramente a sua existência em perigo, quase como que directamente saída de um desenho animado dos "Looney Tunes". Esta é perigosa, hilariante e perturbada. É capaz de conter no seu interior um bom fundo, ou melhor, um fundo menos mau, tal como consegue abarcar uma malícia eivada de ingenuidade. Foi alvo de violência, saiu de um envolvimento doentio com Joker, aguentou protagonizar o medíocre "Suicide Squad" e conserva no seu âmago uma série de traumas que faz questão de salientar em diversos trechos da fita. Essa mescla de vulnerabilidade e invencibilidade, tristeza e alegria, independência e dependência é espelhada com enorme vigor, carisma e apetência por Margot Robbie, com a actriz a atribuir alma e capacidade de despertar empatia a esta criminosa de roupas extravagantes, tez pálida e uma miríade de tatuagens que muito dizem sobre a sua pessoa. O argumento raramente explora com profundidade essa faceta trágica desta jogralesa, nem parece ser a sua intenção, ainda que não seja totalmente descurada. Acima de tudo, o foco está no humor e na acção, com a leveza e a exuberância a dominarem regularmente as atenções.

Um dos pontos fortes de "Birds of Prey" é exactamente a sua faceta cómica, quase farsesca. Por vezes pensa que é mais engraçado do que realmente é, ou simplesmente imagina que é mais irreverente do que é na realidade. Note-se o uso errático da narração em off, com a informação proporcionada pela protagonista a apresentar em diversas ocasiões um lado redundante ou ansioso por reforçar as características peculiares e escarninas desta figura. No entanto, são pequenos deslizes que raramente se intrometem no excelente timing cómico de quase todos os envolvidos, bem como nos inspirados gags. Note-se como o alter ego de uma anti-heroína rapidamente proporciona algumas situações hilariantes, ou como o modo de dialogar da detective Renee Montoya (Rosie Perez) é satirizado. Essa sátira permite desconstruir alguns lugares-comuns e jogar com os mesmos, um pouco à imagem dos avanços e recuos que o filme apresenta em diversas ocasiões, quase a trazer Deadpool à memória (para nos focarmos em fitas com tons semelhantes), enquanto ficamos diante da formação do grupo do título e da emancipação de Harley Quinn. A sua história de origem é apresentada no início da película, em trechos de animação dotados de exuberância, cores extravagantes e o humor que associamos a esta figura. Diga-se que alguma desta informação inicial é repetida ao longo do filme, com "Birds of Prey" a denotar uma vontade indómita de triturar o seu conteúdo e mastigá-lo antes de o colocar na goela do espectador.

26 janeiro 2020

No quarto de Greta Gerwig

 As regras de bom senso e o pragmatismo dizem que não devemos começar um texto com uma citação muito longa. Deixemos estes dois nossos amigos temporariamente de lado para mencionar uma fala proferida por Amy (Florence Pugh), a mais jovem das irmãs March, durante um momento de enorme impacto de "Little Women": "I'm not a poet, I'm just a woman. And as a woman I have no way to make money, not enough to earn a living and support my family. Even if I had my own money, which I don't, it would belong to my husband the minute we were married. If we had children they would belong to him not me. They would be his property. So don't sit there and tell me that marriage isn't an economic proposition, because it is (...)". A fala remete para a condição de enorme fragilidade em que se encontra a mulher no período em que se desenrola o enredo, em particular, durante a Guerra da Secessão, bem como para o modo como o casamento era encarado. Diga-se que este trecho dialoga e muito com uma fala proferida por Jo (Saoirse Ronan) durante uma fase mais adiantada da trama: "Women, they have minds, and they have souls, as well as just hearts. And they've got ambition, and they've got talent, as well as just beauty. I'm so sick of people saying that love is just all a woman is fit for". Florence Pugh e Saoirse Ronan incutem sentimento e espessura a estes momentos, enquanto Greta Gerwig aproveita o passado para comentar o presente e problematizar o que é ser mulher, a luta destas para se afirmarem no interior de uma sociedade que teima em condicionar a sua acção e o papel do dinheiro para essa afirmação.

Ao terminarmos de visionar a nova adaptação de "Little Women" é particularmente notório que a realizadora e argumentista admira e entende aquilo que está a transportar para o grande ecrã. Essa admiração e esse conhecimento do material de origem contribuem e muito para a assertividade com que a cineasta comenta o livro e o contexto em que este foi escrito e publicado, bem como para desconstruir a sua estrutura e criar um filme dinâmico, dotado de uma enorme sensibilidade e de uma assinalável capacidade de aquecer o mais gélido dos corações. Ao contrário da adaptação realizada por Gillian Armstrong, Greta Gerwig não segue a estrutura de "Little Women" e de "Good Wives", a sua continuação. Nesse sentido, é o segundo volume que serve de ponto de partida e de chegada, intercalado com episódios do seu antecessor, uma decisão que permite dar a conhecer quer aquilo que une e separa as quatro irmãs, quer o seu amadurecimento ao longo do tempo e as dinâmicas da família March. É uma medida que contribui ainda para que a realizadora capte e transmita a essência da obra literária. Vale a pena realçar que a reverência e o respeito de Greta Gerwig pelo trabalho de Louisa May Alcott é ainda particularmente notório no desfecho da película, quando as limitações que foram impostas à escritora são desnudadas, sempre com algumas doses de humor e sagacidade à mistura.

01 novembro 2019

Crítica: "Road House" (1948)

 Com a perna alçada em cima da secretária, pé descalço, cartas a viajarem de uma mão para outra, uma atitude confiante e um cigarro aceso à espera de ser tragado, Lily Stevens provoca impacto desde os trechos iniciais de "Road House", nomeadamente, quando chega ao clube nocturno gerido por Pete Morgan (Cornel Wilde). A câmara bem enfatiza essa preponderância ao deslocar-se sorrateiramente até revelar o semblante desta artista provocadora, decidida e sedutora. Dotada de um olhar que é capaz de expressar uma quantidade assinalável de palavras e sentimentos, Ida Lupino transmite estas especificidades desta espécie de femme fatale e o seu charme. A face da intérprete está em realce em diversos momentos. O realizador Jean Negulesco e o director de fotografia Joseph LaShelle exacerbam o magnetismo emanado pelo rosto da actriz, enquanto esta demonstra por diversas vezes que a sua Lily não é uma donzela indefesa ou alguém que se submete aos homens. Essa situação é particularmente visível quando a encontramos a esbofetear Pete, um acto que reforça as suas intenções de não abandonar o local e contraria os anseios deste indivíduo. Este encara-a como uma despesa demasiado cara, como mais um dos devaneios de Jefty (Richard Widmark), o dono do local, um indivíduo que não consegue conter os impulsos.

É o personagem interpretado por Richard Widmark quem contrata Lily, por quem se apaixona, ainda que não seja correspondido. Inicialmente parece apenas ingénuo e impulsivo, embora o intérprete faça questão de deixar  latente que a postura mimada e obsessiva deste antigo militar pode contribuir para gerar imensos problemas. Widmark tem os seus melhores momentos a partir do desenvolvimento da fita, quando Jefty começa a expor o seu lado mais perigoso e manipulador, pronto a deixar que uma ferida aberta no coração tome conta da razão. Está longe de saber ouvir um não, ou de assumir uma postura pragmática, ao contrário de Pete, com quem tem uma relação de amizade desde os tempos em que serviram o exército durante a II Guerra Mundial. Se o dono do clube nocturno fica imediatamente interessado em Lily, já o gerente apresenta uma atitude diametralmente oposta. Existe uma tensão notória a rodear estas duas figuras, mas também uma atracção que se desenvolve através dessa irrisão. O olhar surpreendido que Pete apresenta quando observa pela primeira vez a artista a tocar piano e a cantar não engana. Está encantado. A luz que a ilumina também não deixa mentir ou esconder o quanto a protagonista é capaz de brilhar mais alto e irradiar um encanto que impossibilita qualquer tentativa de desviar o olhar.

24 outubro 2019

Crítica: "Il traditore" (O Traidor)

 O fumo serpenteia pelos cenários e pelos rostos durante os diálogos que Tommaso Buscetta (Pierfrancesco Favino) e Giovanni Falcone (Fausto Russo Alesi) trocam durante uma série de interrogatórios, quase a trazer à memória os filmes noir e a sublinhar o ambiente de incerteza e mistério em volta do futuro destes dois personagens e do contexto que os rodeia. Uma indefinição que é acompanhada por uma ideia de fugacidade, com a morte a parecer pairar a cada momento da vida destes elementos, um pouco à imagem desta fumaça. É um recurso utilizado por diversas vezes pelo realizador Marco Bellocchio e o director de fotografia Vladan Radovic ao longo de "Il traditore", um filme inspirado na história de vida de Tommaso Buscetta, um "soldado raso" da Costa Nostra, em particular, do ramo da "velha máfia de Palermo". Pierfrancesco Favino consegue exprimir a complexidade desta figura, as suas contradições, os seus dilemas, o seu apego à família e o seu lado mulherengo, a sua inteligência e pragmatismo, bem como os seus receios, a sua coragem e o seu carisma, com o intérprete a ter aqui um daqueles papéis que deixam marca quer no currículo, quer no espectador.

Favino tem mérito, mas bem pode agradecer a Marco Bellocchio. Não só pelo argumento, mas também por dar tempo para os personagens "respirarem". Observe-se os já mencionados encontros entre o mafioso e o juiz Giovanni Falcone, muito marcados por longas trocas de diálogos e um punhado de planos fechados que realçam as expressões dos rostos e os estados de alma. Diga-se que estes trechos permitem ainda dar a conhecer mais sobre os dois personagens, bem como conceder tempo para que se percebam melhor um ao outro e estabeleçam uma relação que tem espaço de sobra para crescer junto do espectador. Alguns dos traços do "chefe dos dois mundos" são expostos logo no início de "Il traditore", quando somos colocados perante a reunião de membros da "velha máfia de Palermo" e a "nova máfia corleonesa" no interior da mansão de Stefano Bontade (Goffredo Maria Bruno). A festa de Santa Rosália é o evento que decorre em pano de fundo, com os festejos e uma fotografia a não esconderem o mal-estar que contamina um período de aparente acalmia entre as facções rivais.